a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

22/07/2021

Cuidado com a mulher

Um fraquinho de mês, este. Tem sido, claro está, o trabalho para não variar. Bem, na verdade, o trabalho e os veados. Por causa deles, temos andado a fazer os raides ao cair da noite na serra a ver se vimos alguma coisa. E sim, oh se vimos! Até um javali adulto, bem escuro, estava no meio da estrada todo preparado para iniciar a sua caminhada apressada (aquelas pernas curtinhas a dar o litro) de retorno ao abrigo do eucaliptal. Os javalis devem ficar fartos de eucaliptos, se calhar por isso é que este veio passear para a estrada para variar um bocadinho de ambiente, mudar de ares. E logo a seguir ao avistamento do raro suíno, não é que avistámos um raro canídeo a correr a correr de cauda com ponta branca, também conhecido por raposa? Ah pois é (bebé)!

Há dois dias, ainda não tinham dado as quatro da tarde, eu estou no terraço a trabalhar (claro) e oiço atrás de mim krrshsshsh krrshshs. Quando me viro para ver quem produz passos que não podem ser nem de passarinho nem de gato, dou de caras, aqui no abandonado jardim do lado, onde sobram por exemplo barras de suporte para anteriores colmeias de criação de mel, dou eu de caras, dizia, com a situação abaixo ilustrada. 


(mãe e filho, ou filha, pensando em veadês "cuidado com a mulher" - mas, não sendo esta muito muito assustadora, ainda deram tempo para os fotografar e até filmar) 

21/06/2021

Cuidado com o gato

A noite foi melhorzinha. Devido a estar tão necessitada dela, e de sono, não atendi aos chamados repetidos da Marble à minha porta por volta das seis. Desta vez ela não a conseguiu abrir, ou não tentou, e eu virei-me para o outro lado. Mas quando a saboneteira nova que a Saminhas trouxe ontem do IKEA se partiu na casa de banho por causa de certa patinha branca que a deitou ao chão com o intuito de realmente arrancar alguém da cama, levantei-me pois bem informada do sucedido pelo catrazsh. Em matéria de saboneteiras, e vão duas partidas. 

Antes de começar a rever o trabalho para entregar hoje até à hora do almoço, reparei que o lenço de papel que está em cima da secretária para o que for preciso, por exemplo, apoio na limpeza da boca durante a degustação de cerejas, situação que se verificou ontem pela noite de trabalho adentro, está tingido da cor delas. Trata-se de um roxo suave, muito bonito, perfeitamente capaz de me recordar que hoje começa o verão.

09/06/2021

Planos inclinados

A miúda a quem há uns anos tentei ensinar física - planos inclinados, forças, componentes em x e y  – e também alguma química – reações entre os elementos naturais que tinham de dar sempre certo - e que trazia com ela mais preocupação no arranjo das unhas e do cabelo e nas diferentes capas do telemóvel do que naqueles assuntos, a miúda que, para começarmos a sessão eu tinha de lhe dizer, então agora tira lá o caderno e o lápis, essa miúda vai abrir um centro de estética. Está, então, explicado o meu total falhanço.

(Não vale a pena tentarmos fintar a natureza porque, felizmente, ela leva sempre a melhor.)

08/06/2021

Malware

Mesmo dentro de casa com tudo fechado, ouve-se as máquinas lá fora. Pelo continuado do som, estimo ser um trator a trabalhar a terra dele. Se o vir, fico logo alegre – a imagem de um trator a trabalhar a terra dele faz-me isso - mas ouvi-lo apenas não. Estou no andar de cima, na minha lavoura (para não repetir trabalhar), tenho uma vista verde, extensa e luxuriante à minha frente, lavo nela os olhos as vezes que eu quiser, lavo lavo, mas não os ouvidos. Ao mesmo tempo, vem do lado esquerdo uma cantoria aguda que estimo ser emitida pela vizinha cujo holandês me escapa em noventa e cinco por cento (na realidade, só lhe apanho uma palavra e sempre a mesma, que é “misschien”* e que ela pronuncia, em vez de “mecerrin”, “mechin” e, como a pronuncia em duplicado, “mechin, mechin”, dá para cinco por cento da conversa), mas também pode ser um dos netos, que de vez em quando vem passar umas horas com estes avós. Além de que, e vou já já fechar o balcão das queixas (ah ha! eu também duplico palavras), além de que, dizia, esta manhã logo cedo passou o carrinho da junta a aparar a relva em frente às casas, dispersando o seu próprio ruído imenso. A boa notícia vem agora: consegui encontrar a solução para as mensagens suspeitas que o meu telefone coitadinho recebia desde há dois dias, à cadência de vinte por hora, tipo isso. As muitas muitas (ó!) mensagens alertavam para um problema iminente e convidavam com vermelhos e azuis berrantes a seguir ligações "salvadoras" (também se pode fazer as aspas com os dedos a riscar o ar). Não segui nada, claro. Investi, antes, com a solução explicada na querida Internet que foi totalmente eficaz, quer dizer, dizimei a intenção do malware. Mas não sei traduzir malware.

*talvez

02/06/2021

Avelã ao cubo

Mal me apercebi que era o dia das crianças - já a tarde ia apuradinha - aproveitei o facto de ainda ter uma filha em casa, à mão de semear, e combinei com ela levar as nossas crianças interiores (c' amoor) a jantar fora. Escolhemos o Cantinho do Avilez e sentámo-nos na esplanada. Encomendámos a sangria branca e duas entradas, peixinhos da horta e queijo com chutney de tomate. Este post parece um menu mas não é, uma vez que não há aqui nenhum quê erre código para fotografar com o telefone nem uma azeitona recheada em cama de alface, por isso adiante. A Saminhas comeu a salada de quinoa e eu uma massa com camarão e manjericão, que estão aqui estão a querer rimar com também pedimos pão. Vento não havia, nem aragem corria (outra vez?!). A correr passou mas foi um grupo de pessoas e mais tarde outro de bicicleta. A noite vinha caindo com preguiça como se estivesse sólida, colada ao teleférico parado ali tudo. As nuvens que tinham vindo passar o dia ao céu local já haviam ido pairar para a outra banda ou para outras bandas, isso não poderei precisar. A minha atenção neste ponto estava detida no absorver da sobremesa de avelã ao cubo (a-ve-lã e-le-va-da a três), primeiro comecei eu a engoli-la a ela e no fim ia sendo ao contrário se eu não me tivesse agarrado com força à colher. A sangria branca também estava a pedi-las, mas deixámos um fundinho no jarro não fosse o caldo entornar-se (cuidado com o cão: esta sangria é para aqueles que pedem normalmente sangria e para aqueles que – como eu – dizem que nunca bebem sangria, nem pensar, só vinho e outras bebidas igualmente autênticas, hã?). Estou a falar a sério.

