a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

06/02/2023

O puma das neves

Hoje dei boleia à Clara depois do trabalho. A distância que percorremos é tão curta que, se ela caminhasse, chegaria mais depressa à estação. Àquela hora, o rosa crepuscular já no tom da noite, deslizamos devagar na fila compacta, de semáforo em semáforo. Mas como dá para alguns minutos de conversa, eu ofereço a boleia e ela aceita-a. Hoje ia especialmente contente para apanhar o comboio. Mal se sentasse, pegaria no livro que começara a ler de manhã. Perguntou-me se eu o conhecia. É sobre o puma das neves, um felino que vive em terras geladas, muito altas, num lugar que me pareceu inexistente, na China. Houve ainda tempo para ela me mostrar no ecrã do seu telefone como é o puma das neves. Eu estava a imaginá-lo todo preto, mas não. O puma das neves é malhado sobre um fundo de pelo esbranquiçado. Fiquei com vontade de ler o livro. 

(realmente estou no trabalho certo) 


Errata: onde se lê puma deve ler-se pantera. 

23/12/2022

A todos um Feliz Natal 🎄

A propósito, o que é um Santo Natal, é um Natal sem maldade nenhuma?

Prefiro um Feliz Natal a um santo, pelo menos aquele sei o que é, felizmente. (lá está) 

(estou aqui estou a fazer um Twitter a sério para estes assuntos meio mortos coitadinhos) 

Velocidade furiosa 23 (de dezembro)

Vinha o autocarro lançado desorientado a Norte a fazer-se à rotunda de Moscavide com tanto entusiasmo que eu estaquei a montante da zebra para peões um bocado admirada observando a faixa luminosa do veículo alternar os votos sazonais de Feliz Natal com a informação habitual da carreira. Vinha vazio. Passou que nem doido a decímetros da minha barriga por opção. Eu podia ter-me posto a metros. Estamos num país livre.

21/12/2022

Bichos do dia

O solstício chega hoje, por isso a partir de amanhã os dias recomeçam a crescer neste lado do planeta. Me gusta. Lo que no me gusta é ter acordado às 4h36 sem jeitinho nenhum. Pelas 5h40 decidi ir tratar dos gatos – os quais já estavam a dar sinais – e de mim. Tratar de mim às 5h40 significa fazer café e, no caso de hoje, também duas torradas do pão que a Saminhas diz ser isento de glúten. É o único que temos neste processo de tentar terminar os residentes de longa duração no congelador da casa. Há limites.

Ontem as chuvas foram menos valentes do que se esperava e as ruas andavam sossegadas de carros devido a muita gente ter ficado em casa depois de mais uma mensagem curta proveniente da proteção civil nos ter avisado das possibilidades de cheias. (respirar) Goraram-nos as expectativas, portanto bastante bom.

Falta só dizer que, quando derrotada cheguei à cozinha para abrir uma latinha de comida para gato, ouvia-se, vindo da rua (e não de algum dispositivo inteligente), um chilrear produzido por mais de um pássaro. Abri a janela para confirmar. Como seria de esperar, não identifiquei a espécie. Antes estranhei em plena noite de solstício de inverno chilreios animados assim. Creio que deviam estar a dormir todos os bichos que são do dia, incluindo eu.

08/12/2022

Querida, não desconstruí as calças

Há bocado, quando saí para a rua na busca de um ou dois víveres inesperadamente faltosos para o almoço, já não era cedo. Mesmo assim, tomei o cuidado de optar pelo casaco mais compridinho que tenho. Aquela conversa de há um ano, nos saldos de uma loja moderníssima situada nos centros comerciais mais palpitantes da atualidade, ainda não foi digerida pelo outono da minha idade. A elegante vendedora de maquiagem perfeita garantiu-me, com o olhar mais firme e profissional, que as calças que ela se me propunha vender, muito muito muito confortáveis e que parecem de pijama, não parecem de pijama. Disse ela ainda, toda inteligente, que “é preciso desconstruir” [a ideia de que as calças que parecem de pijama, parecem de pijama]. Ora eu fui mesmo atingida. Na mouche da minha fraqueza por saldos de lojas moderníssimas situadas nos centros comerciais mais palpitantes da atualidade, dispus-me imediatamente a desconstruir ideias doidas como aquela de calças muito muito muito confortáveis parecerem de pijama (senhores!). Portanto, valentemente a caminho do natal de dois mil e vinte e um como ali estávamos, comprei-as.

Hoje, passados doze meses, ainda me detenho com as calças na mão antes de me enfiar nelas, ponderando avisadamente se precisarei ou não de ir à rua levar as marotas a passear. Tipo não adoro que os meus vizinhos, os quais provavelmente não fizeram qualquer evolução no sentido da precisada desconstrução, me vejam de pijama.