a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

06/07/2026

No intervalo do jogo

A mulher que (ao contrário de quase todos nós) não vai a olhar para o telemóvel, deitou-se no banco do comboio com a cabeça apoiada no braço do lugar vazio ao seu lado. Tem aberto na mão um livro de Mia Couto e ainda não o largou. "Na berma de nenhuma estrada", é o título.
Porque a posição não deve ser lá grande coisa de conforto, a somar ao chocalhar da carruagem intercidades, tanto se ajeitou melhor, tanto se ajeitou melhor, que lhe saltou do cabelo a pinça que o apanhava e que embirrava com o encosto improvisado. Um jovem passageiro que fala francês com a namorada esticou-se para apanhar o acessório do chão, que lhe entregou educadamente. Ela torceu o corpo magro para aceitar a pinça tresmalhada e continuou a incursão na tal berma de nenhuma estrada, mantendo agora o saltitante objeto na mão. 
Hoje o comboio vai muito bem. Nem um frio congelante como o de há duas semanas que me remeteu o pensamento para a arca congeladora de um talho, nem o calor sufocante da semana passada, a partir do qual cheguei a pensar que desmaiava completamente. Também não vai ninguém a ver vídeos no telefone em alto e mau som, graças a deus. Assim, perdoa-se muito melhor o atraso habitual com que fomos de novo brindados e acede-se também com mais vontade ao pedido muito conhecido para os senhores passageiros compreenderem os incómodos causados.

05/07/2026

Uma limpeza

Enquanto a manhã de domingo avançava para a canícula vigente, levou o terraço a esfrega anual, desenterrando a sujidade que escapara às voltas dos varrimentos mais brandos. Desenrolada a mangueira com a pressão no máximo, fazendo-se acompanhar das vassouras num esforço aplicadíssimo e arredadas mesas e cadeiras, deu-se a remoção completa dos restos de coleção do último outono-inverno no que a folhas secas e raminhos entranhados nos recantos diz respeito. Também as polinizações da primavera, que trouxe os grelhados de peixes vários pingados aqui e ali, foram alvo da grande operação de fundo. Só os toros de lenha remanescentes se deixaram ficar amontoados a aguardar serventia quando, por incrível que hoje pareça, o frio descer à serra e o sol de novembro for de pouca força.
Os onze dióspiros hoje em tamanho verde e ritmo de crescimento lento, estarão então da cor do fogo, plenos de promessas tão suculentas como encantadoras. 

Mas ainda julho mal começou. Aproveitemos pois o interior da casa de pedra, onde o fresco ainda se agarra às paredes muito antigas, a janela fechada deixa passar um pouco da luz da tarde e duas ou três moscas esvoaçam em círculos, num zumbir que vem do fundo dos velhos meses de verão. 

01/07/2026

Notícias jardineiras

Deitava-se a noite sobre a serra, vencendo lentamente os laivos vermelhos de céu, quando estacionei o carro debaixo da buganvília. 
Dois dias na capital e o jardim continuou a medrar, mostrando-me os progressos sob a iluminação elétrica: as maçãs começaram a cair, as peras já quase me enchem a mão, as rosas continuam a abrir. E a figueirinha que plantámos o ano passado, também não ficou a preguiçar: notoriamente mais crescidos, estão os figos. Ambos. 

Metro, poesia e francês mas não muito

No interior das carruagens do metro de Lisboa estão afixados cartazes com poemas escolhidos pelos trabalhadores. Os seus nomes aparecem junto ao nome do autor do poema.
Ora a pessoa que teve esta genial ideia devia ser escolhida para governar um país. Tipo este, que é maneirinho. 
Numa tarde a anunciar dias tórridos no horizonte, com o peso da mochila a comprimir-me os discos vertebrais para não dizer os miolos e os sapatos novos a trincarem-me os pés, saí feliz da carruagem salpicada por dentro com poesia.
Subi as escadas, passei numa das gates de saída, arrumei o cartão sem deixar cair nada ao chão imundo e dirigi-me com a recém adquirida felicidade poética ao quiosque do café, motivada por intenções indefinidas. Olhei a pequena montra e fui logo apanhada: pedi um croissant com queijo. Afinal, tinha mais de meia hora até ao comboio para Coimbra e quatro bolachas num pacotinho tristonho dentro da mala. Quando o rapaz da caixa me entregou o recibo de pagamento, deu-me para lhe dizer Merci. Então ele olhou-me a sorrir e respondeu com uma pergunta: como se diz "de nada" em francês?
Je vous en prie, respondi. 
Je vous en prie, repetiu ele. 
Fiquei imediatamente ainda mais feliz e por isso tinha de vir logo contar a vossemecês, não tinha? 