30/05/2021

Dupla inteligência

Mais uma noite mal dormida para a coleção. Segundo o meu fiel relógio em combinação com a aplicação no telefone, acordei às 4h36, mas eu sei que foi às 4h23. Ambos estão perdoados pela imprecisão, uma vez que entre uma hora e a outra eu estava acordando de fininho, fazendo o possível por voltar a cair no sono. Ingenuidade a minha, evidente que não voltei. Note-se porém o ter escrito as frases anteriores completamente em português. Por exemplo, relógio, telefone, sem referência à dupla inteligência de que beneficiam os dispositivos em inglês, a aplicação por inteiro. Fica o texto mais parece que limpinho.

Quando, pelas seis horas, depois de acabar o livro que vinha lendo, fui inaugurar o dia na cozinha, tornei a ser invadida pela urgência de lavar os vidros. É capaz de não passar de hoje, pelo menos poderei aproveitar o facto de os meus dias serem tão mais longos.

A Marble estava a observar alguma coisa lá fora, no sol da manhã e através dos sujos referidos. Aproximei-me e vi com ela. Um casal de melros ensaiava a produção de mais alguns. Nunca tinha visto. Mas é a primavera, é domingo e é tão lindo.

26/05/2021

O fim da cena, dia catorze

Pelas minhas contas, os catorze dias terminaram hoje às dezasseis horas. Dei uma margem de segurança e pelas dezanove verti-me completamente para a rua. Cumprimentei a vizinha do oitavo que estava à espera de alguém ali no passeio, sorridente de máscara no queixo. Oh, queres ver? Indaguei os meus botões se ainda era de trazer a máscara na boca e no nariz ou se tinha havido um abaixamento das regras. Os transeuntes locais esclareceram rapidamente, era era, boca e nariz, querias! Continuei, então, confiante e com o sorriso ocultado. Esta ocultação sendo um extra bem-vindo, uma vez que caminhar pela rua sorrindo como se tivesse estado enclausurada catorze dias podia parecer esquisito. E de repente, dou de caras com a coleção de jacarandás a ladear a estrada que se estende perto. What?!* Todos abundantemente em flor!!!!! E eu sem saber de nada. Ainda por cima - continuando a andar - não é só os jacarandás naqueles propósitos todos, também os pequenos canteiros colocados à laia de apontamentos do bairro, um aqui outro ali, tudo florido a abarrotar! Na sua maioria de violinos, uns riscados de branco, outros em cor inteira. Uma composição em tons de música para os olhos. Os carros sinceramente. Passavam como se coiso, como se aquilo fosse o quê, nada, não se percebe. Eu cá aproveitei, que durar não duro sempre, lavei os olhos bem lavados mas foi. 

*exclamação proveniente do post anterior.

25/05/2021

Quarentena, dia treze

Hoje venho falar dos meus sapatos de ténis novos ou sapatilhas como se diz, melhor, no norte. Inspirados na nova dança que me salvou estes dias interiores, eles chegaram hoje. Como não havia o meu número, que deve ser o mais corriqueiro porque estava esgotado em todas as cores deste modelo que eu queria, as sapatilhas são meio número acima do meu. Talvez até deixe crescer um bocadinho as unhas dos pés, para aproveitar o espaço extra. Acho que se chama unha francesa a isso. Mas nos pés (um caso a estudar quando não tiver nada melhor para fazer). Depois de apreciar o belo par de todos os ângulos e lhes enfiar os pés dentro com meias acabadas de sair da gaveta, sim sim, vejo no interior da caixa uma folhinha de instruções que me fez abrir mais um bocado os olhos. Trata-se da documentação dedicada à hipótese de devolução do produto. Vem até pré-preenchida com os nossos dados, meus e dos sapatos, género declaração do irs. Mas as instruções! Por favor, experimente os sapatos com meias limpas. Certo. Por favor experimente-os dentro de casa num chão limpo. Se alguns pelos de gato não contarem, certo também. Por favor tenha cuidado para não sujar os sapatos, por exemplo com maquiagem. What?! (como diria a Saminhas) Maquiagem?!... Sinceramente! Experimentar os sapatos na cabeça, ou na cara, é isso?... Não percebi. Mas também não faz mal, porque não os vou devolver, até já fizemos a dança nova em conjunto, um trabalho de equipa como deve ser. Ah, senhores!

24/05/2021

Ligeiramente bobona, dia doze

Quando a campainha soou pensei que finalmente tinha a PSP à porta. Mas era a caixa da WOOK estendida à distância com os meus três livros novos lá dentro e um cremezinho de oferta. Um dos dois livros que vieram de boleia acompanhar o líder do grupo, metodologia de compra que já tive oportunidade de explicar neste fórum, eu não fazia gosto nenhum de o ler muito menos comprar há um mês atrás. Mas na altura da encomenda em linha encontrei-me, admiradíssima, a escolhê-lo*. E agora estou cheia de vontade de lhe pegar. O que a quarentena faz a uma pessoa, poças.

*”O desassossego da noite”, de Marieke Lucas Rijneveld

23/05/2021

Vale uma vintena, dia onze

À hora do almoço, para descansar de ecrãs e por gosto, li a crónica do Jorge Buescu na última Ingenium. Desta vez, ele ensina a fazer experiências caseiras surpreendentes, descobertas por um senhor japonês merecedor de vários adjetivos. Quando acabei de comer fiz a primeira experiência, a do papel. Fiz direitinho, cumprindo igual as instruções e pensando, “ah… não acredito…”. Agarrei com os dedos e ... puxa, não é que funcionou?

Para quem queira experimentar, a receita pode ler-se abaixo se se desejar. Se não se desejar, também pode.

(adoro coisas destas)

(esquecer os ovos, não são)



E para quem queira ainda mais:

22/05/2021

Quarentona, dia dez

Ao décimo dia pensei estar no mínimo meio louquinha, a bater com a cabeça em algum lado. Mas tirando a desilusão de ainda não ter sido visitada pela PSP a verificar o meu bom comportamento, vai-se andando. Cantando e rindo em parte, mas especialmente dançando (calma, não vou repetir). Só tenho pena de não ter um ginásio em casa, aí é que era (só isto). Fiz pois uma sopa das grandes e frango estufado com ervilhas, que é um tema recorrente, tanto aqui como na minha cozinha. Gosto imenso, porque aquilo faz-se sozinho enquanto eu estou na lavoura, que lá isso trabalho não tem faltado. Para o meu radiozinho despertador com miados nas madrugadas, cozi à parte uma perninha de frango sem sal, temperada portanto à moda destes posts emitidos a partir do período mais longo da minha vida assim fechada em casa. Que me lembre, claro.

