a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

05/07/2026

Uma limpeza

Enquanto a manhã de domingo avançava para a canícula vigente, levou o terraço a esfrega anual, desenterrando a sujidade que escapara às voltas dos varrimentos mais brandos. Desenrolada a mangueira com a pressão no máximo, fazendo-se acompanhar das vassouras num esforço aplicadíssimo e arredadas mesas e cadeiras, deu-se a remoção completa dos restos de coleção do último outono-inverno no que a folhas secas e raminhos entranhados nos recantos diz respeito. Também as polinizações da primavera, que trouxe os grelhados de peixes vários pingados aqui e ali, foram alvo da grande operação de fundo. Só os toros de lenha remanescentes se deixaram ficar amontoados a aguardar serventia quando, por incrível que hoje pareça, o frio descer à serra e o sol de novembro for de pouca força.
Os onze dióspiros hoje em tamanho verde e ritmo de crescimento lento, estarão então da cor do fogo, plenos de promessas tão suculentas como encantadoras. 

Mas ainda julho mal começou. Aproveitemos pois o interior da casa de pedra, onde o fresco ainda se agarra às paredes muito antigas, a janela fechada deixa passar um pouco da luz da tarde e duas ou três moscas esvoaçam em círculos, num zumbir que vem do fundo dos velhos meses de verão. 

01/07/2026

Notícias jardineiras

Deitava-se a noite sobre a serra, vencendo lentamente os laivos vermelhos de céu, quando estacionei o carro debaixo da buganvília. 
Dois dias na capital e o jardim continuou a medrar, mostrando-me os progressos sob a iluminação elétrica: as maçãs começaram a cair, as peras já quase me enchem a mão, as rosas continuam a abrir. E a figueirinha que plantámos o ano passado, também não ficou a preguiçar: notoriamente mais crescidos, estão os figos. Ambos. 

Metro, poesia e francês mas não muito

No interior das carruagens do metro de Lisboa estão afixados cartazes com poemas escolhidos pelos trabalhadores. Os seus nomes aparecem junto ao nome do autor do poema.
Ora a pessoa que teve esta genial ideia devia ser escolhida para governar um país. Tipo este, que é maneirinho. 
Numa tarde a anunciar dias tórridos no horizonte, com o peso da mochila a comprimir-me os discos vertebrais para não dizer os miolos e os sapatos novos a trincarem-me os pés, saí feliz da carruagem salpicada por dentro com poesia.
Subi as escadas, passei numa das gates de saída, arrumei o cartão sem deixar cair nada ao chão imundo e dirigi-me com a recém adquirida felicidade poética ao quiosque do café, motivada por intenções indefinidas. Olhei a pequena montra e fui logo apanhada: pedi um croissant com queijo. Afinal, tinha mais de meia hora até ao comboio para Coimbra e quatro bolachas num pacotinho tristonho dentro da mala. Quando o rapaz da caixa me entregou o recibo de pagamento, deu-me para lhe dizer Merci. Então ele olhou-me a sorrir e respondeu com uma pergunta: como se diz "de nada" em francês?
Je vous en prie, respondi. 
Je vous en prie, repetiu ele. 
Fiquei imediatamente ainda mais feliz e por isso tinha de vir logo contar a vossemecês, não tinha? 

27/06/2026

Há dias assim

Por causa da promoção anunciada, o balcão do peixe do supermercado da vila beirã estava à pinha de fregueses locais. Era bacalhaus inteiros tzimmm tzimmm cortados às postas (mais largas no meio), era chicharros à grande, era sardinhas aos sacos cheios. Tinha onze números à frente e se não fosse a minha obstinação de sábado direcionada a um almoço de sardinhas desse lá por onde desse, eu tinha-me já posto a andar com a senha de vez a colapsar na mão.
Mas fiquei ali muito bem, obrigada, a observar as compras em redor e a celeridade com que afinal as duas funcionárias da peixaria despachavam os números do chamador. Noventa e uuummm!! Enquanto tentava não encostar a barriga nem nada de meu ao dito balcão piscatório e me desviava para deixar passar carrinhos de compras, estruturas de reposição com rodas empurradas por funcionários a pedir licença por todo o lado ou sacos a pingar água suspeita que passavam pendurados nas freguesas já aviadas, o meu apetite foi-se aguçando que nem doido.
Todavia, mantive-me firme e hirta nas intenções e, quando chegou a minha vez, não deixei que da minha boca saísse um número inflacionado nem nada: pedi as cinco unidades por pessoa, apesar da vontade ali crescida de levar doze só para mim. 

23/05/2026

Saudades de um tolinho post? A coisinha castanha

Já noite dentro serra acima, curva e mais curva como de costume, o breu interrompido pela luz dos faróis, e sai-me à esquerda uma linda coisinha castanha a correr muito, a atravessar à minha frente, a continuar a correr até se enfiar por entre a vegetação à direita e desaparecer com a sua caudinha. Mas deu para ver perfeitamente o que eu nunca tinha visto. Uma raposinha bebé.

Era só o que me faltava para completar a árdua semana em plena Lisboa de trabalho, trânsito, ruído e, mais recentemente, calor. Se os lisboetas desconfiassem disto que aqui se passa duas horas a nordeste, vinham todinhos a correr.

Às vezes tenho inveja de mim própria.