a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

21/09/2022

Mas pavões bebés entre os livros, isso sim

Ainda me zumbe nos ouvidos a gritaria que foi ir à Feira do Livro na cidade do Porto. Uma pessoa vai ingénua fazer fé na estação de São Bento para entrada, mas qual quê. Nem toda a beleza dos azulejos, dos ferros trabalhados e das outras obras de arte para as quais logo nos faltam os olhos cansados, que encimam as cabeças de hordas de turistas com telemóveis ao alto, nos safa. Saímos da estação para respirar e somos atropelados pela orquestra de motas a serpentear por entre os carros furiosos que por sua vez se desviam de prédios em obras e mais prédios em obras. Ao menos ficamos a saber em que altos ruídos opressores se inspiram os tais DJ de topos de telhado ou lá o que é aquilo. 

18/09/2022

Uvas morangueiras

De manhã li dois contos da Clara Pinto Correia, numa edição antiga da Relógio d’Água comprada na Feira do Livro do Porto por cinco euros. Cada vez leio mais silêncios destes. Não são silêncios absolutos, são suspiros, outras vezes sussurros, ou então apenas um monólogo numa voz que não pretende chegar a nenhum lado e por isso não leva urgência, antes traz macieza.

Depois peguei a rua empedrada e fui andar até ao fim da estrada de terra batida, atravessada aqui e ali por pegadas das corças e, ao comprido, riscada pelas marcas da carrinha do padeiro. A estrada sobe, ladeada de altíssimos eucaliptos, até à nacional, onde termina. Aí, dou a volta e desço de novo à aldeia. Junto a uma das casas abandonadas à entropia, cuja fachada foi erguida rente ao empedrado, resiste um punhado de hortênsias com as pequenas pétalas muito doentes, claramente tentando não morrer de tristeza. Não peguei no trabalho. Estendi a roupa ao sol, no terraço, e cortei alguns cachos de uvas morangueiras para levar à minha irmã, juntamente com os bolos que irei comprar ao padeiro quando ele passar mais tarde, por ser sábado.

15/09/2022

Mas continua a chover

A carrinha do padeiro anuncia a sua chegada com a buzinadela habitual. Agarro na moeda de um euro e abro a porta. O padeiro está a pendurar o saco de plástico com as carcaças contadas na cerca retorcida da vizinha inglesa do botox, do outro lado da estreita rua. Depois volta-se para mim, sorri e eu digo a quantidade de pão para hoje. Enquanto ele prepara o saco para me dar, a vizinha sai de casa e desce a rampa até à provisória cerca. Traz o seu cabelo escorrido apanhado num rabo de cavalo, uma camisola sem forma que suspira por lavagem, umas leggings em condições semelhantes e um par de chinelos já sem cor revelando uns pés deformados pelas agruras de uma vida apertada, muito triste. Em silêncio, apanha o saco com o seu pão e regressa pelo mesmo caminho até desaparecer atrás da porta da casa. Eu também não a cumprimentei. Aceito que ela prefira ignorar quem tem a sorte de carregar na alma uma mínima dose de paz. Aquela que, quando falta, incita o coração vazio, inquieto, doente, a presumir inimigos em cada canto. Mesmo que numa aldeia de três ruas, muitos gatos e um par de veados que já entraram na brama.

13/09/2022

No alfa das seis e nove

Olhar pela janela até ao fim das árvores em movimento, sopesar a nuvem que as encima preta com os olhos (preta posso dizer), espiar a abordagem de alguma águia concentrada, invocar a minha primeira bolacha oreo ou reler a música de palavras que componho no trabalho. E o chapéu de chuva desocupado da sua função, fechado desde abril dentro de uma das quatro malas que viajam comigo. Mas por mim nem precisava.

(e também posso desarrumar palavras, posso posso) 

08/09/2022

Doces*

Está finalmente a chover. Em cima do tapete da entrada pelo terraço virado a sul, oito gatos aguardam nova dose de comida. Ali não apanham chuva. Se tocar no puxador da porta envidraçada, as carinhas voltam-se todas para cima, olham-me através do vidro, e algumas boquinhas abrir-se-ão miando fininho. Não estão todos, falta pelo menos um dos mais novinhos que, ao ouvir miar os outros, virá a correr desalmado, derrapando no chão molhado do terraço até conseguir equilibrar-se e vir juntar-se ao grupo. Mas não toquei no puxador, antes vim sentar-me de casaco de malha vestido para escrever estas doces linhas.

* porque me lembrei dos votos da minha colega chinesa para o meu dia de ontem: "Um dia doce", podia ler-se no seu engraçado português, proveniente lá dos confins orientais onde vive. 

02/09/2022

Setembro, mas já sabia

A meio da manhã pausei o trabalho e saí para fazer a caminhada habitual levando na mão três garrafas vazias de cerveja mini destinadas ao contentor próprio. (Ao menos aproveito para fazer qualquer coisa de jeito.) Dou início ao episódio de podcast que escolhi para me entreter a neura e entro em passos rápidos na manhã amena. No cimo das escadas que dão para a paragem do autocarro, ao fim da rua, cruzo-me com uma senhora agarrada a duas ou três raspadinhas esfolando com força a película perversa e temporária de uma delas.

21/08/2022

O exemplar

Atracámos o barco num dos pequenos ancoradouros sem plataforma. Lancei o cabo de maneira a apanhar os picoletes do cubo de material capaz de propriedades mecânicas que dão muito jeito, ali firmado para isso, mas só à terceira consegui. Entretanto havia-se levantado um vento fraco do lado onde pastavam uma série de vacas. Quando a embarcação por fim se imobilizou e o ruído do motor deu lugar ao grasnar do bando de gansos cruzando o azul do céu, olhei para o relógio. Ainda faltavam três horas para o jantar no único café da vila. As ideias expressas no TripAdvisor colocavam-se no topo da escala, de modo que a espera prometia. Os homens começaram a pescar e eu anunciei às minhas irmãs que ia reconhecer o lugar e com elas de preferência. A do meio saltou, a rir, por cima da pequena balaustrada para o relvado que ali nos acolhia o meio da tarde e a mais nova, de máquina fotográfica por equipamento principal, tomou mais cuidado ao desembarcar enquanto nos ameaçava com um trilião de palavras por minuto, palavras que, já nós sabemos, ficarão bordadas numa dança em dó maior como se constata no exemplar que mais tarde lhe roubei.

29/07/2022

Publicidade até à loucura

Ontem cheguei tão cansada do dia de trabalho que me dispus ao comprido no sofá para que as minhas células continuassem a manter-se unidas entre si e fiz a parvoíce de ligar a televisão. À quinta vez em dez minutos em que apareceu o anúncio da MEO com um monstro azul qualquer e a Inês Castel-Branco a falar com ele com muita piedade fingida, fui catapultada para fora do sofá e atirada até embater com o dedo espetado, muito assanhada, no botão de desligar do aparelho antes que enlouquecesse. Nem tive tempo de me lembrar que, há já umas quatro décadas, a televisão também se pode desligar no comando remoto. 

