Li o texto “As hienas” da Clara Pinto Correia acabadinho de ser publicado no Página Um e percebi ainda melhor que sou uma rainha da felicidade. Então levantei-me e fui abrir a porta à Marble que já estava a pedir para ir à rua (de gato) há imenso tempo e para isso tinha deitado ao chão cinco envelopes que aguardam a chegada de vontade de os abrir e qualquer coisa na casa de banho que não se partiu porque já não há lá nada que se parta. Lavei os dentes, preparei o quarto para me receber no sono e na insónia e depois de todo esse tempo fui, em trajos desadequados e inéditos, buscar sua excelência a gata ao menos dois. Vinha satisfeita certamente com algumas aranhas minúsculas na barriga ou nem quero pensar de que menu alternativo ela se teria servido, a verdade é que veio logo ter comigo de cauda no ar, pronta para voltar para casa. Subi as escadas com a donzela ao colo, as duas contentes, pois, eu incluída. Quais regras, pá. Agora só peço é um aspeto: dormir a noite inteira até ser de manhã. Por exemplo para variar um bocado.
a voz à solta
29/10/2022
15/10/2022
Leituras tão boas
Às sete da manhã ainda se ouvia uma coruja ou uma ave do estilo coruja, das que só piam à noite. Para começar. Depois, quando finalmente larguei a leitura do meu novo jornal, achado por causa do banho de Clara Pinto Correia que estou deliberadamente a tomar, o Página Um, e me levantei para ir dizer bom dia à serra, vi que estávamos acima da nuvem encaixada no vale. É sempre tão lindo que quase me dói olhar. Fica praticamente difícil respirar normalmente. Mas talvez eu seja um bocado deslumbrada.
Fui
caminhar pela estrada de terra entre eucaliptos e alguma vegetação
autóctone sobrevivente das indústrias, quando a nuvem estava a levantar-se dali.
Subia depressinha e em minutos já me estava a envolver bastante. Tirei algumas
fotografias ao espaço em torno com a neblina e raios de sol a cortá-la, tendo
por companhia a berma silvestre com o solo revolvido às covas mal feitonas, género
às três pancadas, sabe-se lá por que bicho mas eu desconfio. Ronc.
Entre
isso e aquilo, ouvi a Inês Lourenço n’O poema ensina a cair dizer um poema da Sophia que
até nem achei aborrecido. Admito. A Inês Lourenço tem um adorável sotaque do
norte e talvez tenha sido daí. Deu-me até vontade de ir outra vez ao Porto inserir-me nas suas ruas e
descobrir se já está mais calminho, com algumas das obras prontas e tipo isso. Deu deu.
25/09/2022
As flores eram muitas muitas
Ontem dancei como não dançava há onze anos, dois meses e um dia.
(este é um post de um género específico)
21/09/2022
Mas pavões bebés entre os livros, isso sim
Ainda me zumbe nos ouvidos a gritaria que foi ir à Feira do Livro na cidade do Porto. Uma pessoa vai ingénua fazer fé na estação de São Bento para entrada, mas qual quê. Nem toda a beleza dos azulejos, dos ferros trabalhados e das outras obras de arte para as quais logo nos faltam os olhos cansados, que encimam as cabeças de hordas de turistas com telemóveis ao alto, nos safa. Saímos da estação para respirar e somos atropelados pela orquestra de motas a serpentear por entre os carros furiosos que por sua vez se desviam de prédios em obras e mais prédios em obras. Ao menos ficamos a saber em que altos ruídos opressores se inspiram os tais DJ de topos de telhado ou lá o que é aquilo.
18/09/2022
Uvas morangueiras
De manhã li dois contos da Clara Pinto Correia, numa edição antiga da Relógio d’Água comprada na Feira do Livro do Porto por cinco euros. Cada vez leio mais silêncios destes. Não são silêncios absolutos, são suspiros, outras vezes sussurros, ou então apenas um monólogo numa voz que não pretende chegar a nenhum lado e por isso não leva urgência, antes traz macieza.
Depois peguei a rua empedrada e fui andar até ao fim da estrada de terra batida, atravessada aqui e ali por pegadas das corças e, ao comprido, riscada pelas marcas da carrinha do padeiro. A estrada sobe, ladeada de altíssimos eucaliptos, até à nacional, onde termina. Aí, dou a volta e desço de novo à aldeia. Junto a uma das casas abandonadas à entropia, cuja fachada foi erguida rente ao empedrado, resiste um punhado de hortênsias com as pequenas pétalas muito doentes, claramente tentando não morrer de tristeza. Não peguei no trabalho. Estendi a roupa ao sol, no terraço, e cortei alguns cachos de uvas morangueiras para levar à minha irmã, juntamente com os bolos que irei comprar ao padeiro quando ele passar mais tarde, por ser sábado.