21/05/2021

Quarentena, dia nove

A planta de flores vermelho-vivo que comprei no início de março ganhou pulgões que mais parecem pulguinhos. São muitos e são mínimos. Os pulgões que atacaram, numa outra primavera, a família de orquídeas é que sim senhor, deitavam corpo de pulgões (e exterminaram as vítimas na altura, nem é bom falar nisso). Estes são muito menos encorpados, como já disse, e portanto não se fizeram notar em tempo útil. As folhas da planta estão a ir do verde para o amarelo e as flores caem umas após outras, destroçadas. Perdido por cem perdido por mil, optei por tentar trazer a planta à vida, exterminando drasticamente os pulguinhos, para variar. Com este propósito em mente e à falta, um, de stock inseticida em casa, dois, de liberdade para eu ir à rua fazer compras e, três, de vontade da minha filha para ir ela comprar químicos de matar bichinhos, agarrei-me ao pulverizador com vinagre e citrinos. Este foi fruto de um deslize no ano passado e no sentido de formular produtos de limpeza biológicos caseiramente, essas coisas. O pote de vidro utilizado para o preparo era mesmo bonito para dar um impulso positivo. Vinagre e água vertidos para cima de um monte de restos de citrinos, em proporções iguais. Deixe a composição maturar durante duas luas ao sol e ao calor e no fim ganhe coragem para abrir o pote. Obedeceu-se e verteu-se o líquido alaranjado para o recipiente pulverizador novo, comprado para o efeito. Não sei se teria ajudado inserir um pauzinho de canela, uma colher de chá de chocolate em pó ou mesmo um cheirinho de vinho do porto, para ajudar na maturação (e no aroma). O certo é que o produto de limpeza biológico caseiro saiu a tresandar a vinagre e, portanto, se queremos limpar a casa com ele, temos de fugir a seguir. Volvido este ano louco, decidi recuperar a boa intenção do fundo do armário dos produtos químicos de limpeza com aromas tão lindos a limão, montanha e floral, e dar-lhe uma segunda oportunidade no combate aos pulguinhos. Pulverizei-os, pois pois, com o vinagre citrinoso abundantemente, ou seja, mesmo à grande. Muitos já foram perecendo, é certo, mas a planta sei não. Continua muito em baixo.

20/05/2021

Olha a ladainha, dia oito

Hoje de manhã dediquei o escorvar do dia a uma visita à livraria. Quando vi que a Djaimilia Pereira de Almeida lançou um novo livro, fui logo comprá-lo. Ter lido “Luanda Lisboa Paraíso” bastou. Porém, como não gosto de comprar um livro só de cada vez para que ele não se sinta desacompanhado na caixa de expedição desde os armazéns da Porto Editora até Lisboa, coitadinho, fui à pesca de mais dois, para aconchegar. Já tenho então três a caminho, se as contas estão bem feitas, que só dois é pouco. Mas claro que andei a vaguear pelas montras. Peguei na Julia Navarro e na Maria Dueñas, hoje acordei algo hispânica, mas nenhuma me conquistou pelas sinopses. Nem sequer pelos inúmeros comentários de leitores entusiasmados. Gosto de ler os comentários e já tenho lá uma ou duas pessoas de referência capazes de, sem saberem, me encaminharem para terreno firme quanto à leitura. Na generalidade, os comentários são mais ou menos elaborados, empenhados, honrando o papel informativo a que se propõem. Mas hoje notei que, entre os de puro-sangue, obviamente autênticos, há alguns completamente fora da caixa (embora dentro dela; isto trata-se de uma figura de estilo da atualidade). Exemplos: “Ainda não li o livro, mas deve ser bom, estou com muita vontade de o ler!” ou “Acho que a minha filha vai gostar, comprei para ela!” ou ainda um vazio “Muito bom!”

E de repente caiu-me a ficha, ah!. Está então explicada a mensagem recentemente enviada aos clientes informando, com muito jeitinho, que o euro de bónus atribuído ao leitor por cada comentário a um livro que tenha adquirido, só será creditado se aquele refletir realmente a opinião sobre o livro, uma vez que é esse conteúdo que pode servir a outros leitores e tal e tal. Quer dizer, abusadores miseráveis.

19/05/2021

Cuidado ó morena, dia sete

Durante a tarde, recebi no desassossego do lar várias buzinadelas já filhas de um novo trânsito, desconfiado. Finado, desconfinado. Elas vieram importunar-me a pobre memória que ainda estava de férias destes ataques. De volta à realidade, é o que é, e as buzinas não atuavam sozinhas. Havia também que acomodar nos ouvidos martelos num andar próximo aos encontrões às paredes, de modo que fugi para a minha nova atividade caseira e dançante, suportada (não vou dizer empoderada, credo) suportada, repito, pelo sempre disponível Youtube. Pelo menos nesta fonte o barulho do tipo obras vem mais organizado e abafa as buzinas da rua, é sempre a faturar. Ando tão contente com isto que até me dá vontade de oferecer um presente aos vídeos.*

*inspirado na Clarice Lispector que queria oferecer um presente à sua máquina de escrever por gostar muito dela.

18/05/2021

Quarentinha, dia seis

Numa primeira abordagem, fiz do escritório ginásio. O vídeo com a dança escolhida foi para exibição no ecrã maior e no outro ficou em pausa a última folha de trabalho. Estática, afixada e acesa em todo o seu espectro de possibilidades, quer dizer, com as cores impostas para realçar urgências, blocos aprendidos ou indecisões, a folha de trabalho atrapalhou-me suficientemente bem a orquestração dos passos, há que admitir. Para além disso, naqueles orientados a norte, em marcha à ré, os encontros com os puxadores salientes da cómoda, minha intrometida espetadora de plateia, não deixaram saudades. Portanto, empreendi a mudança do ginásio para a sala. Aí, por prevenção, introduzi alterações com vista ao alargamento, após o que o espaço ficou a roçar a perfeição. Atirei-me, então, ao trabalho por fora (como traduzir workout bem traduzidinho, hã?) e com isto quero dizer que me atirei a ele com unhas, dentes e o resto, tudo incluído. Parar é que foi difícil, foi foi.

17/05/2021

Quarentena, dia cinco

Não muito longe de parar para o intervalo do almoço, eu ainda derrapando pelos temas afora em deslizes contidos, explicados e discutidos, toca a campainha. A Marble é capaz de abrir portas interiores, mas a exterior ainda não está no âmbito das suas competências, de maneira que ninguém lá foi. Interromper a formação para ir atender a porta, psss. Já vi atenderem o telefone enquanto davam um curso presencial, com licença senhores participantes que está aqui o meu filho a ligar é só um momento, mas essas não são as minhas maneiras. No final do dia, quando abri a porta para ver que tal o tempo no patamar do elevador, estava um tímido pacotinho encostado à soleira, em cima do capacho, oh!. Recolhi-o e recolhi-me levando o embrulho para dentro e a quarentena muito a sério. Por isso é que já tenho planos para amanhã, um novo exercício caseiro. Estou ansiando. A música - que é em parte do tipo obras-no-prédio perdoa-se completamente pela beleza dos movimentos. Não se pode ter tudo, pois não?


16/05/2021

Grande mandriona, dia quatro

Entre o final da manhã e o almocinho meti quarenta e cinco minutos de fitness dance floor eighties, ou coisa assim, uma coleção de movimentos com música dos anos oitenta misturada à la anos dois mil, o que não tem graça alguma, a parte da misturada, mas isso agora não interessa nada (e rimou, parece-me). O que interessa é que me senti como quando vinha das aulas de dança nos tempos em que éramos tão novos e sabíamos tão pouco do que estava para vir, ou seja, senti-me feliz.