24/07/2022

A serpente

Aquilo no aeroporto de Amesterdão, hoje de manhã e depois de tarde, perturbou-me. Serpenteámos milhares de pessoas pela geometria temporária que os insuficientes funcionários desenharam por forma a encaminhar o enorme fluxo de gente. Foram bem sucedidos, porque, na ausência de inúmeros colegas, conseguiram manter as linhas a coser a vida de um grande aeroporto e do verão, sem que houvesse quebras demasiado severas. Nós fizemos a nossa parte. Chegámos com três horas de antecedência, mantivemo-nos ordeiros obedecendo às múltiplas voltas da grande serpente e, por fim, arrumámos os tabuleiros utilizados para a bagagem regressada do túnel do raio X. Talvez até haja aqui um prenúncio de futuro de certo modo risonho para variar. Um futuro em que os passageiros tomam para si os rabinhos das tarefas de futuros ex-insuficientes funcionários.

Houve um momento na longa fila, após uma das muitas mudanças de sentido no ziguezague apertado, em que os meus olhos bateram nos de uma outra passageira, uma senhora com o rosto sulcado de rugas, que circulava em sentido contrário ao meu no dorso da serpente. Sorri-lhe e ela devolveu-me o sorriso. Procurei-a em voltas posteriores, mas não voltámos a encontrar-nos.

Depois, como não tinha nada que fazer, fiquei a pensar que aqueles que veem nos desconhecidos potenciais inimigos não estão totalmente ligados ao mundo. Não de um modo potencialmente harmonioso. Em Lisboa há muitos.

20/07/2022

Arrivederci!

O homem magro, de gola à padre, aproxima-se e senta-se no lugar ao meu lado. Ainda há poucos passageiros na porta de embarque. Ao sentar-se, o homem magro faz um aceno de cabeça na minha direção à laia de cumprimento. Retribuo com outro aceno e ajeito a mochila para lhe dar espaço. Reparo então na enorme cruz, toda trabalhada, que traz pendurada ao peito presa num fio muito grosso. O fio mais grosso que já vi na minha vida. O homem magro continua a linha de comunicação comigo. Pega na enorme cruz levantando-a à frente da minha cara e diz, vou para Roma. Achando que ele estava enganado na porta, explico-lhe que este voo é para Barcelona. Eu sei, diz ele no que penso ser italiano misturado com outra coisa, mas o voo a seguir, nesta porta, irá para Roma. E continua, ainda segurando a cruz, vou ter com o Papa Francisco, trabalho no Vaticano, sou bispo. Ah, bom! digo eu. E como está a saúde do Papa Francisco?, aproveito para perguntar. Está bem, o problema é superficial, é no joelho. Dizendo isto, o bispo larga a cruz e põe a própria mão no próprio joelho não fosse eu desentender a palavra joelho, que realmente é esquisita, naquele meio-italiano. Oh, que bom, digo eu, se for só o joelho... Sim, o resto, e por dentro, diz o bispo, ele está bem.
Depois, levantando oito dedos das mãos e a seguir cinco, o bispo sorri enquanto sublinha a idade do Papa Francisco. Oitenta e cinco. Está bem.

Quando me levantei para embarcar desejei-lhe boa viagem. E ele a mim, de novo sorrindo: Arrivederci!

18/07/2022

Lisboa em obras (de propósito)

Há dias, num topo de telhado estendendo-se a um troço do Tejo ao pôr de um dia de sol quente, houve três ocorrências. Vários participantes do evento responderam que, como eu, não apreciam esse ruído de obras a que os organizadores dos topos de telhado chamam música de disco jóquei. Uma. Duas, encontrei ali terreno propício a uma discussão que há tempos queria trazer para cima de uma mesa: como é o dia-a-dia de um filósofo que não tenha enveredado pelo ensino e olha lá que valeu. E três, à saída do evento desce junto connosco no elevador um americano que torcia as mãos encardidas e repetia, muito ébrio, que esta é a sua hometown e eu não lhe perguntei se a ele os ruídos acutilantes agradaram, não foi preciso. A solidão engana-se de qualquer maneira distorcida, sonora ou líquida. 

Entretanto tive uma ideia: os disco jóqueis, em vez de se meterem em eventos a reproduzir até à loucura a banda sonora da construção de um edifício tipo centro cultural de Belém, iam trabalhar para os mais carenciados aeroportos. 

07/07/2022

Voos domésticos de 300 km: tão necessários como o ar que daqui a pouco não conseguimos respirar

Há dias, numa outra madrugada desperta, pus-me a contar o número de voos entre Lisboa e Porto operados pela TAP, por dia. Dez. E para Faro, de Lisboa, quatro. Catorze voos diários que podiam ser substituídos por viagens de comboio. E já nem vou mais longe. Mil vezes mais agradável, produtiva, permissora de inúmeras tarefas e ocupações, uma viagem de comboio tem duração quase nula, uma vez que o tempo nesse amigo meio de transporte é todo aproveitado. O que não queremos mesmo é parar de torrar o planeta, certo?

02/07/2022

O barato do verão

De acordo com o colorido cartaz afixado nas arcadas do prédio, é hoje o último dia do arraial do bairro. Alusivo em princípio aos Santos Populares, há de lá haver sardinhas, pão, chouriço e cerveja, mas acho-o atrasado. Dentro de casa consigo ouvir a música, porém não o suficiente para a identificar, o que não faz problema. Posso escolher levantar-me do sofá e ir ao lado nascente do apartamento fechar as janelas, cortando-lhes o verão. O barato do verão. Em vez de ficar aqui enrolada em mantas (dissemos verão?), estirada como se não fosse eu mesma, aninhada num sábado que desde a madrugada está sossegado oferecendo-me livros empilhados até uma hora destas, mesmo por sobre a música chegando do arraial. Em momentos assim, desencontrados de mim, meio aleatórios, quase cómicos, sinto-me feliz. Surpreendentemente feliz. 

Aditamento musical, vá-se lá saber porquê:

24/06/2022

Queques baratos (assados)

Ontem, antes das nove horas, tinha de fechar a torneira do gás e estar apresentável para receber o técnico inspetor na minha fração, o que poderia acontecer a qualquer hora durante toda a manhã. Era o que dizia, nestas e noutras palavras, a nota colada na parede interior do elevador e também recebida por e-mail. É muito importante respeitar os caminhos do gás, verificar amiúde se eles estão de boa saúde. O gás quer-se saindo das suas condutas quando e como pretendemos, mantendo os seus tubos borrachudos dentro do prazo, para que a função controlada da sua queima se dê, e nunca permitindo que a natural vontade física e química do mesmo prevaleça. Qualquer criança mais atenta já desconfia disto. Então tomei o banho sem fazer caminhada até ao rio e fechei a torneira do gás às 8h50. A seguir, fui de novo olhar para a página aberta do livro de receitas que por pouco não foi para o lixo e os queques intitulados de baratos lá estavam fotografados há décadas junto a um serviço de chá parecido com os da Vista Alegre, debruado a dourado. Verifiquei os ingredientes na despensa e encontrei todos à exceção da pitada de baunilha, que decidi substituir por raspa de limão. Pincelei com margarina o interior das formas de alumínio, tortas e de tamanhos heterogéneos, originárias da casa dos meus avós e, antes de lhes ajeitar um fiapo de farinha distribuído nas paredes côncavas para que os queques vindouros pudessem desalojar-se tranquilamente depois de assados, a campainha soou. Perguntei no intercomunicador quem é?, mas já tinha quase a certeza de que seria o técnico do gás. E era mesmo.

Os queques ainda estavam muito quentes quando foram fotografados e metidos no whatasp* para as miúdas, uma em Lisboa, já cheia de trabalho, a outra passeando o início das férias pelo Porto. Ambas ficaram admiradas e contentes com o facto de eu ter feito os meus primeiros queques assados, baratos ou não.

