a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

13/03/2023

Alterações de percurso

O percurso da caminhada holandesa que faço para cumprir os cinco quilómetros que deviam ser diários, mas não são, inclui uma rua que tem uma só casa. A casa não tem vedação. A demarcar o terreno há relva, num lado, e, no outro, canteiros nus que aguardam a primavera. A rua não está alcatroada, por isso, quando chove, os sulcos profundos que os veículos agrícolas fazem ao circular por ali, enchem-se de lama. Mas não é a lama que ultimamente me faz voltar para trás e encurtar os cinco quilómetros bem medidos. É o cão velho, grande, preto que guarda a casa sem vedação. Dantes, o cão ficava deitado a rosnar baixinho sem se mexer. Mas agora, quando me vê aproximar na estrada, levanta-se do seu poiso de vigia e vem largado a correr, ladrar e rosnar, rouco, na minha direção. O cão está sempre solto e possivelmente é inofensivo, mas eu não consigo passar, tenho medo.
O percurso da minha caminhada holandesa vai portanto sofrer alterações.

12/03/2023

Olá Chat(inho)

Desconfio que a enormidade de visitas que este blogue tem tido ultimamente já não são mero lixo convencional de cliques atirados para ali ao acaso por motores potentes mas sem rumo nenhum de jeito, mas sim – atenção! - o famosíssimo ChatGPT (um qualquer da família serve) que anda a vir aqui frequentemente petiscar assuntos vários para construir as suas rápidas e artificialmente inteligentes respostas. Caso contrário, como explicar tanta visita maluca por dia num singelo e meio-abandonado blogue?

06/03/2023

No comboio

Toda a gente que vejo do meu lugar viaja mergulhada nos respetivos telemóveis, evidentemente. De súbito, o homem asiático à minha frente levanta a cabeça e olha para um ponto no vazio. Parece pensar. Imagino-o informático. Ou talvez engenheiro mecânico, ou engenheiro de sistemas. Sistemas diversos, um pouco misteriosos, mas sistemas. Não o vejo enfermeiro, psicólogo ou advogado. Faço o resto da viagem enumerando mentalmente profissões que não lhe atribuo. Marinheiro, agricultor, padeiro. O homem asiático - talvez chinês, coreano, japonês - conclui a sua reflexão, sorri sozinho no vazio, e regressa ao mundo digital do seu telemóvel. Não notou a minha existência e nunca saberá deste texto. Depois, como eu, sai em Utrecht Centraal para a noite fria, chuvosa. 

05/03/2023

Não cortas as unhas aos gatos?

A minha mãe viu os arranhões na minha testa ficarem mais vermelhos. Disse que eu os esfregava enquanto falava, nervosa. Foi buscar água oxigenada e algodão. Esticou-se para tratar os arranhões. Disse que podiam infetar. Eu ri-me. Não infetam, são superficiais. O algodão molhado refrescou-me as ideias. Perguntou se prefiro betadine. Eu não sei o que disse. Ri-me de novo. Mas ela foi buscar o betadine e mais algodão. Depois disse que a minha testa ficou castanha e que o betadine não era bem betadine, era o produto da marca do Continente, o único existente na altura do coronavírus quando o comprou. 

07/02/2023

Dia de folga

Era domingo e tinha chovido toda a tarde. Quando peguei no carro estacionado debaixo da buganvília sem flores nem folhas, já a noite havia caído. Fiz-me à estrada serra abaixo e Portugal abaixo com destino a Lisboa, onde iria trabalhar presencialmente no dia seguinte. Parei – como tantas vezes – na estação de serviço de Santarém, que é mais ou menos a meio caminho. Ao entrar nas instalações sanitárias, fui recebida por uma quantidade não habitual de sujidade, com falta de papel higiénico e cheiro duvidoso a pairar. Mas ia concentrada em entrar no cubículo que escolhi para o assunto que ali me levou sem tocar nos bordos da sanita com o meu belo e novo casaco compridinho. Em princípio consegui (ainda não estou assim tão gorda, embora quase) e só depois me caiu a ficha, ou seja, me dei conta da situação ali toda esquisita. Não é costume, realmente. O costume é estar o chão limpo, o ar cheirando a detergente de lima-limão ou frescura da montanha e haver papel higiénico. Mas então penso um pouco mais a fundo e batendo com a mão na testa recordo a mim mesma: é dia 1 de janeiro! As pessoas da limpeza (ia escrever senhoras da limpeza) também têm direito a ter este dia de folga!

Saí dali mais contente. As pessoas que limpam as sanitas, o chão e outras porcarias, pelo menos não o fazem no dia 1 de janeiro. E nós, as que não o fazem é nunca, temos oportunidade de sentir a falta do seu trabalho que é tão importante. Essencial. Devia ser um trabalho muito bem pago.