a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

26/06/2024

Veado ou corça

Por causa da emigração que operei para a serra, pude observar, numa destas noites de verão muito raras, dezenas de pirilampos machos. Sei que são machos porque voavam e piscavam as suas luzinhas. Fêmeas não pude avistar nenhuma, elas não voam, ficando apenas com a luzinha no chão a indicar o caminho aos machos. 
Ouvi, então, vindo do terreno mais baixo, um cervídeo, que podia ser veado ou corça, esses não sei distinguir, mas seria jovem, caminhar na direção da estrada atrás de mim, atravessando o terreno aqui ao lado, todo focado no seu intento e sem se deter a comer a erva nem nada dessas cenas óbvias, como é hábito dos seus companheiros de espécie. E não é a primeira vez que isto acontece. Quando chega à rua estreita, empedrada, abranda, olha para um lado e para o outro. Depois continua, desaparecendo da minha vista, rua fora. Estou desconfiada que vai procurar os gatos, que gosta de os ver. É que ali, àquela hora, e não contando com os pirilampos que foram atração de uma noite só, não há mais nada além dos gatos e dos dois carros empoeirados, estacionados à luz amarelinha do candeeiro de rua.
Reentrei em casa e continuei a ler uma alegria que trouxe do espaço Leya numa das duas visitas à Feira do Livro deste ano. "A febre das almas sensíveis", de Isabel Rio Novo.

23/06/2024

Chá preto

Dizias "Vou pôr mais água no chá" enquanto te dirigias à cozinha com o bule de porcelana decorada a florzinhas ao estilo inglês, já vazio. E regressavas  segurando o bule de modo mais firme, cauteloso, superando assim o peso da tua idade de avó experiente. Devagar, e só depois de passar um minuto ou dois, tornavas a encher cada uma das nossas chávenas. Era chá preto. Nos pratos havia paezinhos de leite com fatias de queijo flamengo cuja espessura havia sido supervisionada por ti, não fosse alguém lembrar-se de as cortar demasiado finas.
Nessa altura - quantas décadas já lá vão? - eu não sabia de outras maneiras de tomar chá. Não sabia, por exemplo, que iriam fabricar-se saquinhos mais pequenos, cada um destinado a uma chávena só. Nesse tempo nosso, chá era o nome de um momento de comunhão, de encher a barriga com doçuras e, acima de tudo, um momento de amor. Não havia, não na tua casa, chá só para um. Esse era um nome tão amplo que, dentro dele, cabia toda a tarde de domingo.
As toalhas que usavas para cobrir a mesa cheiravam a lavado. Ora bordadas ora com aplicações em croché, haviam sido feitas por ti. De uma revista, de um modelo, da tua imaginação. Fiquei com duas, sabes? A verde clarinho e a das rosas vermelhas. O bule, aquele que transportavas para "pôr mais água no chá", também ficou para mim. Mas, tal como as toalhas, passa os domingos arrumado. E os sábados, os invernos - anos inteiros. Ao lado da pilha de pratos e das chávenas encaixadas duas a duas. As florzinhas de estilo inglês no silêncio do interior escuro do armário.
Hoje o chá é individual e ninguém tem tempo para toalhas bordadas. Não que as pessoas não estejam juntas, mas, sabes, cada um tem o seu gosto, a sua preferência, o seu problemazinho. E, depois, há mil e quinhentos chás.
Há de frutos do bosque, mel e limão, maçã e canela, chá para a noite, para as pernas, para a cabeça. Há chás para tudo. 
Só não há um para as saudades, querida avó, estas tão grandes, velhinhas, persistentes, que cá deixaste plantadas no meu coração. 

05/06/2024

A mãe (as mães)