*Pseudopalavra extremamente imbecil que eu me recuso a esforçar por escrever corretamente.

16/06/2022

Alarmes há muitos

Acordo com um apito ao longe. No quarto, a luz azulada sugere que são seis da manhã. Um apito do género (para não dizer tipo) ti ti ti. Dentro do sono em curso de ser arrancado tento identificá-lo. Parece-se com vários alarmes de teor eletrónico. O da máquina da roupa quando termina o ciclo, o da mesa de cozedura, também conhecida por placa de cozinha, quando sente um cheirinho de água em cima dos pseudobotões continuados no vidro, o do frigorífico com a porta aberta há mais tempo que o limiar, o do meu relógio de pulso quando chega uma hora que eu estabeleci sem querer, o do micro-ondas, o do carro quando não apertamos logo a correr o cinto, o da câmara de vigilância quando os seus sistemas internos verificam as possibilidades. Ti ti ti. Também eu tenho sistemas cá meus, na sua maioria orgânicos, que andam ofendidos há tempos com o manancial de alarmes em que se encontram de uma forma bastante permanente. Esteja onde estiver. Ora numa casinha como esta, em plena serra, não deitando mais de cinquenta metros quadrados de implantação em dois pequenos pisos, dou-me conta do surpreendente potencial de pequenas mas obtusas, indesejáveis alarmidades. Quem diria. 
Com o sono já fora de mim, arranco-me à cama munida da fresca intenção de detetar o aparelho em apuros, e retorná-lo ao seu estado silencioso quanto antes. Assomo primeiro à janela aberta, da qual provêm os inúmeros cantares da passarada; meto-lhe os ouvidos. O concerto é realmente bestial, quase capaz de abafar aquele ti ti ti metidinho. Quase, ou eu ainda estaria a dormir. Apurando os ensinados sensores, deteto-lhe a origem longínqua, talvez da encosta a poente, talvez junto ao curso de água que corre para a cascata, talvez de uma das ruínas da rua, cobertas de trepadeiras. O ti ti ti que me despertou não é, afinal, de fonte eletrónica, informa-me a experiência agora mais capaz. É sim tão orgânico como o meu ouvir, como o suspiro que me sai, como o deslumbre que me enche a alma. Ti ti ti é o piar de um passarinho. Só não sei é qual.

07/06/2022

À saída do escritório (a meias)

Ao fim da tarde meti-me na casa de banho para fazer a troca. Remover os sapatos em princípio elegantes pelos sapatos de ténis com meias. Meias, quer dizer, aquelazinhas que se ficam por vestir o pé e espreitar uns milímetros acima do gargalo do sapato. Não sou amiga delas por causa da sua mania de descaírem até aos dedos dos pés logo ali ao passo número trinta e quatro ou trinta e cinco. Irrita uma pessoa, mas é a moda. Nem nas lojas se encontra outra coisa. Só na loja do chinês, imune a caprichos mercantis, se consegue comprar meias normais das boas que ficam no sítio nem que a gente faça dez mil passos muito largos. Nunca percebi que mal têm essas meias para terem sido barbaramente substituídas por aquelazinhas que não sabem o que é um tornozelo com frio, mas quem sou eu. Então hoje resolvi suspirar fundo e utilizar com fé renovada o único parzinho que escapou à limpeza de há uns meses quando tirei da gaveta esses erros que cometera e deitei tudo no caixote do lixo. Tudo o que sobrava, na verdade. Metade delas já tinham perdido os pares algures entre o tambor da máquina de lavar e as paredes que lhe sustentam as voltas da centrifugação, de tão minúsculas. E isto hoje porquê? Porque ontem a Saminhas me garantiu que ficava mesmo horrível usar os sapatos de ténis para o caminho até ao escritório com um par das meias subidas como eu gosto de vestir o tornozelo. Ó mãe, isso fica horrível, ouvi eu pela manhã. Ora venho então eu hoje a sair do trabalho já com aquelazinhas nos pés quando a Joana passa por mim, apressada. Vou apanhar o comboio, explica-me. Eu acelero para a acompanhar, logo esquecida do resultado que aquilo pode dar dentro dos meus sapatos de ténis. Descemos as escadas juntas e notei que também ela já havia feito a troca: dos sapatos de salto pela sua própria versão de ténis mais meias. Ambas preparadas para enfrentar a calçada lisboeta com os seus interstícios, ângulos vivos e miniplanos inclinados em todas as direções, uns polidos outros não, às seis e tal da tarde, sim sim. Descobrimos que vamos para o mesmo lado da rua. Faltavam alguns minutos para a hora do seu comboio. Onde moras, Joana, perguntei. Ela respondeu, enquanto olhava para o relógio e apressava mais o passo. Eu também, ainda que sem comboio para apanhar, metro ou autocarro. Tão só a alegria renovada de ter de novo colegas com quem fazer os caminhos para casa. Se não inteiros, pelo menos a meias. Mesmo que daquelazinhas.

29/05/2022

Entretanto acabei o livro e fiz cuscus para o jantar (admito)

Falta mais de meia hora para o anúncio da porta de embarque a que pertence o meu voo. Fazia planos de usar o tempo na leitura do livro, mas antes comi uma salada de cuscus. Cada vez gosto mais de cuscus - e só mesmo algo muito irresistível para me manter com as mãos afastadas do livro. Não pego nele porque estou quase no fim e ainda nada pronta para acabar a nossa breve mas intensa relação. Quando chegar a Lisboa pousarei a mala no chão e correrei a comprar os outros dois livros da autora, é limpinho, como diz a minha mãe. Susana Piedade, para o caso de alguém querer saber. O nome da autora, não o da minha mãe. Lá fora chove. O avião que estava do outro lado do vidro perto de mim já partiu e eu nem o vi na habitual lenta marcha-atrás, um processo de movimentação fina de um monstro no solo a que gosto de assistir. Estou mesmo distraída. A tentar não pegar no livro. Desta vez levo perfumes em promoção para as miúdas e um enorme pacote de estrondosas bolachas para o meu novo trabalho. Quando amanhã lá chegar, irei à copa cumprimentar a máquina do café e deixar as bolachas a fazer-lhe companhia todo o dia. Todo o dia, o quê... toda a manhã! E e! Toda... logo se vê! A minha mãe também diz "e e!".

19/05/2022

Cajus branquinhos

Achando que ia comprar um saco de lentilhas de uma cor diferente das amarelas, que essas já temos, fui à loja indiana do bairro munida de uma das várias receitas que o senhor de lá me deu há dias. Ele a dar-me receitas e receitas, vegetarianíssimo confessado até na camisola polo que vestia, todas aquelas sem carne ou peixe. Estava meio que a tentar converter-me ali mesmo, tendo rematado o insucesso, após grande conversa sobre comer animais ou lentilhas de todas as cores, a declarar para si próprio que não se pode julgar os outros enquanto encolhia os ombros por eu não ser assim tão fácil de convencer. Já que em princípio continuarei a comer animais, embora não muitos. 