Apanhando boleia do poema do médico e maravilhoso poeta João Luís Barreto Guimarães, agradeço eu também.


A última palavra deste poema, e do livro, é também o seu título e, portanto, a sua primeira palavra. 
(que coisa linda)

15/05/2021

Mas que pena, dia três

Anda por aí um livro a exibir-se pelo menos em escaparates de supermercado e livrarias online, que me perturba. Na capa, em letras suficientemente grandes para até eu ler sem dificuldade, apresenta uma frase exclamada, mentirosa e irritante que lhe serve de título. Trata-se de uma declaração no contexto dos casais quase-pais, diz: “Estamos grávidos!” Senhores editores, não. Não é estamos é estou e não é grávidos é grávida. É preciso ter cuidado, podem passar ali crianças. Um homem lá porque vai ser pai não fica grávido. Um homem quando vai ser pai fica num estado situado ao lado de uma grávida, na hipótese mais aproximada. Portanto, esse título mentiroso, possivelmente arrastado nas ondas da inclusão emitidas sem antes alguém pensar com o cérebro, esse título que pode induzir crianças pequenas e outras pessoas desprevenidas em erro devia ser substituído pela verdade. Por exemplo: “Estamos num caso grávida e no outro ao lado dela, ambos num entusiasmo igualmente intenso porque vamos ser mãe e pai, respetivamente.” Assim sim. Até eu ia a correr comprar um exemplar só pelo gosto de ver um português honesto. Um bocado comprido, mas honesto.

14/05/2021

Quarentona, dia dois

Ia-me esquecendo de entregar a declaração do IVA, mas ainda fui a tempo, um alívio. Lá me safei de pagar multa, que isso eles não falham, são uns queridos. Uma vez tresmalhei-me sem querer e esqueci-me do prazo, coitadinho. Quando bati com a mão na testa e fui a correr pagar o imposto devido já era uns diazitos depois. Evidente que o castigo estava bom, obrigada, educadamente à minha espera na forma de um acréscimo adorável a título de multa. Impossível não achar esta dicotomia muito fofa. Por um lado, uma pessoa tem de entregar ao estado com e maiúsculo, os impostos tudo certinho, é para isso que servem os prazos, evidentemente. Por outro lado, este mesmo estado com e maiúsculo de vez em quando sofre de esquecimentos mas não é de diazitos, é de meses (sempre são esquecimentos como deve ser), para pagar o trabalho da pessoa. Não vá andarmos para aqui contribuintes com a mania das grandezas e mesmo felizes da vida: ao menos assim arranja-se motivo para a gente se poder queixar com propriedade, o que dá um acabamento muito mais sexy e atual. Andar contentes o quê, isso nem sequer está na moda, pá.

13/05/2021

Quarentena, dia um

Hoje só jantei disparates. Fui arranjar uma taça de leite sem lactose com flocos de milho normais e comi-os em frente ao computador a visitar a Wook a ver se me animava. Não animei. Por isso não meti mais livros no carro de compras virtual a juntar aos dois que lá deixei antes das seis da manhã. Depois da taça de flocos de milho sem lactose com leite fui comer a segunda mas pelo entremeio dei um bocadito do leite à Marble e ela bebeu-o todinho, estava com fome. Decerto foi de ter vomitado no chão da sala a meio da tarde. Agora está enroladinha a dormir ao pé de mim – acho que o ruído das teclas a embala, assim como a minha voz quando lhe falo baixinho. É por isso que me deixa cortar-lhe as unhas na boa – desta vez até me lambia a mão ao mesmo tempo. A seguir à segunda taça de flocos sem lactose de milho com leite ia para comer a última maçã do cesto, mas estava ainda mais podre que a do almoço e foi direta para o lixo. Então optei pela única laranja que restava lá, junto a algumas batatas ao acaso. Eu já sei há muito tempo que a laranja em cima de uma refeição, ainda que sem lactose, não me cai bem nenhum. Laranja esta que para ajudar e me animar foi secundada por uma rodela de chocolate de leite com um coração a cavalo. Só asneiras e agora estou a ir para a cama muito mais gorda do que devia.

Foi você que pediu detergente para a máquina em garrafa de PepsiCola? Não. Fui eu e a Saminhas foi comprar.

28/04/2021

Dispositivo programador de interruptores com temperatura de luz morna (é o que é)

Duas casas holandesas mais abaixo, vivia uma senhora avançada em idade e a precisar, desde há tempos, de cuidados de saúde e ajuda nas tarefas básicas. Vinham profissionais dos respetivos serviços. Às vezes, levavam-na pela manhã organizada e traziam-na à tardinha em ordem. À noite, quem passasse na rua sem saber, podia até desconfiar que ali se vivia um ambiente todo acolhedor. Dentro, vislumbravam-se abat-jours em cantos de sala, entre mesinhas, sofás e vasos de orquídeas à janela. Deitavam uma luz morna, dentro da qual só podia caber alegria, bem-estar e música boa acompanhando o som de talheres com aroma a jantar. Há uma semana, mais minuto menos segundo, a senhora foi considerada não apta à situação então vigente, por via de uma queda, e foi recolhida para um lar. A casa ficou vazia. Não passaram porém dois dias, mais segundo menos minuto, e veio alguém profissional, agora de outro ramo, empenhar as jornadas de semana, das oito às cinco, precisamente, na operação de obras no jardim. Entretanto, o quinhão do lado da frente, junto à estrada, já ficou pronto. Exibe nitidamente geometrias. No chão, encontro de ângulos retos, agudos e obtusos de cascalho, relva viçosa e ripas de madeira por escurecer ao sol, obedientes a planos e esquemas. Ao alto, excentricamente, um arbusto vertical com três esferas de folhas perfeitas e diâmetros diferentes, dispostas espaçadamente, ergue-se com o seu fino tronco apontando ao céu. Não sei como fazem aquilo ao arbusto. O jardim foi sujeito, portanto, a uma cirurgia estética, mas não plástica. À noite, quem passe na rua sem saber, pode até desconfiar que ali se vive um ambiente todo acolhedor. Dentro, vislumbram-se os abat-jours em cantos de sala, entre as mesinhas, os sofás e os vasos de orquídeas à janela. Deitam a luz morna, dentro da qual só pode caber a alegria, o bem-estar e a música boa acompanhando o som dos talheres com o aroma do jantar. Mas a casa continua vazia.

