a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

26/03/2026

a escolha é tua

Tu podes atravessar ruas, 
apanhar o autocarro, 
businar ao trânsito da tarde, 
podes passear o cão, 
abrir a porta de casa, 
pagar a conta do supermercado, 
visitar os teus pais,
contar histórias aos filhos, e 
dançar a jerusalema no shopping, 

que os números nos impressos das finanças (dentro do arquivo metálico ou fora do expediente), continuam lá. 
Como se nada fosse. 

20/03/2026

Mas não tem nada que ver

Ontem à noite chovia muito na rua, onde não se via ninguém. Tanto que os chapéus de chuva chegaram a casa tarde e encharcados.
Desci pois com eles ao terraço onde os deixei abertos debaixo do telheiro, a secar. 
Quando me voltei, os meus olhos bateram numa coisinha castanha, sensivelmente oval, a caminhar sobre a relva. Era o ouriço!! Fui a correr buscar um pratinho com comida dos gatos. Deixei-o num canto do jardim, protegido da chuva, para ajudar o bichinho na sua pós hibernação. 
De manhã, um dos chapéus de chuva abertos estava deslocado para o fim do jardim, aham, e o pratinho de comida vazio. 

10/03/2026

No rescaldo de mais um exame doido, voltamos aqui

Os azulejos decorativos à entrada da escola primária do bairro onde vivo em Lisboa têm uma horrenda combinação de cores.
É sabido que adjetivos não costumam ser bem vindos nos textos e isso, mas duvido que alguém encontre beleza nisto. 
Possivelmente, foi ali uma curteza aguda de orçamento. Vieram para a entrada da escola as corzinhas que sobravam no inventário do fornecedor mais baratinho. 
Amarelinho cueca, cinza tubo-de-escape e castanho dor-de-barriga.
Estamos, certo?
Horrenda combinação. 
Como queremos nós sociedade educar as crianças para o bom gosto, estimular-lhes a criatividade, incentivar-lhes uma ousadia de ideias, se logo à entrada da escola dá vontade de fugir muito depressa?

Mas depois chegou o meu autocarro amarelinho gema-de-ovo e a escola primária ficou para trás.

05/01/2026

Café, maçãs e sopinha

Depois da fulgurante gripe que me baixou no virar do ano, a febre tendo-se já retirado e a bigorna sobre a cabeça também, restam ainda alguns companheiros de jornada típicos. Como a falta de apetite. É que nem para café ele aparece. Café! esse meu querido amor quentinho. Mas enfim, não quero queixar-me. 
Até porque, ao consultar o encadeamento das estações para esta noite, ficaram-me os olhos presos em Chão de Maçãs - Fátima, e não foi por Fátima não senhor. Que rica peça de fruta suculenta agora eu comia lindamente. 
O jantar resumiu-se a uma sopa com ovo. Uma sopa consumida devagar, uma sopa dada a pensamentos iluminados assim: quem declara "já comi a minha sopinha", enquanto esfrega as mãos do frio e sorri para a gente, é pessoa boa. 
É pessoa que não precisa de fazer maldades para ter mais coisas, mais terras, mais sopinhas. Melhor, é pessoa que está a salvar o mundo como os justos de Jorge Luis Borges. Sim, é pessoa que está a salvar o mundo. 

24/12/2025

Um Natal muito contente e feliz, alegre e ternurento

Há imenso tempo que certos estares de alma parecem completamente obsoletos. O que tem cada vez mais ocupado os lugares cimeiros da admiração pública é a raiva, o desprezo, a invejazinha 'saudável' na melhor das hipóteses.
Ah! E o querido ódio, claro, esse eficaz desfeador de interiores. 
Acabo de chegar do artigo de opinião de Luís Pedro Nunes, publicado no Expresso. Diz que estamos viciados em raiva.
Eu digo que é coisa mesmo agradável ler a lucidez alheia. Dá-nos a impressão de a termos nós também. De sermos bons ou mesmo uns amores, de nos apetecer logo desejar um Santo Natal a torto e a direito do fundo do coração. De garantirmos ao espelho que nós coiso. Ao menos isso. 
Especialmente nesta quadra em que nos muito encontramos, em que é quase admissível tirar-se do fundo da gaveta uma dose de alegria, pá, de tolerância, de amabilidade e - ai como se chama a outra - ah, sim, de fraternidade! Sai uma de fraternidade para a mesa seis! Ó filhos, que possamos mas é navegar mais a fundo, que não nos dediquemos tanto à desarte de chapinhar à superfície. 
Pensemos, pois. Com a cabeça. Com a própria cabeça.