a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

30/08/2026

Corações duplos

A jovem sentada à minha frente no comboio come uma salada de cuscuz e húmus de uma caixa de plástico. Por talher usa uma colher que na outra extremidade é um garfo o qual, por sua vez, num dos dentes externos tem uma serrilha portanto é também uma faquinha. Intercala cada colherada-garfada-facada com mensagens que digita no telemóvel. Da última vez que o pousou para comer mais uma (colherada-garfada-facada) vislumbrei o ecrã com as mensagens trocadas no WhatsApp. A jovem da salada de cuscuz e húmus acabou de receber uma linha de emojis em forma de corações duplos.

O comboio ainda está parado na estação de partida, faltam três minutos. Pela janela, vejo um homem de tez muito morena carregando um saco de compras bastante usado. Dentro, vai pondo garrafas de plástico vazias que retira do caixote próprio para separação do lixo ali disposto e muito sujo. Para isso, enfia um braço inteiro dentro do caixote - já deve estar a apanhar as garrafas do fundo.

Conclusão, não foi este homem quem enviou à rapariga sentada à minha frente a linha de corações duplos. Ai não foi, não.

22/08/2026

A altura dos tornozelos

Em Putten, uma pequena cidade na Holanda, há um café onde se enfeitou a casa de banho das mulheres (e suponho que a dos homens), com incentivos a aproveitar-se muito bem a vida. 
Na face interior da porta de um dos cubículos, está impresso um excerto do livro "As 50 sombras de Grey" que ocupa toda a porta. Eu não li o livro. Mas li este excerto, de alto a baixo. Não deu foi para aproveitar grande coisa. Só decifrei mesmo o título indicado no fim, mais ou menos à altura dos meus tornozelos.

11/07/2026

Engomadorias, tomar nota

O caminho que faço quando vou a pé para o escritório tem, na reta final, uma zona onde confluem as pessoas que vêm dos comboios, do metro e dos autocarros. Tenho sempre de abrandar o passo, para não colidir com ninguém. Ficamos bastante aglomerados no passeio aguardando o verde para atravessar e, por vezes, nem cabemos todos no separador empedrado. Observo os que esperam, à minha frente, o semáforo abrir. 
Quase toda a gente transporta às costas uma mochila de computador; alguns levam também a lancheirinha do almoço.
Há dias, a camisa de tecido fluido e riscas verticais em terracota que uma mulher jovem vestia estava amarrotada como depois de secar da lavagem. Há mulheres que se recusam a passar a roupa a ferro e estão no seu direito.
Com este pensamento cheguei ao meu destino. Empurrei a enorme porta do edifício, subi as escadas e, ao entrar no escritório, dei os bons dias aos meus colegas já concentrados nas suas tarefas. 

08/07/2026

Mistérios circulantes entre Lisboa e a Guarda

Viajar nestes comboios velhinhos intercidades é um fartote contra a monotonia e a previsibilidade. 
Em termos matemáticos, há a numeração dos assentos que não atribui a lugares contíguos números sequenciais, como toda a gente faz nos aviões, nas salas de cinema, de teatro, nos quartos de hotel. Nestes comboios velhinhos temos o lugar 107 junto ao 105 e o 108 junto ao 102. A lógica disto deve tirar-se no último ano de um curso muito avançado. 
Em termos de situações inesperadas que requerem um bocadinho de literatura improvisada, tivemos hoje o senhores passageiros lamentamos informar que o bar deste comboio não está a funcionar por motivos desconhecidos. Portanto é não vir com curiosidade na cabeça para dentro deste material circulante, porque ela continuará insatisfeita. 
Por fim, e para não maçar muito, deixo o relato sobre o que eu temia que viesse a acontecer devido à excelência de funcionamento da app: duas pessoas com bilhete válido para o mesmo lugar, uma delas eu. 

(ao menos interrompeu-se a ansiedade desgraçada que me consome há semanas, com a iminência da saída dos resultados dos exames de março) 

06/07/2026

No intervalo do jogo

A mulher que (ao contrário de quase todos nós) não vai a olhar para o telemóvel, deitou-se no banco do comboio com a cabeça apoiada no braço do lugar vazio ao seu lado. Tem aberto na mão um livro de Mia Couto e ainda não o largou. "Na berma de nenhuma estrada", é o título.
Porque a posição não deve ser lá grande coisa de conforto, a somar ao chocalhar da carruagem intercidades, tanto se ajeitou melhor, tanto se ajeitou melhor, que lhe saltou do cabelo a pinça que o apanhava e que embirrava com o encosto improvisado. Um jovem passageiro que fala francês com a namorada esticou-se para apanhar o acessório do chão, que lhe entregou educadamente. Ela torceu o corpo magro para aceitar a pinça tresmalhada e continuou a incursão na tal berma de nenhuma estrada, mantendo agora o saltitante objeto na mão. 
Hoje o comboio vai muito bem. Nem um frio congelante como o de há duas semanas que me remeteu o pensamento para a arca congeladora de um talho, nem o calor sufocante da semana passada, a partir do qual cheguei a pensar que desmaiava completamente. Também não vai ninguém a ver vídeos no telefone em alto e mau som, graças a deus. Assim, perdoa-se muito melhor o atraso habitual com que fomos de novo brindados e acede-se também com mais vontade ao pedido muito conhecido para os senhores passageiros compreenderem os incómodos causados.