27/06/2026

Há dias assim

Por causa da promoção anunciada, o balcão do peixe do supermercado da vila beirã estava à pinha de fregueses locais. Era bacalhaus inteiros tzimmm tzimmm cortados às postas (mais largas no meio), era chicharros à grande, era sardinhas aos sacos cheios. Tinha onze números à frente e se não fosse a minha obstinação de sábado direcionada a um almoço de sardinhas desse lá por onde desse, eu tinha-me já posto a andar com a senha de vez a colapsar na mão.
Mas fiquei ali muito bem, obrigada, a observar as compras em redor e a celeridade com que afinal as duas funcionárias da peixaria despachavam os números do chamador. Noventa e uuummm!! Enquanto tentava não encostar a barriga nem nada de meu ao dito balcão piscatório e me desviava para deixar passar carrinhos de compras, estruturas de reposição com rodas empurradas por funcionários a pedir licença por todo o lado ou sacos a pingar água suspeita que passavam pendurados nas freguesas já aviadas, o meu apetite foi-se aguçando que nem doido.
Todavia, mantive-me firme e hirta nas intenções e, quando chegou a minha vez, não deixei que da minha boca saísse um número inflacionado nem nada: pedi as cinco unidades por pessoa, apesar da vontade ali crescida de levar doze só para mim. 

23/05/2026

Saudades de um tolinho post? A coisinha castanha

Já noite dentro serra acima, curva e mais curva como de costume, o breu interrompido pela luz dos faróis, e sai-me à esquerda uma linda coisinha castanha a correr muito, a atravessar à minha frente, a continuar a correr até se enfiar por entre a vegetação à direita e desaparecer com a sua caudinha. Mas deu para ver perfeitamente o que eu nunca tinha visto. Uma raposinha bebé.

Era só o que me faltava para completar a árdua semana em plena Lisboa de trabalho, trânsito, ruído e, mais recentemente, calor. Se os lisboetas desconfiassem disto que aqui se passa duas horas a nordeste, vinham todinhos a correr.

Às vezes tenho inveja de mim própria. 

29/04/2026

O Douro faz destas à gente

Entrei na livraria de Miranda com o intuito de adquirir um livro em Mirandês. Qualquer um, por interesse. Para me divertir com o artigo definido em L e os vês trocados por bês, com toda essa sonoridade que nos lembra amizades das boas, entre outros encantos ancestrais. 
Pois saí da livraria - saí não, pá, fugi! - com quatro livros mirandeses nos braços, a marcação para um copo com a autora de um deles e a possibilidade de um novo marido arranjado ali no próprio dia e com o selo da terra, completamente garantido. 
Só parei no seio de uma das hordas de espanhóis sem querer, tão azamboada esta pobre lisboeta ficou que quase não dava pela algaraviada em redor.

Abrimos um parêntesis para notar que em Miranda do Corvo, toda ali mais a sul, a identificação da vila vem sempre completa, nunca falhando a menção ao rio que lhe dá nome, nem que abreviado. Miranda sempre do Corvo.

Já essa outra Miranda ali de cima, essa esgrouviada desavergonhada, mãe do Mirandês e dadora de maridos assim de repente numa linda manhã de primavera, dispensa apresentações mais detalhadas, deixando o Douro de lado: é só Miranda que se lê nas tabuletas todas.
Metamo-nos à estrada, senhores, e verifiquemos o fenómeno pessoalmente, okay? 

Porém, aqui a pobre lisboeta - não tendo optado pelo marido da região de origem controlada - não se salvou de um valente enamoramento e fez-se madrinha de um burranco*. Ah pois. Escovou-lhe o pêlo na lateral, enquanto ele tentava saborear a manga do casaco de algodão cardado que esta pobre envergava contra os frescos mirandeses, já um bocado velhinho.

Suspirando em fundo, atesta-se que os encantos dourenses suplantam as doidas marotices e aligeiram as hordas espanholas. 

Difícil foi sair dali.

______
*burro mirandês bebé

05/04/2026

Parece impossível

Numa rotunda de Miranda do Corvo, há uma loja de eletrodomésticos que é uma pequena superfície. Ali encaixada entre um cabeleireiro que também faz unhas e um terreno baldio. Dessa pequena superfície veio o nosso novo forno micro-ondas.

O novo forno micro-ondas tem dois botões de regulação manual. Não desodoriza. Não se liga ao wi-fi, nem traz códigos QR. Não tem relógio incorporado (nunca certo), não exige instalação de apes*. 

Mas senhores, acima de tudo, para minha enormíssima felicidade, para minha grande e diária alegria, sossego e deslumbramento, o novo forno micro-ondas não apita.

