a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

21/09/2022

Mas pavões bebés entre os livros, isso sim

Ainda me zumbe nos ouvidos a gritaria que foi ir à Feira do Livro na cidade do Porto. Uma pessoa vai ingénua fazer fé na estação de São Bento para entrada, mas qual quê. Nem toda a beleza dos azulejos, dos ferros trabalhados e das outras obras de arte para as quais logo nos faltam os olhos cansados, que encimam as cabeças de hordas de turistas com telemóveis ao alto, nos safa. Saímos da estação para respirar e somos atropelados pela orquestra de motas a serpentear por entre os carros furiosos que por sua vez se desviam de prédios em obras e mais prédios em obras. Ao menos ficamos a saber em que altos ruídos opressores se inspiram os tais DJ de topos de telhado ou lá o que é aquilo. 

18/09/2022

Uvas morangueiras

De manhã li dois contos da Clara Pinto Correia, numa edição antiga da Relógio d’Água comprada na Feira do Livro do Porto por cinco euros. Cada vez leio mais silêncios destes. Não são silêncios absolutos, são suspiros, outras vezes sussurros, ou então apenas um monólogo numa voz que não pretende chegar a nenhum lado e por isso não leva urgência, antes traz macieza.

Depois peguei a rua empedrada e fui andar até ao fim da estrada de terra batida, atravessada aqui e ali por pegadas das corças e, ao comprido, riscada pelas marcas da carrinha do padeiro. A estrada sobe, ladeada de altíssimos eucaliptos, até à nacional, onde termina. Aí, dou a volta e desço de novo à aldeia. Junto a uma das casas abandonadas à entropia, cuja fachada foi erguida rente ao empedrado, resiste um punhado de hortênsias com as pequenas pétalas muito doentes, claramente tentando não morrer de tristeza. Não peguei no trabalho. Estendi a roupa ao sol, no terraço, e cortei alguns cachos de uvas morangueiras para levar à minha irmã, juntamente com os bolos que irei comprar ao padeiro quando ele passar mais tarde, por ser sábado.

15/09/2022

Mas continua a chover

A carrinha do padeiro anuncia a sua chegada com a buzinadela habitual. Agarro na moeda de um euro e abro a porta. O padeiro está a pendurar o saco de plástico com as carcaças contadas na cerca retorcida da vizinha inglesa do botox, do outro lado da estreita rua. Depois volta-se para mim, sorri e eu digo a quantidade de pão para hoje. Enquanto ele prepara o saco para me dar, a vizinha sai de casa e desce a rampa até à provisória cerca. Traz o seu cabelo escorrido apanhado num rabo de cavalo, uma camisola sem forma que suspira por lavagem, umas leggings em condições semelhantes e um par de chinelos já sem cor revelando uns pés deformados pelas agruras de uma vida apertada, muito triste. Em silêncio, apanha o saco com o seu pão e regressa pelo mesmo caminho até desaparecer atrás da porta da casa. Eu também não a cumprimentei. Aceito que ela prefira ignorar quem tem a sorte de carregar na alma uma mínima dose de paz. Aquela que, quando falta, incita o coração vazio, inquieto, doente, a presumir inimigos em cada canto. Mesmo que numa aldeia de três ruas, muitos gatos e um par de veados que já entraram na brama.

13/09/2022

No alfa das seis e nove

Olhar pela janela até ao fim das árvores em movimento, sopesar a nuvem que as encima preta com os olhos (preta posso dizer), espiar a abordagem de alguma águia concentrada, invocar a minha primeira bolacha oreo ou reler a música de palavras que componho no trabalho. E o chapéu de chuva desocupado da sua função, fechado desde abril dentro de uma das quatro malas que viajam comigo. Mas por mim nem precisava.

(e também posso desarrumar palavras, posso posso)