a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

12/04/2015

Carapaus, douradas, pargos, robalos e o das postas

Entrei perfeitamente na zona de desconforto que se estende em frente ao balcão do peixe, com a senha de vez na mão, cinco números e uma grande família de carapaus à minha frente (com os quais ensaio uma conversa, são tão feios os carapaus).

Arrumadas como peças de dominó depois da queda global induzida pela primeira estão as douradas, cada uma esconde uma fatia das costas da vizinha, mas deixa-lhe o olho vítreo à vista. Ao princípio achei graça, isto é quase arte, pode dizer-se que é quase arte, mesmo com a senha na mão e os cinco números que me separam da mordida no meu anzol.

O senhor que está a ser atendido era capaz de poder ser meu pai à vontade e pede à menina que lhe ponha uma dourada em cada saco se faz favor, tudo assim muito devagar e já no momento em que ela lhe estendia os sacos com o aviamento feito. Mas estou a ficar com um frio impaciente e vejo que tenho os pés dentro de uma poça de água suspeita que pinga do gelo do balcão, olha para isto. Desvio-me na lateral, alinhando-me agora com os pargos que até são muito mais interessantes que os carapaus. Sou capaz de considerar isto um upgrade. Para me entreter mais um pedaço, enquanto as douradas do freguês consumam o divórcio, olho o número da minha vez na senha azul, não vá eu ter visto mal, vi bem. Continuas o mesmo, não mudaste nada ó número (eu às vezes parece que espero milagres).

- Quer que ponha também este em sacos separados? – a menina ergue o outro saco com postas de peixe cuja linhagem não identifico e eu ai não. Isso não. Num virar de cabeça fulminante, golpada rápida, ameaçadora, fito o senhor das douradas numa intenção absoluta de o intimidar com os meus olhos em estado semicerrado e ele perceber que gente da minha idade tem pouco tempo para nha nha nha, principalmente quando não se consegue entreter mais com os pargos e deixou todos os livros em casa, todos.

- Sim, se faz favor, já agora – tom delico-doce, baço, o do já agora, já agora???, mas para que quer ele este favor se não o quer muito e separar aquelas postas todas demora um tempão, what if you get a life, sir?

Mas eu tenho uma queda por gente mais velha e hoje é sábado, essa é que é a verdade, de maneira que encaixei a impaciência num suspiro potente, poeticamente capaz de fazer acordar toda a peixada e comecei a ponderar se não seria excelente ideia dar à Teresa, ao jantar, outra coisa que não robalo fresco no forno.

Vou portanto a voltar-me, adeus robalos, quando a menina de repente, pressionando um botão que faz ouvir-se um tilim igual ao da repartição das finanças, dezoito, dezanove, vinte, tudo de seguida, afinal os fregueses intermédios tinham ido ao pão, ou à fruta, vinte e um, os que aqui estão devem ter chegado durante as conversas com os carapaus, vinte e dois, sou eu.


Sou eu e vou continuar a esperar milagres, pois vou.

11/04/2015

Dissertação minúscula mas bestial

Encostada às lombadas dos livros que em pilha e muito quietinhos comigo dormem, está uma fotografia da avó Irene. É uma fotografia pequenina, a preto e branco, e mostra um rosto que não sorri. Vela-me o sono, apazigua-me as ansiedades que, em várias cores pontiagudas, me ferem a respiração enquanto estão as insónias a cavalgar-me por cima das horas, mais e mais, uma pena serem insónias.

No verso da capa do único cêdê que tenho da Edith Piaf está, em letras pequeninas, o resumo da sua história de vida. Uma história demasiado triste para ter pertencido a uma pessoa só. A Edith Piaf nunca veio a saber, mas a minha avó Amália gostava muito dela. Mandava-nos calar, meninas estejam sossegadas, porque detestava o barulho que as nossas correrias da casa de férias faziam, precisamente quando ela queria ouvir a Edith Piaf, meninas, é a Edith Piaf! La vie en Rose para nós naquele tempo, nós é que não sabíamos, corríamos dali para fora, que seca, avó, isso é francês?!

