a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

08/09/2026

Olá, setembro

A insónia rendeu bem esta noite. Apanhou-me na curva das três para as quatro, aquela horinha em que adormecer está quieto. Então já que é assim levantei-me. O quarto estava quente, as pedras da parede a largarem o calorzinho que lhes ofereceu a tarde.  Mesmo assim, embrulhei-me no robe. Desci as escadas com cuidado, não fosse um pé escorregar-me para fora do chinelo no escuro.
Para suavizar os estalidos metálicos que assustam o silêncio, abri devagar a porta que dá para o terraço. Na névoa fresca da noite, imobilizei o corpo a escutar o breu.
A insónia rendeu bem esta noite. De longe, chega-me através da humidade do ar, projetado pelas entranhas do cio, o uivo de um veado macho. A brama já começou.

03/09/2026

Peço batatinhas

Trouxe umas folhas do trabalho para ler no caminho, um livro de poesia farto de estar em casa e outro livro mais cheinho para encetar.
Depois fiquei um bocado coisa, talvez os meus olhos cansados ou a cabeça com ganas de almofada. Portanto puxei de um suspiro fundo, com restos dos frutos secos da tarde, e fiz-me ao telelé (já ninguém diz telelé). Encaminhei-me para os fundos do blog e estacionei nas estatísticas com risos. Há que tempos que não visitava esta cave mofenta. O que para ali vai!
Então temos visitas do Bangladesh neste restinho de internet? Milhares de gente nos estados desunidos a cá vir por dia? Para não falar nas paletes de europeus de várias cores e sei lá mais o quê que agora não me lembro.
Enfim. (Está-me a cheirar a vinho aqui no comboio, vinha a tentar disfarçar mas claro que vou no comboio, vou sempre no comboio, é no comboio que há tempo para os extras de origem).
A noite a cair deslizando na horizontal ali fora e a vontade de comer batatas fritas de pacote (trazida de Lisboa) inteirinha da silva. Mas não posso, já basta de gordices. 
Apetecia-me ser mais alta, mais magra e mais inteligente.
Mas daqui a pouco já passa.

30/08/2026

Corações duplos

A jovem sentada à minha frente no comboio come uma salada de cuscuz e húmus de uma caixa de plástico. Por talher usa uma colher que na outra extremidade é um garfo o qual, por sua vez, num dos dentes externos tem uma serrilha portanto é também uma faquinha. Intercala cada colherada-garfada-facada com mensagens que digita no telemóvel. Da última vez que o pousou para comer mais uma (colherada-garfada-facada) vislumbrei o ecrã com as mensagens trocadas no WhatsApp. A jovem da salada de cuscuz e húmus acabou de receber uma linha de emojis em forma de corações duplos.

O comboio ainda está parado na estação de partida, faltam três minutos. Pela janela, vejo um homem de tez muito morena carregando um saco de compras bastante usado. Dentro, vai pondo garrafas de plástico vazias que retira do caixote próprio para separação do lixo ali disposto e muito sujo. Para isso, enfia um braço inteiro dentro do caixote - já deve estar a apanhar as garrafas do fundo.

Conclusão, não foi este homem quem enviou à rapariga sentada à minha frente a linha de corações duplos. Ai não foi, não.

22/08/2026

A altura dos tornozelos

Em Putten, uma pequena cidade na Holanda, há um café onde se enfeitou a casa de banho das mulheres (e suponho que a dos homens), com incentivos a aproveitar-se muito bem a vida. 
Na face interior da porta de um dos cubículos, está impresso um excerto do livro "As 50 sombras de Grey" que ocupa toda a porta. Eu não li o livro. Mas li este excerto, de alto a baixo. Não deu foi para aproveitar grande coisa. Só decifrei mesmo o título indicado no fim, mais ou menos à altura dos meus tornozelos.

11/07/2026

Engomadorias, tomar nota

O caminho que faço quando vou a pé para o escritório tem, na reta final, uma zona onde confluem as pessoas que vêm dos comboios, do metro e dos autocarros. Tenho sempre de abrandar o passo, para não colidir com ninguém. Ficamos bastante aglomerados no passeio aguardando o verde para atravessar e, por vezes, nem cabemos todos no separador empedrado. Observo os que esperam, à minha frente, o semáforo abrir. 
Quase toda a gente transporta às costas uma mochila de computador; alguns levam também a lancheirinha do almoço.
Há dias, a camisa de tecido fluido e riscas verticais em terracota que uma mulher jovem vestia estava amarrotada como depois de secar da lavagem. Há mulheres que se recusam a passar a roupa a ferro e estão no seu direito.
Com este pensamento cheguei ao meu destino. Empurrei a enorme porta do edifício, subi as escadas e, ao entrar no escritório, dei os bons dias aos meus colegas já concentrados nas suas tarefas.