O carro morreu outra vez. Completamente. Os botões nada, a chave idem, dentro ou fora. Tanta inteligência artificial, tanta encomenda da peça, tanto telefonema com menus de escolha e autorizações de gravação. Um carro quase novo. Liguei para a assistência. A assistência atendeu à terceira, depois da música de espera interminável a lembrar o barco de descer o Douro adornando com turistas: distorcida no máximo. Tomou nota da ocorrência e nos intervalos das perguntas tentei explicar que devia ser a bateria, a pequena, de doze volts, de novo. Mas a assistência não estava interessada nisso, o técnico iria ligar para combinar a visita. Perguntou se podia ajudar em mais alguma coisa. Podia, que era ouvir-me um bocadinho. Mas disse que não, agradeci. Voltei com as mãos para cima do teclado e continuei o trabalho em teleligação.
O prometido telefonema do técnico chegou. Atendi e reconheci-lhe a voz. Era o mesmo homem mal disposto que veio ressuscitar o carro da outra vez. Dessa, lembro-me que trazia uma velhinha muito magrinha com ele. Uma velhinha que se torcia sobre o corpo esquelético e não falava. Talvez fosse a mãe. Expliquei-lhe o sítio, confirmei a morada. Com jeitinho. Tentei falar da bateria, mas nem pensar. Palavras inúteis, ele é que saberia do mal do carro ao chegar (como se eu fosse burrinha atómica ou sem cérebro). Estou no meio da cidade, grunhiu, é o tempo de chegar aí. Qual cidade, perguntei, Coimbra? Claro!!, soltou o homem, e acrescentou no mesmo estilo, qual é que havia de ser!? Não lhe expliquei que este país tem outras cidades, e coisas tipo assim esquisitas.
Meia hora depois, exatamente como da primeira vez, voltou a ligar. Bufava, estava no sítio errado, de novo se havia extraviado e de novo a imbecil era eu que não expliquei ou que não arrumei melhor os lugarzinhos perdidos na serra do Portugal. Acusou-me de inexatidão (sem usar a palavra inexatidão). Comecei a repetir o nome da aldeia, mas ele não ouvia, bufava, dizia que isto é uma chatice. Mas de repente num intervalinho da má educação, ouviu. Quê?! Carvalhinhos?!, cuspiu. Para o Caralhinho é que teria sido bem enviado o senhor. Todavia não. Direcionei-o para este Carrinho. Morto. 

E desta vez nada, morto continua ele, agora só amanhã. Com reboque.

(a velhinha muito magrinha que se torcia vinha de novo com ele, a aturá-lo desde Coimbra - só pode mesmo ser a mãe)

26/05/2024

As portas

O apartamento onde, em criança, morava com os meus pais e irmãs era servido por duas portas de entrada. Uma, a principal, dava para o hall, a outra, então chamada de serviço, dava diretamente para a cozinha. 

A porta de serviço era a porta onde tocavam o padeiro, o leiteiro e alguma empregada de outro andar que vinha pedir um pé de salsa ou um ovo que lhe faltasse para o pão-de-ló. Ao domingo, também aparecia o Damásio, namorado da última empregada que tivemos. Ele vinha namorar com ela à porta (a porta ficava aberta), ou então vinha buscá-la para passear no seu dia de folga. O Damásio não tinha ordem – provavelmente nem lhe passava pela cabeça pedir – para entrar e namorar com a rapariga dentro de casa. Só me lembro dele à porta. Um dia, achando-o muito alto – eu devia ter seis anos ou sete – perguntei-lhe a idade. Ele respondeu "vinte e um ano". Assim, no singular, “ano”. Lembro-me que fiquei a pensar que não me podia esquecer de dizer “ano” quando eu própria chegasse aos vinte e um. E logo a seguir duvidei se estaria bem assim, vinte e um ano, mas ele sendo tão alto devia saber com certeza e eu ainda teria muitos anos para confirmar aquela maneira esquisita de dizer a idade. A campainha da porta da cozinha tinha um trriimmm potente e irritante, ainda por cima anunciando visitantes que não me despertavam qualquer entusiasmo ou interesse. Se acontecia o tinido estridente tocar quando eu passava perto daquela porta, não escapava a dar um salto de susto.

A porta do hall era muito melhor. Por ela chegavam os avós para jantar, os convidados para a festa de anos de alguma de nós ou, melhor ainda, para a consoada. Também o toque da campainha era muito diferente. Um harmonioso e musical, suave dlim-dlão. Por vezes, o dlim-dlão prenunciava a visita dos padrinhos da minha irmã Catarina que vinham lanchar. Tratava-se de um casal muito distinto. Estavam sempre sorridentes um para o outro, o olhar azul dela pousava no rosto gordinho dele, e era com tanta ternura que o fazia. A sua voz era baixa, falava devagar. Ela conversava comigo e com as minhas irmãs de coisas de mulheres. Eu queria sempre ouvi-la e desejava ser como ela, quando fosse grande, por exemplo aos vinte e um. A distinta senhora fazia os seus próprios casacos compridos de fazenda tão macia. Reagindo ao nosso olhar de admiração, ela estendia uma pontinha do casaco para nós podermos tocar o tecido e confirmar a suavidade. Um dia, ela trouxe-me um presente que anunciou ser adequado ao meu cabelo, ao meu tipo de cabelo. Era um pente com dentes ondulados, muito afastados, que não iriam arranhar-me a cabeça, nem puxar-me os cabelos. Eu detestava pentear-me porque o processo era sempre doloroso, e ela devia saber disso. Aquele pente parecia realmente muito melhor, ao contrário dos outros pentes horríveis. A madrinha da minha irmã Catarina ensinou-me então a utilizar apropriadamente o novo utensílio. Quando terminou, explicou-me de que modo devia colocar o cabelo na almofada quando me deitasse para dormir. Era um modo especial de manter o cabelo penteado e que tinha ainda a vantagem de evitar que se partisse. E eu então, admirada, aprendi que o cabelo, não sendo de vidro nem nada, podia partir-se.