26/04/2021

Como se só houvesse algo a dizer quando é de mal

Estão zero graus lá fora mas a sensação real, diz o previsor eletrónico, é de menos um. Precisamente por esta razão há canteiros de flores cobertos com mantas, no caso da vizinha do lado direito, e lençois, numa instância mais acima, noutra rua, isto já desde ontem ao cair da noite holandesa. Não conhecia a prática de cobrir flores com mantas (ou lençois). Só conhecia cobrir os joelhos, os ombros e também o corpo humano na sua quase totalidade (uma vez que normalmente a cabeça fica de fora). As nossas flores, por estarem envasadas, vieram passar a noite gelada dentro de casa. Apesar disto, vai estar um dia de sol.
No mesmo previsor eletrónico, em Lisboa diz que vai chover. Ora eu estou mais calhada para sol do que para chuva, portanto não tenho nada a dizer (nota-se).
(fotografia inspirada no post anterior, para enfeitar) 

22/04/2021

O processo (mas outro)

Amanhã é dia de esvaziar caixotes na rua e em toda esta pequena cidade holandesa. Até que enfim. Uma pessoa está aqui há tantos dias, toda meio confinada meio testada negativamente meio a caminhar na rua desmascarada e ainda uma pessoa não viu a cena mais excitante a alterar a ordem e a tranquilidade muito lindas e que é o esvaziamento de caixotes temáticos. Já sabemos que este é um processo operado por um camião de braço lateral mecânico que aparece na curva impecavelmente limpo. De tal maneira que a gente se distrai do teor lixeiro da situação. Bom. Portanto hoje é o dia de posicionar o próprio caixote da modalidade certa, de forma orientada a sul e à distância bem medida, constante, conhecida de toda a gente, da borda do passeio do lado norte da rua. Ainda não tínhamos chegado à hora de almoço e já havia dois lá fora, alinhados em sentido, aguardando o momento da sua agitação, o momento em que ficam de cabeça para baixo e rabinho para o ar. Como vai ser a vez dos de tampa verde, ou seja, dos de coisas naturais, quer de comer, como caroços de maçã, talos de bróculo ou cascas de batata doce, quer de olhar, por exemplo flores danificadas pelo tempo ou pedaços de sebe que ousaram passar os limites geométricos obtidos cuidadosamente para o jardim, mas como ia dizendo, como é a vez dos da tampa verde, os vizinhos da frente andam desde manhã, de luvas calçadas, a tratar de remover os verdes dejetos indesejados para encher os seus contentores de lixo fresquinho, mesmo antes do processo referido. A eficiência está na ordem do dia, um presente arrumado em caixas imaginárias esculpidas nem que seja no ar primaveril, temos de admitir. Mas note-se que disse contentores no plural, "os seus contentores". Sim, este casal da casa em frente possui não um mas dois na variedade tampa verde. Isto deve-se a uma política orientada para o ambiente. Por outras palavras, deve-se ao simples facto de o segundo contentor – obtido mediante pedido expresso às autoridades competentes - ser de utilização gratuita. Isto o de tampa verde, frisemos. Porque caso algum habitante se ponha por exemplo em exageros na utilização de plásticos e outros materiais de embalagem, enchendo o seu contentor dessa espécie em menos tempo do que aquele que medeia duas passagens do respetivo imaculado camião, esse habitante tem de pagar o segundo. Tem tem. E quem diz o das embalagens, diz o do papel e o do lixo sobrante, de tipos indefinidos, o lixo que os caixotes temáticos não querem. Ora eu, que sou má como tudo na versão holandesa, acho isso mesmo muito bem.

13/04/2021

Uma pessoa nem dá pela chuva

Estou de volta a Lisboa. A viagem decorreu sem singularidades até ao quilómetro 37 da autoestrada A1. Bem ali no começo da zona em que só queremos é embrenhar-nos totalmente na querida capital muito depressa e esquecer todas aquelas construções e painéis horrendos que – vale a pena referir – não fazem totalmente jus ao resto da cidade. Tem muito de feio, Lisboa, mas também não tanto assim como poderia pensar quem entra desprevenido pela A1. Continuo sem compreender a razão de existir daqueles painéis verticais, enormes e desesperados implorando anúncios que, como toda a gente já devia saber, mesmo pessoas pouco modernas como eu, não querem ir para ali, estáticos. Não desde que podem instalar-se dinamicamente em ecrãs pululantes sobre os quais dedos deslizam. Painéis tão feios quanto inúteis, mas adiante, quem sou eu para dizer estas coisas. Ao quilómetro 37 apareceu a singularidade muito frequente no passado e quase ausente do presente: uma grande fila de trânsito, neste caso devido a obras. Tive de reaprender a segurar o pé no travão por muito tempo seguido. Já levava os músculos da perna direita totalmente destreinados da operação, mas vá lá que me safei. Como recompensa, tenho o sossego de estar em Lisboa. Milhares de pessoas vivendo no mesmo bairro, postas por patamares, elevadas por elevadores e abaixadas por eles. Eles que podiam, em alternativa, denominar-se abaixadores. Mas quem quer abaixar-se quando pode elevar-se? Milhares de pessoas tão próximas e tão longe de ideias como virem bater-me à porta a perguntar se quero ovos, pararem-me na rua indagando se sei de alguma casa à venda e, já agora, se a cascata fica longe, pessoas ficando contentes com o meu regresso e prontamente sugerindo mais logo um café no terraço, um café que se estende por toda a tarde, o vale ao fundo, o tempo fluido em torno, os milhafres, a gataria no cio, os piscos de peito ruivo certeiros nos intervalos da vedação, todo esse exagero de vida. 

Um sossego, Lisboa.

31/03/2021

É favor desculpar qualquer coisinha, mas o que tem de ser coiso

A direção geral da saúde (e não de saúde, embora esse seja o estado que todos desejamos a qualquer direção geral, evidentemente), a direção geral da saúde, ai, diz para as pessoas ficarem em casa. A sério, diz diz. Agora já não é só pelo motivo que toda a gente com mais de dois anos de idade sabe, mas também por causa de poeiras africanas que deram entrada possivelmente pelo Algarve, as porcas. Realmente notei qualquer coisa ontem quando fui levar o final da tarde ao rio e mostrar-lhe como está melhor o meu dedo, coitadinho. Mas não liguei muito a isso e até já estava a tentar ver naquele tom amarelado (que a fotografia da direita não sei se captou) uma certa poesia e assim, tipo manias. Porém, como ia ao telefone com a minha mãe e ela me avisou logo das poeiras, filha tu vê lá as poeiras, abandonei o projeto poético. Mesmo assim, fica a menção a elas no bloguezinho e a fechar o mês, o que já não é nada mau.

Abaixo: descubra as diferenças (uma tem mais vinte e quatro horas que a outra, que amor).



24/03/2021

A tampa fora de si

O voo descendente do frasco de café e mistério a ele associado podia ser o título de um livro se não quisesse ser de um poema. (mas a especialidade desta casa não é essa)

Claro que não estou a inventar coisas, aconteceu de facto, pela – não mão, mas – patinha branca de perfeição total, na forma e na beleza inerente, que esta noite, por via, talvez, de eu lhe ter recusado comidinhas para gato e outras atenções às quatro da madrugada, que esta noite, dizíamos, decidiu ir chegando, com jeitinhos lá dela, muito elegantes, tip tip, o frasco do café até ao bordo do balcão da cozinha entregando depois o assunto nas mãos da gravidade, que nunca falha, e eu, claro, eu com o catchapumbum de grande porte que ecoou pela casa, acordei (outra vez). Quando cheguei à cozinha, a cambalear – o sono, o andar ainda torto, por afinar – e a apertar o roupão para substituir num instante o quentinho da cama, observei com espanto que o frasco de vidro resistiu ao embate. Estava em pé, numa só peça, quer dizer, completamente inteiro. A tampa sim fora dele (a tampa fora de si!) a seu lado no chão e alguns pós de café moído também, mas não muitos. Lá que o tip tipezinho foi cirúrgico, deu para perceber. Todavia, não pude ainda compreender, nem com toda a minha física atómica e molecular, que voltas deu o frasco, já dissemos de vidro, para cair assim, de pé, todo ele tão graciosamente intacto.

