a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

02/04/2026

Sem título

Ali em baixo no pomar, a macieira fez abrir uma floração holística nos dois dias em que me desloquei à capital. Quem a viu e quem a vê. 
As parras, na pequena videira, desenrolaram-se a deitar imenso corpinho numa frescura do espetro do verde. Cá uma produtividade!
Não falando nos botões de ameixas a prometer um julho mais que suculento e, como nem tudo são rosas, na toupeira que engendrou montinhos de terra orientados a nascente desta vez.
Uma pessoa não se pode ausentar.

Comboios para lá e comboios para cá, saboreia-se leituras que emitem luz por dentro. Luísa Costa Gomes, senhores. Há talentos que nos esmagam, a nós, simples mortais.

Simples mortais estes que têm mas é de entrar ao teleserviço daqui a nadinha e deixar as belezas naturais para depois, pá. Beijos. 

26/03/2026

a escolha é tua

Tu podes atravessar ruas, 
apanhar o autocarro, 
businar ao trânsito da tarde, 
podes passear o cão, 
abrir a porta de casa, 
pagar a conta do supermercado, 
visitar os teus pais,
contar histórias aos filhos, e 
podes até dançar 
a jerusalema no shopping, 

que os números nos impressos das finanças (dentro do arquivo metálico ou fora do expediente), continuam lá. 
Como se nada fosse. 

20/03/2026

Mas não tem nada que ver

Ontem à noite chovia muito na rua, onde não se via ninguém. Tanto que os chapéus de chuva chegaram a casa tarde e encharcados.
Desci pois com eles ao terraço onde os deixei abertos debaixo do telheiro, a secar. 
Quando me voltei, os meus olhos bateram numa coisinha castanha, sensivelmente oval, a caminhar sobre a relva. Era o ouriço!! Fui a correr buscar um pratinho com comida dos gatos. Deixei-o num canto do jardim, protegido da chuva, para ajudar o bichinho na sua pós hibernação. 
De manhã, um dos chapéus de chuva abertos estava deslocado para o fim do jardim, aham, e o pratinho de comida vazio. 

10/03/2026

No rescaldo de mais um exame doido, voltamos aqui

Os azulejos decorativos à entrada da escola primária do bairro onde vivo em Lisboa têm uma horrenda combinação de cores.
É sabido que adjetivos não costumam ser bem vindos nos textos e isso, mas duvido que alguém encontre beleza nisto. 
Possivelmente, foi ali uma curteza aguda de orçamento. Vieram para a entrada da escola as corzinhas que sobravam no inventário do fornecedor mais baratinho. 
Amarelinho cueca, cinza tubo-de-escape e castanho dor-de-barriga.
Estamos, certo?
Horrenda combinação. 
Como queremos nós sociedade educar as crianças para o bom gosto, estimular-lhes a criatividade, incentivar-lhes uma ousadia de ideias, se logo à entrada da escola dá vontade de fugir muito depressa?

Mas depois chegou o meu autocarro amarelinho gema-de-ovo e a escola primária ficou para trás.

05/01/2026

Café, maçãs e sopinha

Depois da fulgurante gripe que me baixou no virar do ano, a febre tendo-se já retirado e a bigorna sobre a cabeça também, restam ainda alguns companheiros de jornada típicos. Como a falta de apetite. É que nem para café ele aparece. Café! esse meu querido amor quentinho. Mas enfim, não quero queixar-me. 
Até porque, ao consultar o encadeamento das estações para esta noite, ficaram-me os olhos presos em Chão de Maçãs - Fátima, e não foi por Fátima não senhor. Que rica peça de fruta suculenta agora eu comia lindamente. 
O jantar resumiu-se a uma sopa com ovo. Uma sopa consumida devagar, uma sopa dada a pensamentos iluminados assim: quem declara "já comi a minha sopinha", enquanto esfrega as mãos do frio e sorri para a gente, é pessoa boa. 
É pessoa que não precisa de fazer maldades para ter mais coisas, mais terras, mais sopinhas. Melhor, é pessoa que está a salvar o mundo como os justos de Jorge Luis Borges. Sim, é pessoa que está a salvar o mundo.