A avó Irene estava sempre em casa e usava casacos de lã com bolsos onde guardava um lencinho, ela é que dizia lencinho; era a sua companhia, punha a mão no bolso e apertava o lencinho sem ninguém ver, se calhava alguma coisa lhe ensombrar o dia. Quando estiveres na cadeira do dentista, dizia-me, e se tiveres um lencinho, aperta-o com força para não te doer (como me esquecia do lencinho, experimentei apertar uma mão com a outra mas doeu sempre). Tricotei-lhe dois casacos no fim do tempo dela, primeiro um cinzento e depois um verde escuro, ambos a abotoar à frente e sem me esquecer dos bolsos para os apertos secretos ao lencinho. Usava-os sempre, excepto no verão, que foi só um.

A avó Amália sabia tudo sobre como se deve estar à mesa, nunca se põe a faca na boca e sorver a sopa é completamente proibido, nem que tenham de queimar a língua. Com o guardanapo faz-se assim assim, só nos cantos da boca e ao redor dos lábios, sem esfregar, para não esborratar o batom, mas nós não usávamos batom e queríamos sair da mesa para ir fazer corridas de bicicleta. Era isto a todas as refeições das férias e nós, ó avó que seca. Tocava piano com os seus dedos longos e as unhas sempre pintadas de vermelho, tinha mãos bonitas. Na mala trazia um espelho pequenino, um batom a condizer com as unhas e um pacotinho de Chiclets amarelo, que durava uns seis meses quando escapava aos nossos ataques. Mandava-nos ler os livros da Pearl Buck e caminhar com as costas direitas como se tivéssemos engolido uma vassoura, mas eu lia os da Agatha Christie e ela dizia está bem, filha. Usava echarpes para tapar o pescoço porque uma mulher mostra a idade é no pescoço e ela não queria ser velha.

Depois desta dissertação minúscula mas bestial sobre as avós que tive, e que me deixou ligeiramente lacrimosa devido às saudades que não se matam, eu na verdade sou elas e precisava de lhes dizer isto, estava na hora de ir dançar como nunca. Parece que hoje era dia. Se não era e eu percebi mal, paciência, mas que dancei, dancei.


Quando a seguir trouxe para casa o corpo suado e dorido, fui directa ao duche sem tirar o sorriso da alma que ao dançar apanhei. Depois programei a máquina da roupa para lavar na tarifa de vazio enquanto durmo e a da loiça a mesma coisa e quase me esquecia de comer.

(tal como me esqueci de ler os livros da Pearl Buck, mas já me vou lembrando de olhar para o meu pescoço)

06/04/2015

Anúncio de televisão

Vou a conduzir pela auto-estrada de janelas fechadas ao sol neste domingo de páscoa quando de repente percebo, com tremores no pescoço, que me sinto um iogurte.

- Sinto-me um iogurte.

Dos de beber e de morango. O vento frio, embalado em vácuo talvez não, mas rico em bactérias provenientes de todo um espectro, lufadas potentes de ar muito fresco, condicionado, é-me hostil.

(escrevi este post ontem mas não o consegui fazer passar no crivo)

Mesmo que fosse uma garrafa de vinho branco por abrir, pedindo gambas cozidas à mesa, não melhorava imenso a situação refrigerada em que me encontro. 

Perguntei-me porquê um iogurte.

- Porquê um iogurte?

(portanto regressei para dar uns safanões ao post, depois dar-lhe colo)

E sou atingida em cheio, uma vez mais, pelas palavras lidas como se fossem fáceis, uma flor de cultura resistente, talhada para sair assim, previsível, calibrada, pronta para um enjarramento de muitos dias sem espinhas. Mas não. Ficaram-me às voltas, as palavras, a quererem meter-se na minha vida, a rirem-se de mim, toma toma, querem enfiar a ideia que trazem num canto meu, de aprendizagens fáceis, algodãozinho tão doce, impossível. Estas palavras que colhi silvestres não se aconchegam em jarras, vivem no campo de rosas com espinhos, estão aqui, na morada que se lê a seguir:

 “Quem não tem dentro de si alguma tristeza e solidão não é gente. É personagem de anúncio de televisão.” (in Ana de Amsterdam, Ana Cássia Rebelo, Quetzal, pág. 128)

Depois suspirei, desejei arrumar depressa isto, é medo. Medo de caber num anúncio de televisão. Perder espessura ou abandonar a existência, coisa assim muito feia. Desliguei o ar condicionado.

Retomei o meu calor devagar, ao sol deste domingo de páscoa, e voltei a sentir a solidão. E com ela, embrulhado no brilho da tarde, um pedacito de tristeza. Ufa.