17/03/2021

E depois mudei para a Antena 1

Quando, no meu novo espaço de trabalho, instalei a pequena aparelhagem de rádio e leitor de CD que comprei na Internet, comecei por sintonizar a Smooth FM. Já sabia que a Antena 2, teoricamente a minha estação de rádio preferida, não me servia ali por duas razões: uma, sintoniza mal a onda e isso obriga-me ao suplício de ouvir ruído branco e, duas, começou a incluir no seu menu habitual programas de folclore. Ora folclore não obrigada. Por isso mudei-me para a Smooth FM. A Smooth FM passa sempre as mesmas canções, mas eu ainda não sabia. São canções a roçar o género Jazz, ao estilo americano. A Smooth FM podia ser uma boa rádio se passasse Jazz original, uma Ella Fitzgerald, uma Billie Holliday, uma Sarah Vaughn, ou um Frank Sinatra, um Oscar Peterson, entre tantos outros. Mas não. Esta rádio passa sobretudo imitações, tributos, cópias. Como oiço rádio enquanto estou a trabalhar, oiço-a o dia todo. Por isso, passados alguns dias de Smooth FM, comecei a achar a música insuportável. Alguns intérpretes, imitadores baratos, ora desafinando obscenamente, ora gemendo em vez de cantar, faziam o meu braço saltar e carregar rapidamente no botão que corta o som. Uma destas vozes foi a rainha do voo do meu braço para esse tão útil botão. Quando ela começava a cantar, era como se viesse meter na minha garganta um pacote inteiro de manteiga rançosa a escorrer, insultando todo o meu interior. Se ainda se vendessem discos, era de afixar um dístico na capa destes hipotéticos exemplares à semelhança do que se faz com os maços de cigarro: ouvir isto provoca náuseas. Chama-se Anita Baker.

15/03/2021

Sermos felizes para sempre

Fui tomar café a um postigo, como é evidente, que hoje já se podia. Tomar café e comprar livros, mas começar comecei pelo café. Quando lá cheguei, pedi um ao postigo. É uma nova espécie de café. Há o curto, o cheio, o escaldado, o pingado, o com cheirinho e a italiana também há. Agora acrescenta-se o tipo ao postigo. Mas disseram-me que em princípio não podiam, que não tinham a certeza se eram um postigo. Porquê, perguntei eu toda achando que sabia. Porque nós não estamos na rua, estamos num centro comercial, disse a senhora lá de dentro do balcão. Ah, então um postigo presume-se que abre para a rua, o ar livre, suponho, emiti em voz alta. No entanto, devem ter visto o meu ar mascarado e esfomeado por um café-café e sim senhor, arriscaram dar-me um. Um que veio servido em copo descartável de papel com tampinha de plástico excentricamente furada. Um furo ovalizado ao baixo pelo qual se pode beber a iguaria. E depois disseram-me que tinha de ir para a rua. Pela primeira vez na vida fui mandada para a rua, se bem que com pouca veemência, portanto não deve contar. Ao chegar a ela, encontrei o sol inteiro para me consolar. Mas aí lembrei-me que umas centenas de passos depois podia beber o querido café em casa e sermos felizes para sempre. Fizemo-nos, então, ao caminho. Enchi-me de cuidados para não respingar nem um átomo da preciosidade através do furo excêntrico e ovalizado ao baixo. Ao cruzar a rua, escondi muito bem o copo de papel descartável com as mãos postas de certa maneira, mantendo-o longe de olhares sabe-se lá quão cobiçosos, os parvos. Era o que mais faltava, fossem lá ao postigo mais ou menos como eu fui. O café é meu. Era. Foi.

12/03/2021

Nunca percebi aquilo do google sinto-me com sorte nem quero

Hoje ainda não fui propriamente andar. Fui sim ao supermercado. No corredor dos feijões, estava uma senhora de cadeira de rodas que ela própria conduzia. Quando me viu aproximar dos tais feijões, dos encarnados e dos da variedade manteiga, dirigiu-se-me com a voz, olhe se faz favor. Para além de olhar, eu parece que sorri, mas não se pode ter a certeza. Ela pediu-me então para lhe meter no saco que levava atrás, pendurado na cadeira, um frasco de feijão encarnado e outro de feijão frade. Entalei, devagar, os frascos pedidos entre uma alface cheia de folhas (de alface) e a parede, digamos, do saco. Avisei a senhora que a situação estava a chegar ao limite da capacidade do mesmo. Ela sossegou-me informando que a seguir ia para a caixa. Enquanto acomodava os frascos, devagar tal como já disse, aproveitei para conversar um bocadinho de nada. Disse-lhe que gosto muito do feijão encarnado mas esta marca da variedade frade nunca comi. Nem esta nem várias outras, o feijão frade é o mais aborrecido no campo dos feijões, talvez seja do nome. E áspero no sabor, ainda por cima. Mas isto eu não disse, para não cansar a senhora com conversa que ela não pediu e que a mim é que apetece. Tivera o saco mais espaço e eu havia de me oferecer com veemência para nele colocar outras mercearias da sua lista. E, claro, continuar a conversa. Talvez sobre a origem do atum enlatado, a filosofia do vazio nas azeitonas descaroçadas, o bico do grão do mesmo e de conserva. Se pudesse até lhe contava da experiência matemática e surpreendente que fiz com estes grãos, mas secos. Ainda por explicar. É que estou aqui estou a pôr-me a falar com toda a gente que me passar pela frente, nem que seja na televisão. Já faltou mais para acender o meu exemplar da caixa que mudou o mundo de propósito. É que já não se aguenta o confinas.

10/03/2021

São sete os brotos contados


Mais a Sul, também se confirma o fenómeno (10.3.21). Estas atrevidas realmente! Pôem-se pela calada a deitar corpinho comprido na forma de uma haste toda feita à janela, que só muitos centímetros depois se faz notar. Por isso deitei-lhe a mão e amarrei-a preventivamente à estaca de pôr o assunto na ordem para lhe conferir ao menos certa verticalidade. Ela aceitou e está de esperanças com sete brotos bem contados.

É domingo (se fosse não era preciso dizer)

São nove e um quarto da manhã. O sino da igreja fez a sua música das nove horas enquanto o sol entrava em vagas indecentes, bem anafadas, transbordantes, dignas de uma inveja magnífica, dentro da cozinha. Aí passava eu um livro à Saminhas para ela acompanhar com o seu café e comentávamos a recente falta de uma nota no sino, o que faz a música habitual parecer um miúdo na muda dos dentes (desabitual).