Pois voltei lá hoje com boas intenções e a tal receita na mão, dobrada em quatro. Mas antes fui abastecer-me dos ingredientes que consigo identificar na lista dos próprios: cebolas, cenouras, couve-flor, batata, pimento verde, alhos. Quando por fim entrei na loja indiana ia carregada. Pousei os sacos de pano e compras no chão e desdobrei o papel da receita. Não estava o senhor vegetariano que não me podia julgar, mas sim uma jovem mulher provavelmente da mesma família. Estendi-lhe então a receita pedindo para me fornecer os ingredientes um tanto ilegíveis, este e este, se faz favor, o resto já tenho, disse eu apontando para o desdobrado papel. Ela foi buscar os dois elementos. É só isto que tem de levar, disse, pousando-os no balcão. E realmente enganei-me: não era lentilhas que a receita mandava nos seus estranhos dizeres. Tratava-se apenas de um saco transparente* e avantajado com cajus branquinhos a prometer delícias tremendas e uma caixa com um pó masala não sei quê, que eu nunca tinha visto.

*de plástico, ah pois, sim, sim – mas eu também não vou julgar, ok.

17/05/2022

Grande mistério

Os gatos correm pela casa desafiando os lugares mais altos como as costas do piano ou as da cadeira que foi parar à varanda pela minha mão, não para subir na vida, mas para secar. Um jarro de água quase cheio tinha-se misteriosamente deitado sobre a mesa e a mesa tem design propício a molhar cadeiras. Todo um processo pertencente à situação de ter felinos ativos e saudáveis em casa. Se o meu gato está bem, eu estou bem, ou lá como era o sábio anúncio. A esta hora, o sol entra por todo o lado nascente espraiando-se sobre o chão de carvalho e revelando a necessidade de pôr o aspirador-robô a andar. Assim estamos, portanto, imbuídos do seu murmurejar tecnológico com a Nora Jones a cantar por trás, para variar de Rachmaninoff. Os amigos de quatro patas não o são um do outro, como já se saberá, e nem o aspirador-robô, grande mistério a explorar e de que fugir no antigamente dos bichos, lhes causa mais respeito ou é capaz de lhes refrear as correrias antecedentes às estaladas, aos rosnanços e a outras manifestações mútuas, adoráveis.

O melhor é ir trabalhar.

14/05/2022

Também os há de graça

No almoço decorrido atrás das vidraças de sexto andar que deitam para a avenida onde moram jacarandás seguidinhos iniciando a puberdade dois mil e vinte e dois, os queridos, optei por um vinho branco e não recusei água. O linguado desfiambrou-se como nos tempos do Dom Pepe ali onde Cascais alvorece muitas vezes e por um momento perdi o contacto com as velhas mas funcionais instalações elétricas em torno. Estive regozijando dentro de um contentamento mais transversal cá comigo, do tipo camadas de cebola, mas logo acordei. Falava-se do potencial genético e humano à base de bits e apresentaram-se resoluções já com o meu linguado em espinhas. É que eu vinha com fome. O presidente dos trabalhos pediu para enunciarmos um objeto preferido. Um ou o, não posso precisar. Sendo paupérrimo que, por falta de ideia, reduzisse um belíssimo jacarandá a objeto, nomeei o livro a tempo. Não fui a única como seria de prever. Uma graça de almoço. De graça. Que também os há. 

08/05/2022

Toda a população distrital e (diria mais) municipal

Estou muito farta do desamor que os gatos têm um pelo outro, isto vão sete meses demasiado infernais. Hoje de manhã já me levantei de um trabalho que parece infinito, a revisão de uma tradução de alguém pouco dado a traduções - felizmente já na última temporada da estucha de três - para ir tentar evitar vários assanhanços que me põem os nervos em franja e o chão com tufos de pelos arrancados à unha (do outro gato). Apetecia-me introduzir um acento circunflexo na palavra pelos, mas o corretor sem c não quer e eu já estou por tudo. 

Entretanto os bichos lá acalmaram, aqueles nervos felinos também têm limites, graças a deus. E eu regressei ao trabalho de sapa, mesmo sendo um domingo de sol e não sei quê. De repente, em meio de uma correção tecnico-linguística apuro o ouvido por cima do Chopin que me toca perto porque creio ouvir o rosnanço de dona Marble face à proximidade medida em centímetros do sempre pronto para a ação Beethoven, ambos sendo gatos plenos da sua personalidade. Apuro, apuro, e depois lá concluo que afinal era uma daquelas motas detestáveis, bem ao longe, conduzida por um exemplar de certeza equipado com uma micro- ou mesmo nano- pila (que até eu me passo de vez em quando) que acha muito macho fazer toda a população distrital e municipal conhecer o rugido do seu estúpido motor.

16/04/2022

Quatro chás ou cinco

Lá me não safei. Depois de ter tido ambas as filhas com o vírus e eu insistentemente nada, achava-me já a última bolacha do pacote. Por outras palavras, facilitei, certa de que o corona não havia de me vir infectar nem que a vaca tossisse. Errado. Mas tossisse deve estar certo. 
De maneira que a Páscoa não podia ser mais tranquila, caseira e pobre em amêndoas, o que não me faz mal nenhum. Lá fiz as declarações trimestrais para a segurança social e para um imposto especial de transação comunitária que deu certo quase à primeira, tanto que praticamente celebrei. Só falta a declaração do IRS. Depois hesitei entre meter-me a lavar vidros, cortinados, arrumar armários ou fazer chás uns atrás dos outros e alojar-me no sofá a ver porcarias na televisão. Ganhou a terceira hipótese combinada. Consumi então uma série inteira e até que me aguentei bem. Bebi quatro chás ou cinco para não me encharcar em cafés, os meus preferidos no que respeita a bebidas quentes. Cozinhar não cozinhei. Estou muito bem, obrigada, o meu único mal é ter dado autorização à dona preguiça para se instalar ao comprido. Assim sempre o corona, esse montinho de proteínas nefastamente combinadas, não fica sozinho.

07/04/2022

Há verdades que parecer não parecem

Ando meio que descasada dos livros, por estranho. Entrei firme em dois mil e vinte e dois com um José Saramago na mesa de cabeceira encimando os outros, lidos ou não. Ele vive comigo há valentes anos, mas por carregar um título sugestivo de viagem - logo eu que não sou desses – ou dessas, não sei bem, foi como que ficando na estante ao lado sabe-se lá de quê. Lembro-me que foi nos últimos suspiros de dois mil e vinte e um que o resgatei ao pó com um paninho de microfibra bastante colorido. Porém, a leitura não fluiu. O inverno ameaçando demitir-se e eu ainda não havia chegado às beiras, vindo bem lá do norte, igreja após igreja, como é o caso na obra que trata da saramaguiana Viagem a Portugal. Conversámos sobre isso e deixei-o de lado a descansar as páginas. Não é tanto o ser de viagem, que se perdoa pelo supremo das linhas, é mais o ser de incursões repetidas em igrejas mortas - fico cheia de frio. Aqui chegados, enquanto o livro goza as férias forçadas atiro-me a outro nobelizado sem querer: William Faulkner. É edição da Visão, apanhada também há muitas voltas ao sol numa bancada lisboeta, poeirenta, sob o incentivo de um desconto agradável: “A Luz em Agosto”. Começo pois em grande esperança de trama urdida, envolta na vontade de me afastar das igrejas lá cobertas do musgo mais antigo e até que a coisa primeiro pegou. Mas a páginas tantas o atrito dos meus olhos nada novos começou a ganhar vantagem aos poucos. Fui intercalando para não enfastiar. Passar a ferro, aspirar o chão e fazer compras no supermercado. Esta "Luz em Agosto" do Faulkner é aborrecida, complicadíssima, já a ficar escusada. Entretanto estamos em plena primavera como se pode confirmar pela data e a relação não vê melhoras, muito pelo contrário. Estou a uns conquistados três quartos do livro, com o final mais do que almejado no horizonte, mas decido abandonar o barco. Deito o livro fechado sobre o lençol fabricado em Portugal quase todo em algodão e suspiro pela encomenda da Wook anunciada para mais logo. A querida vem salvar-me logo a seguir ao almoço e eu rebento-lhe os atilhos. Disponho imediatamente em frente dos olhos muito ávidos os três volumes recém saídos da caixa, como candidatos. Pego primeiro naquele que mais esperança me dá não sei porquê: Leila Slimani, "O país dos outros". Abro-o, assino-lhe a segunda folha no habitual arrebatamento de posse e continuo. Vem uma página de citações, traz duas. A primeira parece uma poesia, passo. A segunda, mais crescidinha, formando um quadrado certinho, anuncia a sua origem: William Faulkner, “A Luz em Agosto”. 

