a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

05/06/2024

A mãe (as mães)

O carro morreu outra vez. Completamente. Os botões nada, a chave idem, dentro ou fora. Tanta inteligência artificial, tanta encomenda da peça, tanto telefonema com menus de escolha e autorizações de gravação. Um carro quase novo. Liguei para a assistência. A assistência atendeu à terceira, depois da música de espera interminável a lembrar o barco de descer o Douro adornando com turistas: distorcida no máximo. Tomou nota da ocorrência e nos intervalos das perguntas tentei explicar que devia ser a bateria, a pequena, de doze volts, de novo. Mas a assistência não estava interessada nisso, o técnico iria ligar para combinar a visita. Perguntou se podia ajudar em mais alguma coisa. Podia, que era ouvir-me um bocadinho. Mas disse que não, agradeci. Voltei com as mãos para cima do teclado e continuei o trabalho em teleligação.
O prometido telefonema do técnico chegou. Atendi e reconheci-lhe a voz. Era o mesmo homem mal disposto que veio ressuscitar o carro da outra vez. Dessa, lembro-me que trazia uma velhinha muito magrinha com ele. Uma velhinha que se torcia sobre o corpo esquelético e não falava. Talvez fosse a mãe. Expliquei-lhe o sítio, confirmei a morada. Com jeitinho. Tentei falar da bateria, mas nem pensar. Palavras inúteis, ele é que saberia do mal do carro ao chegar (como se eu fosse burrinha atómica ou sem cérebro). Estou no meio da cidade, grunhiu, é o tempo de chegar aí. Qual cidade, perguntei, Coimbra? Claro!!, soltou o homem, e acrescentou no mesmo estilo, qual é que havia de ser!? Não lhe expliquei que este país tem outras cidades, e coisas tipo assim esquisitas.
Meia hora depois, exatamente como da primeira vez, voltou a ligar. Bufava, estava no sítio errado, de novo se havia extraviado e de novo a imbecil era eu que não expliquei ou que não arrumei melhor os lugarzinhos perdidos na serra do Portugal. Acusou-me de inexatidão (sem usar a palavra inexatidão). Comecei a repetir o nome da aldeia, mas ele não ouvia, bufava, dizia que isto é uma chatice. Mas de repente num intervalinho da má educação, ouviu. Quê?! Carvalhinhos?!, cuspiu. Para o Caralhinho é que teria sido bem enviado o senhor. Todavia não. Direcionei-o para este Carrinho. Morto. 

E desta vez nada, morto continua ele, agora só amanhã. Com reboque.

(a velhinha muito magrinha que se torcia vinha de novo com ele, a aturá-lo desde Coimbra - só pode mesmo ser a mãe)

2 comentários:

  1. Malditas assistências:) Não há como ter um técnico de proximidade...vai ver que aí na aldeia há sempre alguém de referência, é ter esse em alternativa.
    Quanto às mães...sem dúvida, só elas.
    Um abraço

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  2. este blogue anda assim com uns posts a dar muito pelo literário adentro, o que eu adoro!

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