a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

23/05/2026

Saudades de um tolinho post? A coisinha castanha

Já noite dentro serra acima, curva e mais curva como de costume, o breu interrompido pela luz dos faróis, e sai-me à esquerda uma linda coisinha castanha a correr muito, a atravessar à minha frente, a continuar a correr até se enfiar por entre a vegetação à direita e desaparecer com a sua caudinha. Mas deu para ver perfeitamente o que eu nunca tinha visto. Uma raposinha bebé.

Era só o que me faltava para completar a árdua semana em plena Lisboa de trabalho, trânsito, ruído e, mais recentemente, calor. Se os lisboetas desconfiassem disto que aqui se passa duas horas a nordeste, vinham todinhos a correr.

Às vezes tenho inveja de mim própria. 

29/04/2026

O Douro faz destas à gente

Entrei na livraria de Miranda com o intuito de adquirir um livro em Mirandês. Qualquer um, por interesse. Para me divertir com o artigo definido em L e os vês trocados por bês, com toda essa sonoridade que nos lembra amizades das boas, entre outros encantos ancestrais. 
Pois saí da livraria - saí não, pá, fugi! - com quatro livros mirandeses nos braços, a marcação para um copo com a autora de um deles e a possibilidade de um novo marido arranjado ali no próprio dia e com o selo da terra, completamente garantido. 
Só parei no seio de uma das hordas de espanhóis sem querer, tão azamboada esta pobre lisboeta ficou que quase não dava pela algaraviada em redor.

Abrimos um parêntesis para notar que em Miranda do Corvo, toda ali mais a sul, a identificação da vila vem sempre completa, nunca falhando a menção ao rio que lhe dá nome, nem que abreviado. Miranda sempre do Corvo.

Já essa outra Miranda ali de cima, essa esgrouviada desavergonhada, mãe do Mirandês e dadora de maridos assim de repente numa linda manhã de primavera, dispensa apresentações mais detalhadas, deixando o Douro de lado: é só Miranda que se lê nas tabuletas todas.
Metamo-nos à estrada, senhores, e verifiquemos o fenómeno pessoalmente, okay? 

Porém, aqui a pobre lisboeta - não tendo optado pelo marido da região de origem controlada - não se salvou de um valente enamoramento e fez-se madrinha de um burranco*. Ah pois. Escovou-lhe o pêlo na lateral, enquanto ele tentava saborear a manga do casaco de algodão cardado que esta pobre envergava contra os frescos mirandeses, já um bocado velhinho.

Suspirando em fundo, atesta-se que os encantos dourenses suplantam as doidas marotices e aligeiram as hordas espanholas. 

Difícil foi sair dali.

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*burro mirandês bebé

05/04/2026

Parece impossível

Numa rotunda de Miranda do Corvo, há uma loja de eletrodomésticos que é uma pequena superfície. Ali encaixada entre um cabeleireiro que também faz unhas e um terreno baldio. Dessa pequena superfície veio o nosso novo forno micro-ondas.

O novo forno micro-ondas tem dois botões de regulação manual. Não desodoriza. Não se liga ao wi-fi, nem traz códigos QR. Não tem relógio incorporado (nunca certo), não exige instalação de apes*. 

Mas senhores, acima de tudo, para minha enormíssima felicidade, para minha grande e diária alegria, sossego e deslumbramento, o novo forno micro-ondas não apita.

Lemos bem: ele não a-pi-ta!

Apenas e só emite a ondinha micro lá no seu âmago, destinada à absorção pela molécula de água do alimento a aquecer. 

(É que nem aspira a casa, leva os miúdos à escola ou dá aulas de francês.)

O novo forno micro-ondas de certezinha que está fora das normas, que é clandestino, ilegal, fugido à polícia.

Uma alegria, portanto, já disse. 