Pá.

02/04/2022

Sandes de chourição a caminho do cartão

O serviço público fechava às quatro da tarde e o meu novíssimo cartão de cidadão à espera de levantamento há imenso tempo. Desta vez consegui ficar menos horrível na fotografia, não sei como foi aquilo. Talvez a falta de nitidez da imagem, mas já lá vamos. Fiz-me pois à autoestrada com o tempo medido na cabeça. A última notificação avisando sobre o início do chamado webinar em conflito de agenda veio ao quilómetro quarenta e tal. Nos últimos anos, já muitos, os serviços que subscrevemos são objeto de avisos contra o esquecimento cada vez mais frequentes. A sua consulta é depois de amanhã. Eu sei, está na minha agenda. A sua vacina é amanhã. Eu sei, está na minha agenda. É sempre isto. Agora foi o webinar, falta um dia, falta umas horas, falta uma só hora, as notificações diziam. Talvez a memória esteja mesmo a ir para piorzinha no geral da humanidade. Independentemente, acelerei de modo a chegar à estação de serviço alguns minutos antes e claro que sem sair da lei da velocidade. No ramalzinho de desvio travei com força e fui estacionar debaixo do telheiro próprio. Dois minutos. Saí do carro para ir ao caixote do lixo a céu aberto deitar o caroço da maçã que constituiu o plano bê, já que a hora de almoço ia ser comida pelo webinar. Acho que ninguém se preocupa com a chuva se ela vier ensopar aquele lixo ao ar livre no caixote, um cabeçote é que seria melhor estar ali, mas quem sou eu. Regressei ao carro, ajeitei os vidros, meti os auriculares nos ouvidos. Outra coisa é os auriculares com marcas de esquerdo e direito impossíveis de ver nesta idade, os rapazes que os desenham percebe-se que são novíssimos. O webinar já havia começado. Quando veio a oradora espanhola com a sua apresentação que muito me interessava, o seu inglês de alta velocidade não encontrou entendimento na minha cabeça. Nem com os auriculares bem metidos eu fui lá, nem com todo o dia lindo que estava. Então chegámos ao final do tempo com uma dor aguda nos miolos picados e vontade de uma sandes de chourição e queijo na barriga. Gosto particularmente de comer sandes de chourição, mesmo que sem queijo, em estações de serviço. Mas com queijo ainda é melhor. Porém o tempo urgia e a sandes estaladiça, ah sim sim, terminou já muitos quilómetros depois por causa do horário de fecho dos serviços públicos. Cheguei a tempo, mais esta vez. O meu novo cartão é muito parecido com o antecessor mas com este a relação vai durar o dobro! Talvez até já seja uma avó de família quando ele expirar. Por isso não se perde nada a fotografia ter ficado melhorzinha. A semana acabou portanto relativamente bem. 

25/03/2022

Café geométrico em espécie de diário

Eram sete e meia e estava eu em frente à máquina do café a deitar os olhos à rua enquanto iniciava a nossa interação mulher-máquina matinal em paz. Pelo canto do olho vejo algo diferente mexer-se sobre o relvado da casa ao lado, algo em tons de castanho e sem dono a passear na rua nem trela. Invocando mentalmente os frequentadores habituais destes relvados, recordo que as gralhas são negras, as pegas rabudas negras e brancas se não mencionarmos o azul-noite-metalizado que lhes desponta subtilmente na cauda, os pombos cinzentos. Virei então a cabeça na direção do vislumbre castanho. Uma lebre! Vem a saltitar pelo relvado fora e depois atravessa a estrada. Parece-me magra e alta, até creio ver-lhe o desenho do esqueleto. Meteu-se primeiro no jardim dos novos vizinhos, mas depois continuou para o dos vizinhos da frente. Vinha de novo a surgir no meu encantado campo de visão como se pretendesse tornar a atravessar a estrada para este lado, só que viu-me e parou. Mesmo assim, estando eu ocultada pelas persianas abertas a meio gás, por trás da janela da cozinha, ela viu-me. Então recuou metendo-se atrás de uma sebe talvez demasiado geometricamente obtida para um animal sem dono. Esperei uns segundos, mas a lebre deixou-me plantada. Fiquei pois reduzida à chance de observar como o vizinho da frente, dono do jardim que acolhe o animal, aproveitou o espaço livre que guardei à direita do nosso caixote de tampa verde quando ontem à noite o fui encavalitar na berma do passeio, para alinhar muito bem os seus dois exemplares. Já reparei: quanto mais geometricamente feito está um jardim, mais lixo verde produz e isso revela-se proporcional ao número de caixotes que se possui. Acordaram então ali todos três prontos a ser esvaziados pelo braço mecânico que passará daqui a pouco para lhes dar completamente a volta.


22/03/2022

Magnólia em espécie de diário

Finalmente fui fazer a caminhada normal. Não sem primeiro me dedicar a fotografar a pequena magnólia comprada o ano passado em fim de época e em saldo, a qual está a prometer na forma de botões oblongos umas onze flores se não falhei a contagem. Mas voltei para trás junto à casa do cão grande e preto e velho, porém com voz grossa. Decidiu vir para mim lançado a ladrar e como a casa não tem gradeamento algum nem o cão trela, era o cão ali e eu aqui com um bocado, pouco, de arzinho fresco da manhã pelo meio, dei meia volta com o coração mais acelerado e só fiz quatro quilómetros.

No caminho cruzei-me com o novo vizinho da rua. Eu a dizer-lhe bom dia efusivamente e ele a dever nada aos acenos, sorrisos ou afins. Esquisito.

Uma das coisas de que gosto nos blogues é não terem o lixo visual em torno do que se quer ler, tal como têm os instas e os twitters. O facebook também aposto. É tão limpinho ler num blogue. O ecrã não mexe sozinho e não tem publicidade nem coisas a piscar e a meterem-se-nos à frente dos olhos para a gente comprar. Por acaso adoro. Mas gostava de saber se continuam felizes as pessoas ex-blogueiras que foram morar essencialmente para o insta e têm de processar toda aquela parafernália de poluição, tipo imenso. 


Atualização posterior, a magnólia 3 dias depois (para a Sandra Martins):


13/03/2022

Espécie de diário

A senhora que passeia o seu caniche de bicicleta passou hoje de manhã na rua enquanto eu organizava a cozinha à janela. Lá ia o cãozinho a correr a correr. 

No meu novo quarto de trabalho, no piso de cima virado a poente, o sol da tarde incentivou nove joaninhas cor-de-laranja a fazerem-me companhia. A primeira pus lá fora com cuidado e um lencinho, mas precisei de reforços quando o resto da família apareceu. As joaninhas, quando se sentem ameaçadas, cheiram a relva cortada misturada com seiva de chorão. Não sabia e não abrem o apetite.