Lemos bem: ele não a-pi-ta!

Apenas e só emite a ondinha micro lá no seu âmago, destinada à absorção pela molécula de água do alimento a aquecer. 

(É que nem aspira a casa, leva os miúdos à escola ou dá aulas de francês.)

O novo forno micro-ondas de certezinha que está fora das normas, que é clandestino, ilegal, fugido à polícia.

Uma alegria, portanto, já disse. 

*ou apps, aplicações, aplicativos

02/04/2026

Sem título

Ali em baixo no pomar, a macieira fez abrir uma floração holística nos dois dias em que me desloquei à capital. Quem a viu e quem a vê. 
As parras, na pequena videira, desenrolaram-se a deitar imenso corpinho numa frescura do espetro do verde. Cá uma produtividade!
Não falando nos botões de ameixas a prometer um julho mais que suculento e, como nem tudo são rosas, na toupeira que engendrou montinhos de terra orientados a nascente desta vez.
Uma pessoa não se pode ausentar.

Comboios para lá e comboios para cá, saboreia-se leituras que emitem luz por dentro. Luísa Costa Gomes, senhores. Há talentos que nos esmagam, a nós, simples mortais.

Simples mortais estes que têm mas é de entrar ao teleserviço daqui a nadinha e deixar as belezas naturais para depois, pá. Beijos. 

26/03/2026

a escolha é tua

Tu podes atravessar ruas, 
apanhar o autocarro, 
businar ao trânsito da tarde, 
podes passear o cão, 
abrir a porta de casa, 
pagar a conta do supermercado, 
visitar os teus pais,
contar histórias aos filhos, e 
podes até dançar 
a jerusalema no shopping, 

que os números nos impressos das finanças (dentro do arquivo metálico ou fora do expediente), continuam lá. 
Como se nada fosse. 

20/03/2026

Mas não tem nada que ver

Ontem à noite chovia muito na rua, onde não se via ninguém. Tanto que os chapéus de chuva chegaram a casa tarde e encharcados.
Desci pois com eles ao terraço onde os deixei abertos debaixo do telheiro, a secar. 
Quando me voltei, os meus olhos bateram numa coisinha castanha, sensivelmente oval, a caminhar sobre a relva. Era o ouriço!! Fui a correr buscar um pratinho com comida dos gatos. Deixei-o num canto do jardim, protegido da chuva, para ajudar o bichinho na sua pós hibernação. 
De manhã, um dos chapéus de chuva abertos estava deslocado para o fim do jardim, aham, e o pratinho de comida vazio. 

10/03/2026

No rescaldo de mais um exame doido, voltamos aqui

Os azulejos decorativos à entrada da escola primária do bairro onde vivo em Lisboa têm uma horrenda combinação de cores.
É sabido que adjetivos não costumam ser bem vindos nos textos e isso, mas duvido que alguém encontre beleza nisto. 
Possivelmente, foi ali uma curteza aguda de orçamento. Vieram para a entrada da escola as corzinhas que sobravam no inventário do fornecedor mais baratinho. 
Amarelinho cueca, cinza tubo-de-escape e castanho dor-de-barriga.
Estamos, certo?
Horrenda combinação. 
Como queremos nós sociedade educar as crianças para o bom gosto, estimular-lhes a criatividade, incentivar-lhes uma ousadia de ideias, se logo à entrada da escola dá vontade de fugir muito depressa?

Mas depois chegou o meu autocarro amarelinho gema-de-ovo e a escola primária ficou para trás.

05/01/2026

Café, maçãs e sopinha

Depois da fulgurante gripe que me baixou no virar do ano, a febre tendo-se já retirado e a bigorna sobre a cabeça também, restam ainda alguns companheiros de jornada típicos. Como a falta de apetite. É que nem para café ele aparece. Café! esse meu querido amor quentinho. Mas enfim, não quero queixar-me. 
Até porque, ao consultar o encadeamento das estações para esta noite, ficaram-me os olhos presos em Chão de Maçãs - Fátima, e não foi por Fátima não senhor. Que rica peça de fruta suculenta agora eu comia lindamente. 
O jantar resumiu-se a uma sopa com ovo. Uma sopa consumida devagar, uma sopa dada a pensamentos iluminados assim: quem declara "já comi a minha sopinha", enquanto esfrega as mãos do frio e sorri para a gente, é pessoa boa. 
É pessoa que não precisa de fazer maldades para ter mais coisas, mais terras, mais sopinhas. Melhor, é pessoa que está a salvar o mundo como os justos de Jorge Luis Borges. Sim, é pessoa que está a salvar o mundo.