*ou apps, aplicações, aplicativos

02/04/2026

Sem título

Ali em baixo no pomar, a macieira fez abrir uma floração holística nos dois dias em que me desloquei à capital. Quem a viu e quem a vê. 
As parras, na pequena videira, desenrolaram-se a deitar imenso corpinho numa frescura do espetro do verde. Cá uma produtividade!
Não falando nos botões de ameixas a prometer um julho mais que suculento e, como nem tudo são rosas, na toupeira que engendrou montinhos de terra orientados a nascente desta vez.
Uma pessoa não se pode ausentar.

Comboios para lá e comboios para cá, saboreia-se leituras que emitem luz por dentro. Luísa Costa Gomes, senhores. Há talentos que nos esmagam, a nós, simples mortais.

Simples mortais estes que têm mas é de entrar ao teleserviço daqui a nadinha e deixar as belezas naturais para depois, pá. Beijos. 

26/03/2026

a escolha é tua

Tu podes atravessar ruas, 
apanhar o autocarro, 
businar ao trânsito da tarde, 
podes passear o cão, 
abrir a porta de casa, 
pagar a conta do supermercado, 
visitar os teus pais,
contar histórias aos filhos, e 
podes até dançar 
a jerusalema no shopping, 

que os números nos impressos das finanças (dentro do arquivo metálico ou fora do expediente), continuam lá. 
Como se nada fosse. 

20/03/2026

Mas não tem nada que ver

Ontem à noite chovia muito na rua, onde não se via ninguém. Tanto que os chapéus de chuva chegaram a casa tarde e encharcados.
Desci pois com eles ao terraço onde os deixei abertos debaixo do telheiro, a secar. 
Quando me voltei, os meus olhos bateram numa coisinha castanha, sensivelmente oval, a caminhar sobre a relva. Era o ouriço!! Fui a correr buscar um pratinho com comida dos gatos. Deixei-o num canto do jardim, protegido da chuva, para ajudar o bichinho na sua pós hibernação. 
De manhã, um dos chapéus de chuva abertos estava deslocado para o fim do jardim, aham, e o pratinho de comida vazio. 

10/03/2026

No rescaldo de mais um exame doido, voltamos aqui

Os azulejos decorativos à entrada da escola primária do bairro onde vivo em Lisboa têm uma horrenda combinação de cores.
É sabido que adjetivos não costumam ser bem vindos nos textos e isso, mas duvido que alguém encontre beleza nisto. 
Possivelmente, foi ali uma curteza aguda de orçamento. Vieram para a entrada da escola as corzinhas que sobravam no inventário do fornecedor mais baratinho. 
Amarelinho cueca, cinza tubo-de-escape e castanho dor-de-barriga.
Estamos, certo?
Horrenda combinação. 
Como queremos nós sociedade educar as crianças para o bom gosto, estimular-lhes a criatividade, incentivar-lhes uma ousadia de ideias, se logo à entrada da escola dá vontade de fugir muito depressa?

Mas depois chegou o meu autocarro amarelinho gema-de-ovo e a escola primária ficou para trás.

05/01/2026

Café, maçãs e sopinha

Depois da fulgurante gripe que me baixou no virar do ano, a febre tendo-se já retirado e a bigorna sobre a cabeça também, restam ainda alguns companheiros de jornada típicos. Como a falta de apetite. É que nem para café ele aparece. Café! esse meu querido amor quentinho. Mas enfim, não quero queixar-me. 
Até porque, ao consultar o encadeamento das estações para esta noite, ficaram-me os olhos presos em Chão de Maçãs - Fátima, e não foi por Fátima não senhor. Que rica peça de fruta suculenta agora eu comia lindamente. 
O jantar resumiu-se a uma sopa com ovo. Uma sopa consumida devagar, uma sopa dada a pensamentos iluminados assim: quem declara "já comi a minha sopinha", enquanto esfrega as mãos do frio e sorri para a gente, é pessoa boa. 
É pessoa que não precisa de fazer maldades para ter mais coisas, mais terras, mais sopinhas. Melhor, é pessoa que está a salvar o mundo como os justos de Jorge Luis Borges. Sim, é pessoa que está a salvar o mundo.