No caminho de regresso do supermercado, bem feitinho a pé para constatar os despontares primaveris nos jardins, cruzei-me com o enorme gato amarelo. Ele pôs - se a jeito no murete holandês e eu apresentei-lhe a minha mão portuguesa. Nela roçou a cabeça de vários ângulos e apanhando todo o seu encorpado pescoço com colar de guizo incluído. Claro que não me importei. 

As placas esponjosas e coloridas de material isolante sonoro que Erik comprou para forrar paredes e tetos são feitas de roupas recicladas. Apetece combiná-las por cores tão lindas se puseram.

Caída a noite, é hora de pôr na rua, geometricamente alinhado, o contentor de tampa azul. Amanhã é dia de passar o camião que leva o papel e o cartão. Ponto. 

E vírgula: adenda ilustrativa já a seguir para atalhar pesquisas no google.


11/03/2022

Verde, com quadradinhos, e um coração tão grande

- Quando a guerra acabar, ensinam-me a utilizar isso no computador?

Nikolin é ucraniano, está há anos em Portugal e é dono de um modesto estabelecimento comercial. Há duas semanas transformou o estabelecimento em posto de receção e envio de bens para o seu país e em central de gestão de famílias de acolhimento e refugiados. Suspendeu o trabalho porque o espaço não dá para tudo.

- Mãe, estas pessoas têm um coração tão grande!

Muzi, a minha filha mais velha, ajuda na gestão dos bens que não param de chegar, na separação por tipos nas caixas, ajuda no carregamento dos camiões disponibilizados por empresas diversas (até já gosto mais do Pingo Doce e da Margão), na organização da correspondência entre as famílias que acolhem e aqueles que vêm para cá fugindo desta inacreditável guerra.

- Isso o quê? – pergunta Muzi ao Nikolin.

- Isso aí que é verde, com quadradinhos…

- O Excel? Sim, claro que ensinamos!

- Eu mostro como faço as minhas contas…

Nikolin vai buscar uma pasta bem grossa.

- Faço as contas da loja nestas folhas, veem?

Veem, sim. Muzi e as outras voluntárias veem um monte de folhas com as contas muito bem dispostas, a organização a impressionar ali no papel quadriculado os seus olhos jovens mais habituados aos ecrãs. Ao telefone, altas horas da noite, a caminho de casa, a minha filha conta-me, em palavras rápidas e carregadas de emoção, como foi mais um dia de voluntariado.

- Claro que vamos ajudá-lo, mãe! Quando isto acalmar um bocadinho e conseguirmos ter tempo, vamos ensiná-lo a fazer as contas no Excel. Ele tem um computador velhote na loja, mas nem o sabe utilizar…

E, claro (como não?), repete:

- Mãe, estas pessoas têm um coração tão grande!

07/03/2022

Um post parvinho (para distrair)

As calças novas que comprei em necessidade no vermelho e que são do maior número que jamais vesti (snif), parecem edifícios de duras que são. Sendo verdade que rasgadas não compro, procurei calças na forma de inteiras e isso elas são todas três, mas assim tão duras, tão tipo estrutura onde me meti dentro e me esforço admiradíssima para obter cooperação em conformidade na hora de me sentar ou levantar a perna para alguma função mais acrobática a que me queira dedicar é que eu não estava à espera. Que chatice a Levi’s já não fabricar o modelo preferidíssimo que me levou tanto tempo a encontrar, o processo de vestir depois todo apurado e otimizado, um processo amigo e facílimo, já que compras não adoro mesmo nada fazer. Agora fabricam uma espécie desse modelo mas com a cintura até ao pescoço, se eu quiser. Não quero. Se é para não me conseguir mexer dentro das calças encontrei outras mais em conta, obrigadíssima. Detesto modas.

02/03/2022

Teremos sempre os melros, o sol, os livros e o camião do lixo

Março começou de fininho, continuando o legado de fevereiro e, se não me engano, de janeiro também: uma primavera indelével, completamente desalinhada. 
No rádio anunciam, sobre um fundo de primeiros acordes e numa pausa em meio de notícias da guerra, algo relativo a Lou Reed. Fujo com o dedo para carregar no botão grande de imediato e desligo a emissão. Como prefiro os melros que se ouvem através da janela aberta!
Começo o dia com o café das sete e o sol, como é seu hábito diário, a nascer. Não pegando no livro de Saramago – Viagem a Portugal – que está demorado. As visitas a igrejas matrizes e outras, inseridas em lugares portugueses doridos pelo musgo e pedras antigas, gastos e húmidos, tristes e plenos de passado, detêm-me. Apesar da beleza no arranjo das palavras, sim. Antes li dois contos de Clarice Lispector no livrinho de capa azul editado pela Cotovia. Sou incapaz de lhe devorar os textos - é para que não se acabem. Preciso de ter alguma Clarice de reserva em casa, destinada a necessidades que possam surgir de luz, frescura de manhãs e doçura. Talvez por isso não tivesse ainda percebido que tenho três livros editados pela Cotovia a morar comigo. Tão poucos. Com certeza isto dirá algo desinteressante e inútil sobre a minha carreira de leitora.

Mas são horas de trabalhar. O camião do lixo já entrou na rua para a sua lavoura metálica, basculante e barulhenta. Bem hajam.

15/02/2022

Espremedora

Tenho estado a ler Daniel Maia-Pinto Rodrigues. Oh! É poesia que me atropela os sentidos e me dá piparotes na cabeça do lado esquerdo e do lado direito se for preciso. Sim senhor. Gratidão é o que me ocorre, entre outros deslumbres. Espanto também podia ser, mas estou a ficar enjoada dessa palavra, espanto para aqui espanto para ali. Há quem se aborreça de resiliência. Pessoalmente, sendo esse um conceito que reveste o bolso de casacos muito antigos, com aplicações em materiais cheios de calor, sentindo-se provisoriamente ofendidos ou transitoriamente desalinhados, aguento perfeitamente. Por outras palavras, sou resiliente à resiliência, que lindo. É então o espanto que começa a cansar. Porém, coitadinha, não deve esta palavra ir sentar-se no mesmo banco de obsoletos onde já estão o espetáculo, o incrível e o fantástico (por favor). Espanto merece ficar em tribuna mais altinha, nem que seja com cunha. É o que faz andar a meter-me com a poesia, estrago-me imenso. Havia era de me pôr a despachar o monte de roupa para passar, esfregar o terraço e fazer o jarro de sumo com os kiwis e as laranjas que os vizinhos trouxeram para o efeito, juntamente com a espremedora num saco do continente já bastante velhinho.

09/02/2022

Caixa de doces

Andava há muito alheada de cremalheira até ela me vir cair em cima do café da manhã precisamente com a janela aberta para o vale. Exibia em todo o seu comprimento os dentes e recessos orquestrados para funções nobres de entranhas mecânicas, utilíssimas à navegação. E mais: trouxe-me em caixa de doces lembranças universitárias passeios pelos corredores meio que ajardinados sobre primaveras ainda pobrezitas de medos e outros grilhões. Estavam uma delícia.

