a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

11/07/2026

Engomadorias, tomar nota

O caminho que faço quando vou a pé para o escritório tem, na reta final, uma zona onde confluem as pessoas que vêm dos comboios, do metro e dos autocarros. Tenho sempre de abrandar o passo, para não colidir com ninguém. Ficamos bastante aglomerados no passeio aguardando o verde para atravessar e, por vezes, nem cabemos todos no separador empedrado. Observo os que esperam, à minha frente, o semáforo abrir. 
Quase toda a gente transporta às costas uma mochila de computador; alguns levam também a lancheirinha do almoço.
Há dias, a camisa de tecido fluido e riscas verticais em terracota que uma mulher jovem vestia estava amarrotada como depois de secar da lavagem. Há mulheres que se recusam a passar a roupa a ferro e estão no seu direito.
Com este pensamento cheguei ao meu destino. Empurrei a enorme porta do edifício, subi as escadas e, ao entrar no escritório, dei os bons dias aos meus colegas já concentrados nas suas tarefas. 

08/07/2026

Mistérios circulantes entre Lisboa e a Guarda

Viajar nestes comboios velhinhos intercidades é um fartote contra a monotonia e a previsibilidade. 
Em termos matemáticos, há a numeração dos assentos que não atribui a lugares contíguos números sequenciais, como toda a gente faz nos aviões, nas salas de cinema, de teatro, nos quartos de hotel. Nestes comboios velhinhos temos o lugar 107 junto ao 105 e o 108 junto ao 102. A lógica disto deve tirar-se no último ano de um curso muito avançado. 
Em termos de situações inesperadas que requerem um bocadinho de literatura improvisada, tivemos hoje o senhores passageiros lamentamos informar que o bar deste comboio não está a funcionar por motivos desconhecidos. Portanto é não vir com curiosidade na cabeça para dentro deste material circulante, porque ela continuará insatisfeita. 
Por fim, e para não maçar muito, deixo o relato sobre o que eu temia que viesse a acontecer devido à excelência de funcionamento da app: duas pessoas com bilhete válido para o mesmo lugar, uma delas eu. 

(ao menos interrompeu-se a ansiedade desgraçada que me consome há semanas, com a iminência da saída dos resultados dos exames de março) 

06/07/2026

No intervalo do jogo

A mulher que (ao contrário de quase todos nós) não vai a olhar para o telemóvel, deitou-se no banco do comboio com a cabeça apoiada no braço do lugar vazio ao seu lado. Tem aberto na mão um livro de Mia Couto e ainda não o largou. "Na berma de nenhuma estrada", é o título.
Porque a posição não deve ser lá grande coisa de conforto, a somar ao chocalhar da carruagem intercidades, tanto se ajeitou melhor, tanto se ajeitou melhor, que lhe saltou do cabelo a pinça que o apanhava e que embirrava com o encosto improvisado. Um jovem passageiro que fala francês com a namorada esticou-se para apanhar o acessório do chão, que lhe entregou educadamente. Ela torceu o corpo magro para aceitar a pinça tresmalhada e continuou a incursão na tal berma de nenhuma estrada, mantendo agora o saltitante objeto na mão. 
Hoje o comboio vai muito bem. Nem um frio congelante como o de há duas semanas que me remeteu o pensamento para a arca congeladora de um talho, nem o calor sufocante da semana passada, a partir do qual cheguei a pensar que desmaiava completamente. Também não vai ninguém a ver vídeos no telefone em alto e mau som, graças a deus. Assim, perdoa-se muito melhor o atraso habitual com que fomos de novo brindados e acede-se também com mais vontade ao pedido muito conhecido para os senhores passageiros compreenderem os incómodos causados.

05/07/2026

Uma limpeza

Enquanto a manhã de domingo avançava para a canícula vigente, levou o terraço a esfrega anual, desenterrando a sujidade que escapara às voltas dos varrimentos mais brandos. Desenrolada a mangueira com a pressão no máximo, fazendo-se acompanhar das vassouras num esforço aplicadíssimo e arredadas mesas e cadeiras, deu-se a remoção completa dos restos de coleção do último outono-inverno no que a folhas secas e raminhos entranhados nos recantos diz respeito. Também as polinizações da primavera, que trouxe os grelhados de peixes vários pingados aqui e ali, foram alvo da grande operação de fundo. Só os toros de lenha remanescentes se deixaram ficar amontoados a aguardar serventia quando, por incrível que hoje pareça, o frio descer à serra e o sol de novembro for de pouca força.
Os onze dióspiros hoje em tamanho verde e ritmo de crescimento lento, estarão então da cor do fogo, plenos de promessas tão suculentas como encantadoras. 

Mas ainda julho mal começou. Aproveitemos pois o interior da casa de pedra, onde o fresco ainda se agarra às paredes muito antigas, a janela fechada deixa passar um pouco da luz da tarde e duas ou três moscas esvoaçam em círculos, num zumbir que vem do fundo dos velhos meses de verão. 

01/07/2026

Notícias jardineiras

Deitava-se a noite sobre a serra, vencendo lentamente os laivos vermelhos de céu, quando estacionei o carro debaixo da buganvília. 
Dois dias na capital e o jardim continuou a medrar, mostrando-me os progressos sob a iluminação elétrica: as maçãs começaram a cair, as peras já quase me enchem a mão, as rosas continuam a abrir. E a figueirinha que plantámos o ano passado, também não ficou a preguiçar: notoriamente mais crescidos, estão os figos. Ambos.