(o post passou, apesar do enjarramento ali de cima, passou; agora vai ser feliz para sempre)

02/04/2015

Café, torradas e limonada sem açúcar

A cozinha do meu apartamento tem muito sol de manhã. Também tem uma torradeira, duas máquinas de café e laranjas para espremer a brilhar no cesto (à tarde, quando o sol vai para o outro lado entrar pelas janelas da sala e deitar-se no chão de madeira a bater uma sesta, ficam as laranjas baças na cozinha). É por isso que me atraso quase sempre para sair para o trabalho, tenho um fraquinho muito forte por sol e por cozinhas a cheirar a café e torradas.

De forma que puxei por mim a ver se conseguia convencer cinco minutos a enfiarem-se num e ia sair da cozinha com um livro debaixo do braço, o tablet numa das mãos e uma caneca de café com leite na outra, mas para abrir a porta precisei da mão do tablet que não foi bem recebido pela da caneca de leite e, em desequilíbrio, escorrega e cai ao chão, o livro aperto-o em segurança debaixo do braço e a caneca de cerâmica que tem três bananas pintadas dá uma gargalhada ao ver-me no solavanco de tentar num volteio rápido apanhar o tablet no ar e cospe um gole do leite que eu ia beber pelo corredor fora enquanto tratava de me despachar.

Quando a festa acaba, temos leitinho com café refastelado na superfície do tablet, que está a mostrar uma tripinha electrónica a toda a sua largura, temos leite a escorrer na porta ainda fechada e no armário do lado direito, à mesma velocidade vertical, e ainda uma porção impressa no chão em salpicos bem distribuídos, orientados a sul, situados nos arredores dos meus pés, e temos cinco minutos feitos em quinze.

Isto é capaz de ser o resultado de eu me ter recusado três vezes a receber de prenda uma bimby que, segundo a minha colega Carla, é o sonho de toda a dona de casa (bimby é uma máquina que faz tudo para a sua refeição, desde a limonada sem açúcar de morangos do Oregon, à feijoada de búzios apanhados com pinça de ouro das rochas da costa galega, fica a nota perfeitamente informativa).

Portanto, não sou dona de casa. Nem a minha cozinha tem uma porta fácil de abrir com o pé. Por enquanto.

Julho ao sol, agosto inteirinho e ainda o setembro

Comprei uns óculos de ver ao perto um bocado cedo demais. Não tanto que as lojas ainda estivessem fechadas àquela hora, muita piada, mas trata-se da teimosia que a minha acuidade visual detém em se aguentar pela idade fora, não obstante eu fizesse muita questão de pôr os óculos de giros que são. Por conseguinte uso-os muito dentro da mala.

Descansam todo o dia a escassos centímetros do telefone móvel que de repente anuncia uma mensagem a chegar. Deixa ver, sessenta cêntimos por quilograma de borrego nacional não é mau e é o que pode poupar quem comprar quilos de borrego nacional. Acho graça a isto principalmente porque a mensagem deve estar muita gente a ler ao mesmo tempo que eu, orquestrações magníficas se as pudéssemos ver por esse país fora, mas opto por poupar o borrego inteiro e mantenho os óculos na mala.

É porque hoje foi verão à hora a que saí do trabalho, que este post vai derrapar e o borrego ficar descansado. Vinte e nove graus a cair para o fim da tarde catapultaram-me para as férias na casa da praia, nas quais a minha legião de irmãs e eu inventávamos mergulhos o mais possível em voo picado, diferentes e em estilo próprio, de preferência mortais, arte em movimento para dentro da piscina nos momentos em que a nossa mãe virava as costas para ir ver do almoço ou coisa assim, ai filhas do muro é que não, havia um muro e uma de nós preferia-o à prancha de saltos que estava ali para isso.

Portanto a derrapagem vai parar em postar aqui uma fotografia tão antiga que já não vale,  tempos vigorosos em que fazíamos daquilo todo o julho ao sol, sobrávamos para o agosto inteirinho e ainda inaugurávamos o setembro até ao meu aniversário, coisa para festa de garagem a fechar um círculo sem quadraturas nenhumas.


Tiro, finalmente, os óculos da mala e dirijo-me à estante dos álbuns fotográficos que se mantêm fechados na prateleira enquanto passam os anos depressa. Pego no de lombada azul escura, abro-o e encontro-a. Julho de mil novecentos e oitenta e quatro, tem a data por trás. 

Os saltos mortais não eram meus, nem os que vinham do muro, mas quem me vê ali pendurada no ar há tantos natais na prateleira acredita que sim, acho eu com os óculos postos e muitas saudades.