08/02/2022

Um trabalho mais jeitoso

O terreno aqui ao lado que há anos mandámos limpar por estarmos convencidos que o tínhamos comprado, está cheio de indícios. São indícios amorosos. Têm forma de montinhos que punhados de terra arrancada fazem contrastando com as ervas autóctones indiferenciadas e verdes nos pedaços ainda por investigar. Punhados de terra não, focinhadas. O terreno que em tempos, quando sob operação de limpeza em curso, motivou o parece-que-dono-verdadeiro ligar-me a mandar vir, O terreno é meu, ora essa, tire lá daqui as máquinas!, esse mesmo, tem sido visitado, revolvido, afocinhado, por javalis da Serra da Lousã. O terreno que pensávamos ter comprado e afinal não, que mandámos limpar e se voltou a encher de mato, coitadinho, deitado à intempérie de verão e de inverno, esse terreno, saiu portanto do seu abandono. Não pela mão, mas pelo focinho de animados e empreendedores javalis. O vizinho dono-verdadeiro não se pôs ainda a mandar vir comigo, deve achar o trabalho dos amorosos suínos mais jeitoso do que aquele então começado pelas máquinas. Oh, mas eu concordo. 

01/02/2022

Já está

Ontem houve assembleia de condóminos e embora aquilo pareça mesmo uma reunião chama-se assembleia. Ela realizou-se no átrio espaçoso juntamente com as plantas de grande porte habituadas a viver sozinhas, agora com a secretária e as cadeiras para ali todas movidas a partir da sua saleta, numa configuração anticovid e admito que criativa. Foi até agradável. No início da ac (assembleia de condóminos), aliás, ainda antes do seu início, estávamos para ali já alguns em pé, de roda, a deitar conversa fora, quando entra na área um casal não residente que se dirige ao elevador. O homem do casal, vendo-nos os poucos mas bons a conversar em modo de pré-ac exclamou: o que é isso, um comício? Pois este homem era nem mais nem menos do que um ex líder de partido político e presidente de câmara, entre outras atividades palpitantes, rapaz batido em comícios e portanto talvez interessado em nos ensinar alguma coisita sobre o tema. Esclarecemos solícitos que era apenas a preparação de uma alegre ac. Não ficámos a saber o que ele achou do nosso comício, se fofinho, vibrante ou cinzentão, pois seguiu viagem prédio acima logo sem mais nada de jeito. Paciência.

No fim da ac combinei com o vizinho do sexto a mulher dele vender-me meia dúzia de ou crepes ou chamuças ou rissóis feitos por ela desde que vegetarianos por causa da Saminhas e para começar. Isto soube mesmo a vida normal de vizinhos e coisas a sério, que saudades eu tinha de uma boa assembleia de condóminos, do mundo como ele quer ser. Nada disto precisou de insta ou face ou fontes de tédio parecidas, tenho que dizer, e por isso é que digo, os meus olhos descansaram tão bem e a minha barriga, entretanto, à hora do fecho desta edição, já incorporou dois rissóis de vegetais capazes de consolar uma pessoa farta de trabalhar!!! Foi ganho.

Mas há um mas. Hoje pela manhã a Saminhas e a sua dor de cabeça fizeram o teste covid, deu positivo. Acabou a vidinha covid-não-entra e o cão do vírus quis conhecer-nos as entranhas. As dela. As minhas, segundo pude apurar, ainda não. Mas quem sabe. Amanhã repito a testagem na apoteca. Hoje deu-me para isto.

28/01/2022

Coisas que não aconteciam se não fosse a covid dezanove

Entro com o pé direito no pequeno laboratório onde vou fazer o testezinho covid para poder regressar a Portugal, ajeito a máscara para desenfiar os pelinhos de papel que se metem no meu nariz aspirante de ares mascarados, encharco as mãos no gel oferecido à entrada e digo bom dia em holandês. Já conheço este laboratório, tem dois funcionários, embora diferentes dos das outras vezes, um na receção e outro na colheita da amostra. Dirijo-me à receção. Entrego o meu cartão de cidadão e mostro o código quê erre da marcação do teste no ecrã do telefone. A mocinha da receção, verificando os dados pessoais no meu português cartão de identificação, exclama isto: Ah! Faz anos no dia sete de setembro! Eu: Faço. Ela: Eu também! Oh, mas que coisa tão gira, digo eu, e rara, penso. 

A mocinha entrega-me duas etiquetas que me diz destinarem-se ao seu colega, e manda-me entrar. Não está mais ninguém no pequeno laboratório. O técnico da colheita recebe-me cordialmente e aponta-me a cadeira, todo a cumprir o procedimento. Eu entrego-lhe as etiquetas e sento-me. O técnico aprecia-as, cola-as nos devidos lugares enquanto lhes lê o conteúdo com os meus dados e diz: Ah! Faz anos no dia sete de setembro?? Eu: Pois faço.... Ele: Eu também!

Mau. Isto já é probabilidade de menos. Então explico-lhe que a sua colega me disse exatamente isso... Ele estica o pescoço e grita para a colega a pergunta que a mim fez sem gritar. Como eu esperava, ela confirma. Somos, portanto, três, as únicas pessoas neste pequeno lugar todas nascidas no mesmo dia que não no mesmo ano, como (vai rimar) se podia perfeitamente verificar com um simples olhar. Também era melhor.

(Adenda histriónica: a probabilidade de isto que me aconteceu acontecer é, segundo os meus cálculos não renais, cerca de 0,00075%. Vai buscar.)

20/01/2022

De pouco me vale não ter facebook e coiso, o castigo é certo

O computador à parede não atirei ainda, como fez a minha cliente, mas suponho já ter estado mais longe. É uma questão de definir se vai o próprio, o teclado acessório ou o segundo ecrã. Isto porque o telemóvel já foi, embora não à parede. Estúpida coisinha dentro da qual somos obrigados a viver SE QUEREMOS MARCAR A MERDA DE UMA CONSULTA para a qual é preciso criar nome de utilizador, palavra passe com requisitos de proteção para juntar às quinhentas mil palavras passe que já nos obrigaram a criar e que depois esquecemos e por isso temos de substituir por novas palavras passe que vamos também esquecer, instalar uma app no telemóvel porque uma equipa permanente a pensar em si o tanas e o raio que os parta, no computador não dá, aliás não dá em lado nenhum! Foi por isto que o computador se safou de ir parar ao chão, mas não o telefone. Não se partiu, a capa é boa. Apenas saltaram os cartões lá metidos incluindo os papelinhos com os dados da minha rica vacina covid. Apanhei-os. Gostava de saber, já que aqui estamos, para quando apanharmos também as vacinas através de apps no telemóvel. A mim quem mas deu, a todas três doses, foram pessoas, duas mulheres e um homem. Pareciam verdadeiros. Ou seja, de carne e osso. E falavam! Falaram comigo, a sério que falaram. Até me olharam nos olhos! Um luxo tão grande, tão grande. Enorme.

17/01/2022

Quem descobrir o que é Sêugutrop ganha

Enquanto esperava pelas onze e quatro, hora patente no pequeno retângulo de papel que ditava a minha autorização de saída do recobro da vacina, li dois contos da Luísa Costa Gomes*. O “Hades” e o “Elegancil”. Que duas maravilhas. O “Hades” preferi ainda mais! Contei-lhe as páginas e são seis. Fotografei uma a uma e mandei para a minha irmã que gosta de palavras, a ver se ela lhe pega e, pegando, se gosta. Eu aposto que sim, uma vez que “Hades” é “Hás-de” em Sêugutrop.