Mas comecei o dia (não falando no varrer dos cacos das cinco da manhã, não digo quem foi que atirou o candelabro lindo, grande e de vidro com a vela grossa desde o cimo do piano para o chão) a ler a Cláudia R. Sampaio. Os seus poemas são como caramelos absolutos e viciantes, cerejas gordas e pretas comidas num dia de junho, num dia do princípio de junho, em jardim absorto de pássaros, cantos e flores, os poemas dela não se consegue parar de comer, ainda não se acabou um e já se quer o próximo, uma pouca vergonha e não só uma pouca vergonha, como também um domingo inteiro de sol, uma clave e um papagaio maluco tudo junto.

(quem tem gatos tem cadilhos, quem não os tem não sabe o azul e doce, o ácido e musical, o aromático e macio que é tê-los)

(também ninguém me mandou ir para a cama e não pôr o candelabro e a vela a salvo de certas situações)

(tal como já faço com várias outras peças a proteger da morte todas as noites)

(onde é que já se viu)

06/03/2021

Não é domingo

Fui ao supermercado local e não havia nem bicha à porta, nem fila. E nem gel no dispensador para as mãos de quem entra (ou sai). Comprei legumes para sopa e, destes, os agriões foram os únicos a vir em embalagem de plástico. O nabo e a curgete vieram como deus os pôs no mundo e safaram-se perfeitamente. As batatas, como se tratava da família toda, pai, mãe e vários filhos, acomodei-as num saco de rede que vai à máquina. Trouxe um iogurte para me servir de sobremesa ao jantar de sábado em pote de vidro. E já foi. Não soube muito a sobremesa, mais soube a sobremesa saudável. Tudo o que é saudável sabe ou a húmus sem sal ou a sopa fria também sem sal. Ou ainda a folha de alface lavada, não temperada. Tirando o tofu. O tofu sabe a esponja de banho antes de usar e depois de estar ao ar a perder qualquer cheiro químico que possa lá vir. Que isso, o tofu não proporciona, graças a deus. Também trouxe umas amêndoas da Páscoa revestidas de chocolate saudável. Mas desconfio que vai ser preciso meter três na boca ao mesmo tempo para saborear qualquer coisita. 

Ao anoitecer, a gata Marble estava com a vontade habitual de ir visitar o prédio por dentro (é o ir à rua de gato) e foi para perto da porta manifestar aquela inequivocamente. Para bom entendedor (entendedora, só cá estava eu) meio miado basta. Não é bem miado, é krrruuu, krrruuu. Mas meio bastou, realmente. Só que, como eu continuava a trabalhar no computador e não corri a satisfazer os desejos urgentes e felinos, ela aumentou a sua manifestação de interesses deitando abaixo da escrivaninha alta que era da minha mãe um vasinho de barro que uma das miúdas fez na escola e que hoje é o lar de uma suculenta, coitadinha. Aquilo foi um estrondo capaz de fazer sombra às obras do quinto. Claro que acudi logo aos estragos com pá e vassoura. E depois não levei o diabrete à rua.

03/03/2021

Saudades

Depois de almoçar em frente à televisão arroz de camarão com coentros e salada fazendo companhia ao jornal da uma, fui à cozinha tirar um café na máquina nova. Fiz o procedimento devagar. Mudei a água do depósito. Encaixei a base com o plano superior gradeado, depois de a lavar debaixo da torneira. Gosto de encaixar a base na máquina porque me traz a lembrança de construir com peças de LEGO. Admiro o encaixe perfeito das peças. Depois, de regresso à sala e ao sofá, a tarde já havia amadurecido um nadinha mais. Sento-me com o café servido numa chávena Vista Alegre que comprei há muito tempo para aumentar a minha duvidosa felicidade. Silencio a televisão e noto, vindo da rua, o ruído dos contentores do vidro a serem despejados. Hoje é quarta feira. Dia dos contentores do vidro. A janela está ligeiramente aberta e o cortinado branco, fininho, esvoaça um pouco. Agrada-me o ambiente, por isso fico um momento a absorvê-lo, ignorando o ruído. A seguir, respiro fundo e pego no livro da Ana Cássia Rebelo que está há vários dias em cima da mesa de apoio (pronto para receber a atenção que lhe quero dar). Releio algumas páginas que escreveu em 2007. O que será feito dela?

28/02/2021

Centro de dia

Ainda eu andava em trajos menores pela casa, já estava o senhor Valério fazendo uso da sua cópia da chave a meter o seu pai no pomarzito que nos serve de jardim para ele podar as árvores. Ele o pai. As árvores são como já se percebeu de frutos. Mas tirando a pereira que dá umas pêras e pêras, e a oliveirazinha por causa das folhas inconfundíveis, eu não sei de que frutos estamos a falar porque estas árvores não se chegam à frente no que toca a dá-los. Porém o que interessa agora é que o senhor Valério me havia prometido vir trazer o seu pai às dez e, se muitas vezes ele aparece depois da hora prometida, ou não aparece de todo, hoje optou por vir - vá-se lá saber porquê - muito antes dela. Nem bebi o café como deve ser escondida atrás da janela. Entrei apressadamente para o duche imprescindível antes de aparecer ao senhor António, pai do senhor Valério, completamente pronta.
O senhor António está bastante animado a cortar os ramos que ele considera demasiado compridos às árvores, incluindo a que está toda florida de branco e que eu adorava saber que fruto irá ela proporcionar um dia quando se decidir a isso. Para não dar assim muito má imagem, e eu supondo este meu interlocutor um conhecedor da poda, aproveitei enquanto ele tomava o café que lhe ofereci e comentei ao de leve, Nunca sei muito bem se aquela com as flores brancas é macieira ou... Não, talvez pessegueiro ou nectarineira... Nectarineira nunca eu tinha ouvido senão agora mesmo dito por mim, portanto substituí imediatamente por árvore que dá nectarinas.
- É isso, é - esclareceu o senhor António.
- Isso o quê, pêssegos ou nectarinas?... - tenho uma vaga impressão que macieira não será, que essa está mais a nascente e dá flores cor de rosa, que lá flores elas sabem dar. 
- Ou pêssegos ou nectarinas. 

Hum. Há pois que esperar que a dona árvore se decida produzir qualquer coisa que se coma para ficarmos a saber. Mas logo a seguir o senhor António colmatou a sua falta de conhecimento botânico ou agrícola.
- Um dia destes trago cá as minhas ovelhas para lhe desbastar esta erva!
- Ovelhas?... - normalmente prefiro cabras, mas ovelhas também pode ser.
- Sim tenho lá duas ovelhitas que gostam muito desta erva. Vinha cá deixá-las de manhã e buscá-las ao fim do dia.
(Tipo creche ovina. Ou centro de dia.)
- Pode vir trazê-las quando quiser, senhor António. Se vier já amanhã é preferível, porque eu ainda cá estou e sempre dou um olhinho nelas.

(E tirar-lhes muitas fotografias e guardá-las na memória, evidentemente. Já disse que não tenho facebook nem instagram. Também não tenho mbway nem bimby. Nem paciência. Mas vou ter duas ovelhas por um dia.) 

