a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

07/12/2022

Também se chama tempestade

Chove muito, troveja e está vento. As estradas já estão alagadas com a água a dar pelo meio dos pneus e notei, quando vinha do jantar com a Carla, que o piso menos três do estacionamento do Vasco da Gama estava tipo mar, sim, fazia ondinhas.

Vinha cheia de sede e de repente irritei-me com o automobilista que não respeitou as prioridades e se meteu todo à minha frente no meio da chuva; dei-lhe luzes. Era um tvde, talvez andasse à procura de algum cliente escondido pela trovoada muito confuso. Senti remorsos, engano-me quando sou intolerante. Os tvde agora já não oferecem aguinhas nem rebuçados ou musiquinha ao gosto do freguês, mas não foi por isso, claro. E penso que também se vão esquecendo de lavar o carro duas vezes por dia, especialmente por dentro.

03/12/2022

Ou agendas muito boas e livros mesmo lindos

Subscrevi a assinatura do Público desmaterializado para ler o Miguel Esteves Cardoso, o Miguel Esteves Cardoso e o Miguel Esteves Cardoso. Neste momento não estou a ver o que andei cá tanto tempo a fazer sem ler o MEC em doses bastante industriais e de preferência diárias. Mas a verdade é que me havia enfiado imenso no Diário de Notícias e no Expresso em assinaturas de longa duração e uma pessoa não pode ter tudo. 
O Expresso é um querido, mas chatíssimo de ler na versão desmaterializada, já agora insisto, devido à maneira de ir andando pelas páginas. Perco-me sempre ali toda e depois é um sarilho para encontrar a saída. Então respiro fundo e vou-me agarrar a um cafezinho.
O Diário de Notícias conquistou-me materializado nos verões dos anos oitenta, na praia grande, particularmente às terças-feiras. Aquilo eu não descansava enquanto não me estendesse no areal a encharcar-me em crónicas nas folhas do suplemento. Mas agora deu em anúncios aos saltos constantemente a ocupar bocados da já de si diminuta área de leitura, este ecrãzinho em que escrevo. Portanto acabaram-se os amores na versão, vamos lá, desmaterializada do DN. (As folhas derivadas da pasta para papel eram tão sossegadinhas.) 
Mas enfim, sempre foi muita árvore poupada. Já basta as que consumo avidamente em agendas mesmo lindas e livros muito bons. 

30/11/2022

A lata

Voltamos à emissão já o sol iniciou a sua descida para contar que há pouco, enquanto deitava colheres de café em pó para dentro do filtro do mesmo, vi através da janela a senhora que passeia o cão de bicicleta a passear o cão de bicicleta. Atenção que é ela na bicicleta e o cão a correr no chão coitadinho (acho que arfando). A senhora desta vez olhou diretamente para mim mas não acenou porque numa mão levava o guiador da bicicleta e na outra a trela do cão. Eu também não acenei porque numa mão tinha a colher do café e na outra a lata do mesmo. E não a lata da senhora. 

Acho aquilo uma preguiça no espectro do agudo mas quem sou eu.

26/11/2022

Um cêntimo

Esta cidade não é exceção no que ao cumprimento da tradição respeita. As pessoas vivem em casas ordenadas, com jardins geométricos, as bermas e os passeios recebendo aos dias certos a ordem dos caixotes do lixo, também nas cores certas, as pessoas saindo de casa às cinco da tarde nas suas bicicletas munidas das malas de compras e cumprimentando-se quando se cruzam. Vão buscar ao supermercado da pequena cidade os alimentos para a refeição quente do dia, o jantar. Se, uma hora depois, fora desses hábitos mais antigos, caminharmos pela rua, sente-se o cheiro de refeições preparadas em fogões modernos de cozinhas práticas e funcionais. Esta cidade não é exceção. Mas, como qualquer regra, pode aceitar um rasgo de doçura mais fundo, uma manifestação de intenções de criatividade inesperada, até mesmo uma linha de horizonte onde se lê o amor na língua mais universal, pode sim. 

O rapaz chamara-me a atenção logo quando passou por nós na sua altíssima bicicleta e, depois de a arrumar num dos lados da casa, o vi, com a sua mochila atirada ao ombro, a digitar no ecrã do telemóvel enquanto lançava passos enormes até à porta de casa. E agora, na fila do supermercado, reconheço-o. Enquanto vou metendo as nossas compras no saco, que não são muitas, vejo-o erguer o corpo espigado levantando os calcanhares, depois voltando a assentá-los, esfregando as mãos ao lado do corpo, nas calças, sorrindo enigmaticamente. Uma das suas grandes mãos sai da coreografia e vai acariciar o único produto que havia colocado no tapete da caixa: uma vagem de feijão verde, das pequenitas, com a etiqueta que a balança emitiu colada nela, sobrando por todos os lados, ostentando grandes números e um código de barras. Apurei a vista e li o preço da vagem pesada: 0,01 €. O rapaz exultava. O sorriso enigmático mais intenso, luminoso e profundo. Atravessava-lhe uma vaga tonalidade azul, ali parece que brincando com as madeixas de cabelo solto, caído sobre a testa em desordem. Segui o feixe que os seus olhos lançavam e aterrei os meus na rapariga loira, muito holandesa, que registava os produtos na caixa. Os nossos produtos. A vagenzinha de feijão verde aguardava debaixo da enorme etiqueta que apenas lhe deixava as extremidades de fora. Por momentos o conjunto de cabeça que ela usava, ou podemos dizer headset se quisermos, mas eu não quero, o conjunto de cabeça que ela usava, com o microfone a envolver-lhe a frente da boca, combinando com os seus gestos mecânicos e as perguntas que descarregava para os clientes de acordo com a formação que recebera, esse conjunto de cabeça havia escondido o seu rosto corado. A rapariga esforçava-se por parecer profissional, isenta, assética, limpa de emoções. Quase conseguiu. Quando ela nos perguntou se tínhamos selos de desconto e queríamos o papel da fatura, já eu estava imbuída daquele rasgo de doçura que ali esperneava para sair pelos poros de um menino muito alto, quase homem, em jorros de intensa alegria. O que é o amor senão uma estrondosa, insuportável, concentração de alegria?

19/11/2022

Já chegou o frio e a neve também quer

A vizinha da frente esquerda, a dos carros muito feinhos, era muito feinho o primeiro carro que ela tinha quando se mudou para aqui com a família o ano passado e é muito feinho o segundo carro, pelo qual trocou o primeiro, a diferença entre eles é o musgo muito sujo entranhado que o primeiro tinha e o segundo ainda não teve tempo de ganhar, mas como eu ia dizendo, a vizinha da frente esquerda tem uma pequena tabuleta feita à mão espetada na terra do seu jardim, junto ao passeio e virada para quem passa nele e para o tal seu muito feinho carro. A tabuleta mostra uma informação que, vista daqui, parece ter bonecos coloridos. A avaliar pela sua altura, estou em crer que se trata de uma espécie de “não faças cocó neste local”, mensagem obviamente destinada ao público-alvo canino da rua quando já vai aflitinho, mas tenho de me aproximar como quem não quer a coisa, para confirmar tudo. Quem sabe, a vizinha está assim a proteger a área circundante do seu novo e feinho carro. Pode ser que, deste modo, se acumulem nele menos camadas de musgo muito sujo.

(entretanto, comecei a ler o Carlos de Oliveira, “Casa na duna”, ah pois)