*"Contos outra vez", edição da Cotovia. Tem na contracapa uma etiqueta da FNAC de setembro de 1998, de certeza alguém me ofereceu o livro pelo aniversário e, ao contrário do que é costume, não faço ideia quem foi. Que pena.

16/01/2022

Benditas feromonas

Quando, já a tarde se punha esmorecida, levei com a rua na cara à saída do prédio para ir comprar sumos e sobremesa para o jantar com uma das minhas irmãs e correspondentes miúdos, senti-me feliz. É esquisito mas que foi, foi.

Comprei dois sumos, um pacote com chocolates miniatura para o café e milho para a salada. Não vou pôr tomate, hoje não gosto de tomate. Normalmente em janeiro é assim. Lá para maio tornarei a gostar. Hesitei quanto ao queijo branco mas deixei-o ficar descansado. Havia tantas marcas diferentes, e formatos, que me cansei de tentar tomar a decisão por isso não a tomei. Ando assim a meio gás há tempos, daí achar tão estranho o pico de felicidade. Pensando melhor, hoje dormi muito bem, fiz a caminhada toda e comprei o tabuleiro de segurança. Andava há séculos à procura dele, um tabuleiro um bocado bonito para dispor em cima da cómoda com as caixas de cerâmica dentro, em arranjo de rebordos subidos à prova de patinhas felinas deslizadoras-de-objetos-e-deitadoras-dos-mesmos-ao-chão durante a noite. Creio que assim as caixas podem voltar a sair da gaveta onde têm passado mal a pandemia. Portanto, vendo bem as coisas, e entretanto também as caixas, até que não estranho a felicidade que me caiu em cima. Mais: montei as rodas todas, quatro de cada lado, no cesto inferior da lavavajillas, se quisermos uma palavra lindíssima, se não, temos sempre a composição máquina-da-louça, e ele corre sobre rodas. Novas. Está tão bom o cesto. Afinal, tenho imensas razões para a felicidade chegar cá.

(mais: as benditas feromonas parece que estão mesmo a resultar, caramba - quase choro de alegria)

15/01/2022

Spray emergência

Logo após se ter partido a segunda roda do cesto da máquina da loiça e juntando um ou dois suspiros para ganhar ânimo, entrei no google com pouca fé. Escrevi as palavras melhores para a essência da minha precisão. Cestos, máquina, lavar, louça - e não loiça, louça soa mais sério, ó, louça. E a marca. Saiu logo a resposta a valer mais do que a fé propunha. O cesto, na cor, na forma, nas rodas intactas, ali todo na imagem, ao contrário do que tenho em casa, rodas estafadas, duas partidas, como já sabemos, as restantes ameaçando. Isto num eletrodoméstico ainda com futuro brilhante, especialmente por dentro. E com sal comprado também especialmente. Considerando que o meu primeiro pensamento, ainda antes do natal, havia sido “ai que vou ter de comprar uma nova máquina”, estava aqui já a sentir-me com sorte, ganhando pontos, perante a possibilidade de um cesto novo, apenas isso e não toda a máquina, quando, senhores!, outros frutos ainda mais doces se me atravessam ao olhar: no ecrã a imagem de um conjunto de rodas, só elas, todas oito, para substituir no meu próprio cesto. Encomendei, claro. Depois guardei os suspiros no bolso com muito cuidado, pôxa, esta valeu.

Enquanto escrevo isto, dois gatos correm doidos por aqui, a bufar e a rosnar, o dia começou agreste. Ontem tinha sido lindamente, as feromonas do difusor mais as do spray emergência a fazer o bonito, a paz. Tão bom foi o dia que até escrevi ao Dr. dos Gatos, muito contente, a agradecer as dicas das hormonas. Por isso é que estou desanimada, poças, esta agora valeu não.

07/01/2022

As coisas por que passamos por um café

São dezassete e vinte e dois e já anoiteceu. Comendo a maçã que divido com Erik, assomo à janela da cozinha e vejo que na casa vizinha do lado poente, Meicke não está sozinha. Um dos seus filhos está de visita. É aquele que, segundo Erik, vem muitas vezes jantar com ela, aquele que é portador de uma leve deficiência. Ele está sentado, consigo ver daqui, a uma mesa junto à qual um dia, à hora do café, caí de rabo no chão. Foi lindo. Meicke tinha-nos convidado para esse tal café no âmbito da boa convivência com vizinhos em vigor em todo este lado da rua e, quando me vou sentar na cadeira que ela puxa para mim, solícita, pum. Ora eu não havia tirado e portanto ainda envergava, mania dos frios, o velho casaco comprido e grosso, castanho, com o qual havia percorrido a meia dúzia de metros que separam as nossas casas. A cadeira ali disponibilizada para mim animou-se então de um movimento de translação orientado a poente, impulsionada pela minha ampla abordagem na tentativa de nela encaixar o meu aumentado traseiro (lembro o casaco castanho, atenção, comprido e grosso, aliás, muito grosso). A cadeira não se encontrando apta à tarefa de encaixe da minha pessoa na forma de sentada e pronta a tomar o querido café, deixou-se, como dito, deslizar para longe. E eu? Isso: caí no chão com o referido traseiro desamparado, como já disse três vezes. Era aquela uma cadeira com rodas, a saber. Ágil, portanto, leve, silenciosa e pronta a deslizar. Não uma cadeira de rodas, tomar nota, mas uma cadeira com rodas. É diferente. Levantei-me imediatamente, sacudi a pouca vergonha, endireitei o grosso do casaco e encetei uma segunda tentativa agarrando a safada pelos braços de modo avisado e sem margem para erro. Sim, sim.

03/01/2022

Espirros são como as cerejas pelo menos para mim

Com certeza mais vale limpar uma sujidadezita que secou no ecrã do telefone. Não tinha saudades das insónias, caso perguntassem. Os novos vizinhos da casa da frente esquerda, vendida no ano recém transato, têm uma árvore de natal que se vê da rua com luzinhas azuis, verdes e vermelhas. Não prefiro; as de luzinhas amarelo-torrado é que são quentinhas. Consegui dois dias inteiros sem trabalhar, o ano começa disciplinado e amigo. Está escuro lá fora, as silhuetas das árvores não têm folhas e não oscilam ao vento ausente, está toda a gente a dormir. As vacas do Verão recolheram ao estábulo há muito, mas não tem estado frio algum. Mudei as anotações correspondentes a dois mil e vinte e dois para a nova agenda. Todos os anos tenho medo de já não haver agendas físicas à venda, pois delas cada vez há menos. Não quero estragar ainda mais os olhos esborrachando-os desta maneira com ecrãs. Entediam-me conversas sobre o Facebook e receitas de cozinha, caso tenha interesse. Suspeito que há quem se tenha mudado para dentro desses lugares. Há poemas que parecem slogans publicitários e por isso estarão sobreclassificados, isto digo eu, evidentemente. Que simplesmente adoro a Adília Lopes e o João Luís Barreto Guimarães, a Cláudia R. Sampaio e a Filipa Leal também digo, e há mais. Especialmente aqueles poemas que se inserem na categoria temática amor-mastigado. Só gosto de poemas que ou me fazem companhia ou me divertem. Cada vez me é mais difícil gostar de um filme, mas gostei da série portuguesa da Netflix, in-crí-vel. A palavra incrível toma-se melhor às prestações, está estafadíssima. Como fantástico. Fan-tás-ti-co, não como? Felizmente há os livros, abençoados, abençoados. Mas agora o melhor talvez fosse a loucura de ir dormir. Saúde!