17/02/2021

iminência, Eminência

Penso que me desvio das colisões possíveis em ruas que não largas, embora flutue dentro de minutos brilhando com ciência. À beira de nós o molho de raminhos vivos mostra uma nudez na totalidade de si como pastéis quentes, inocentes. Nem assim me livro da iminência de, não um, mas todos os pássaros. No chão que segue veloz, relativamente, registo esquadrias do mesmo verde. A teimosia a deitar-nos beleza ensurdecedora, ensurdecedora, beleza... Ouvi. Ouviste?

12/02/2021

Tipo três palavras

Hoje de manhã, na reunião em ZOOM, estive de pantufas apesar do casaco de executiva em xadrez muito jeitoso. O cabelo também não foi trabalhado para se apresentar melhor (é sexta feira e isso). De repente oiço-me dizer assim “é o meu sonho” e logo a uma pessoa que tinha acabado de conhecer (no ecrã). Não deu tempo de ficar aflita porque continuei, felizmente, a falar. Notei apenas que a janela não se escandalizou, as cortinas não esvoaçaram, as rosas de tecido muito bonitas na jarra azul fumado não se indignaram. O meu tricô, que jaz praticamente na mesma, também não acusou qualquer sensação, a internet não falhou, isto é, a ordem das coisas manteve-se como se eu não tivesse pronunciado aquelas palavras, como se eu tivesse, por exemplo, dito bom dia ou tipo isso.

***

A Saminhas diz que mesmo que as pessoas como eu (velhas) se esforcem muito a introduzir “tipo” nas suas frases e até consigam (como eu) fazê-lo no local certo da frase, a coisa não sai bem.

- Ai, não? – pergunto à senhora doutora tipo Saminhas.

- Não. É que tipo vê-se logo, mãe, soa mal, fica demasiado “tipu”…

Muito interessante. Somos, é o que é, uns inaptos movimentando-nos desajeitadamente fora da habilidade especial e exclusiva de dizer “tipo” uma vez em cada tipo três palavras. Tipo como é evidente, eu tipo não concordo.

08/02/2021

Dá logo vontade de comer sopa

Na Antena 1 são a esta hora anunciadas prováveis cheias para as próximas horas, com certeza nos interstícios de um território já suficientemente cheio de outras vicissitudes por exemplo do foro da saúde. Ora no terraço tardoz do edifício onde tenho morada fiscal verificou-se já esta manhã uma dessas cheias, um exemplar portanto muito à frente apesar de tardoz. O terraço encheu-se imenso pela calada da noite, tendo apresentado à aurora e aos pombos regionais uma verdadeira piscina sem forma nenhuma de jeito. Mas piscina. Pois os pombos aproveitaram logo para umas chapinhadas na frescura matinal do tardoz (para não repetir terraço). Foram vistos a caminhar nas zonas de pé, ou pata, e banhar como poucas vezes se pôde assistir mesmo que por pessoas já entradotas, agora a sério. Tardoz é uma senhora palavra e é quase tão capaz como hortaliça. Na verdade, nenhuma palavra vence hortaliça. Nem interstícios o faz, vicissitudes ou mesmo entradotas.

04/02/2021

Aromês

Reflito com os cabelos molhados sobre as abelhas produzindo todo aquele mel que não quero ingerir. Antes observar paragens de autocarro especialmente quando estão fornecendo primaveras por cima. Ou, vá lá, o aroma a coco, todo lembrando-me as idas violetas imperiais.

Sim, que leio os rótulos debaixo da água quente com o mesmo empenho outrora produzido frente à caixa de Nestum (com aquele) e verificando claro que todas as traduções disponíveis. Podia ter avarias diferentes.

Estando pronto o duche, faço cumprir a função do rodo essencialmente de cima para baixo, enfim proporcionando o descanso querido ao contador do fluido limpo e frio, não sei se sabias, a pingar.

(contudo, o frango estufado com ervilhas chama em aromês, vem do fogão e é urgente)

31/01/2021

Ou é tudo abusos?

Agora a sério, se os frasquinhos vêm com cinco doses lá dentro, que eu já vi de relance ali na televisão, e houver, por exemplo, dezasseis pessoas na lista para vacinar num dado local de vacinação, daí o nome, de quantos frascos vamos precisar? Quatro. Mas do quarto frasco só sai uma dose. Sobram as outras quatro. Que entretanto já perderam a sua condição criogénica de setenta graus negativos, coitadinhas, uma vez que um enfermeiro de sangue quente pegou no frasquinho, ou enfermeira. Não sendo o dito um frasquinho que deite muito corpo, não lhe será difícil sentir-se confortavelmente quentinho num piscar de olhos.

E depois? O nosso enfermeiro volta a meter o frasquinho requentado dentro da mala do frio para levar as quatro doses de regresso à base? Pergunta ali em redor quem quer levar uma dosesinha de oferta já que aqui estamos? Ou encolhe os ombros e descarta aqueles quatro tesourinhos como resíduos?

23/01/2021

atraso

A poesia é de chá ou um comboio com certeza a entrar no túnel do metro.

Nunca o meu nome dará um ciclone, nem serei passageira naquele comboio. Mas sim passageira.

Pressiono botões logo após o futebol sair para o ar, devolvendo-me à pureza das flores.
(para não cegar, todas as flores são minhas, mesmo as que não nasceram)

O café esfria na chávena sempre por causa da minha mão. Ela não será maior que sobre a língua preta de um papagaio. Nada farei pela poesia de chá que se afogou ao nascer morta. Nem chorarei enquanto arranjo o cabelo.

Vejo que os filhos se escoam ávidos pelos retângulos de vidro, deitando mães orfãs ao sino da igreja que vem com um minuto de atraso.

De repente, vou arranjar o cabelo.

20/01/2021

Adoro chá mas hoje não me apetece

Continuo a beber chá, pouquíssimo, mas por interesse. Ou para dele extrair o calor diretamente para as mãos quando finalmente a chávena deixa de queimar, ou então por ter uma companhia tão irresistível à minha frente que nem noto estar a bebê-lo e não o querido café, um copo de vinho, cerveja, sumo de laranja ou mesmo de tomate. Com tanto que há para beber, o chá pobrezinho.

A verdade é que ainda assim posso ser acometida de uma raríssima vontade de beber chá por razões válidas e desconhecidas, que não por interesse. Nestes casos, ocorridos anual ou bianualmente, p'raí, aproveito muito depressa e vou a correr pôr a água toda imbuída do exclusivo da ocasião. Só que depois o próprio chá não colabora, nem com versões mais atualizadas deste, é incrível. Continua a levar meses ou, diria mais, horas a arrefecer, por muito que eu me esforce em soprá-lo, soprá-lo, soprá-lo, o que ainda por cima é feio. E claro que lá se vai a vontade, enjoada de esperar pela sua vez. Não sei como isto se resolve, o que gostava de saber é se quem bebe chá por gosto não se cansa de esperar que arrefeça, se anda já com as mucosas queimadas e nem sente ou se aproveita para ir às compras, lavar o carro e passar na farmácia que ainda dá tempo se não estiver muita fila.