a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

08/05/2015

Outra vez o café, chocolate não e a lotaria oxalá

Faltam duas horas e catorze minutos para as seis e um quarto virado a sul, muito sol, duas boas assoalhadas, ai não era isto, perdão, divergi. É de ser sexta feira, ié, evidentemente. Não sei escrever ié, mas o som, ao ler, está certo.

Levanto-me para obedecer ao desejo e ir à máquina do café buscar um. A dona Esmeralda anda a limpar as mesas da famosa cantina e não está a cantar.

- Então, dona Esmeralda? Hoje não canta?

- Não, filha. É sexta feira – e ri-se porque sabe que a razão não é essa mas acredito que não saiba que razão é.

Em primeiro lugar, sempre que uma pessoa mais velha me trata por filha, abre-se uma porta no meu coração mole e eu não me importo.

- É sexta feira, ié – imagine-se aqui em redor das letras uma clave de sol muito bem feitinha e uma colcheia, uma semicolcheia, um arranjo de notas musicais que nos catapulte para a conhecida música rap, ié.

Ando empenhada num novo projecto de blogue que é continuar este mas com posts menos enormes de vez em quando. Para não ficar toda a noite a escrever e assim cuidar melhor da minha pele.

- Sabe aquela música “é sexta feira, ié”, sabe, dona Esmeralda? – eu torno à carga enquanto a máquina do café treme imenso ao expelir com esforço o fio espumoso e aromático fazendo um barulhão que me obriga a gritar.

- Sei, filha – esclarece, enquanto dobra em oito o pano molhado que tem na mão – sei até muito bem, eu tenho esse disco.

De qualquer maneira, o empreendimento não se torna simples de concretizar, uma vez que se  pudesse eu escrevia durante todo o dia até me fartar, e penso que não me fartava nem aí.

- Bem, não é um disco – a dona Esmeralda, com o pano muito bem dobrado a viajar agarrado ao corrimão paralelo ao balcão das sobremesas, a esta hora já vazio, continua – é o canal da meo. É um canal de música e eu ao sábado, enquanto limpo a casa, ponho naquele canal que começa sempre com o Tony Carreira. Gosto muito de música.

Sorri abertamente na palavra música detendo-se quieta com a limpeza por dois segundos, e mostra-me a falta dos dentes que lhe conheço há anos.

O meu café está pronto e eu regresso ao trabalho com a chávena fumegante na mão e a memória das suas palavras de um dia já longínquo, quando alguém lhe perguntou o que faria se ganhasse a lotaria.

- Mandava pôr os dentes que me faltam, filha.
  


E agora vou imitar os blogues simpáticos e desejar um bom fim de semana e ainda deixar uma canção que me faz sorrir a mim, que tenho a sorte de ter os dentes praticamente todos.


06/05/2015

Camelo amarelo de plástico

Devido à ingestão que fiz, ao almoço, de cebola crua picada polvilhada de salsa nos mesmos preparos em cama de grão misturado com atum aos fiapos e ovo cozido disposto em moléculas apartadas umas das outras, mal disposto o ovo, nada ali está inteiro se não se olhar ao grão, creio precisar de ajuda localizada.

Cumpro. Aprovisiono um rebuçado de mentol descascado, potente, branco translúcido, e levo-o, confiante, à boca.

Enquanto o efeito se decide, oiço Beethoven durante dezasseis minutos seguidos e leio pela centésima vez esta semana a inscrição "I love Qatar" que o camelo pequenino, de plástico amarelo, bochechudo (e bochechudo não é fácil de pronunciar com este rebuçado às voltas em emissões gasosas ardentes), tem em exibição permanente em cima da minha secretária.

(a segunda parte do post, a que falta aqui, diluiu-se nos vapores potentes já mencionados, de maneira que o resto da tarde fiquei calada a respirar só pelo nariz, não fosse o camelo amarelo de plástico derreter nos eventuais calores remanescentes e eu gosto muito dele, por acaso gosto)

05/05/2015

Post finalmente pequenino

Portanto é de aproveitar, leve três pague dois. Ai não é.

É, isso sim, o chocolate do post anterior, não demora nada.


Em vez da moeda de dois euros que estava muito suja e pouco fotogénica, está a minha mão para ajudar a estabelecer a ideia do tamanho. Pequenino.

04/05/2015

Cereais muito magros e cheios de fibra

Vai a tarde de trabalho a meio e dou conta de que estou mergulhada numa vontade indomável de comer chocolate, isso e sair para a rua em maio, numa proporção de um para um. Contamos dois zero, por conseguinte levanto-me à minha vontade.

Não levo o carro, uma vez que em dez minutos pequenos (do holandês kleine tien minutentjes ou coisa assim, gosto muito de traduções), em dez minutos pequenos, portanto, chego ao supermercado mais próximo, do outro lado da avenida, todo remodelado, vou a pé, planos ecológicos e saudáveis próprios da minha pessoa, quem me dera não ter medo de ser atropelada por doidos ao volante, caso em que traria a bicicleta todos os dias comigo ao colo.

Atravesso o pátio e olho o meu carro de lado, ficas aí, endireito as costas como manda a professora de dança sempre que olha para mim, e sigo pelo túnel que dá acesso à avenida, um túnel de vento, daqueles bons para testar tubos de pitot, que são uns tubos muito adequados para os aviões, viajam espetados do lado de fora do avião, a medir a velocidade com olhos atentos, um frio dos diabos, é o que é. Adiante.

Isso queria eu, mas do lado de lá do túnel o vento está mesmo desalmado e o meu casaco ficou dentro do gabinete, afinal isto é novembro ou é o maio que se zangou, ó maio olha aí. Abrando o passo e tomo a decisão que me leva de volta precisamente ao meu veículo estacionado e entro no habitáculo protegido e fecho a porta e arrumo o cabelo devolvendo-o ao sítio e estremeço e ponho o cinto e a ordem pode não ter sido esta.

Dois também pequenos minutos depois, estou a estacionar frente ao edifício todo remodelado da grande superfície onde um dia tive um problema solúvel em revolta resignada com uma família de ciganos gordos, digo gordíssimos, e oleosos, sujos, todos os extras incluídos, até posso dizer asquerosos, não adoro ciganos que me oferecem tareias no supermercado, e noto então que já chove como na rua, portanto a minha decisão de poluir a atmosfera para fazer duzentos metros cobre-se de razão e trago seis chocolates mas cinco são pequenos, aliás pequeníssimos, uma embalagem de caramelos com capacidade para fazer crescer água na boca, em qualquer uma, de não se poder parar de comer, nem de esticar este parágrafo, ai jesus, outra de lencinhos húmidos para o rosto do seu bebé, testados dermatologicamente, nunca se sabe, e por fim a cereja no topo do bolo que se traduz num pacote verdadeiramente promissor de cereais do tipo muito magros e cheios de fibra, vulgo muesli, isto para compor a minha imagem, não vá a televisão andar por aí a fazer reportagens sobre os hábitos saudáveis dos portugueses em maio e agora sim, podemos respirar.

(quinze minutos depois...)

-         Dona Esmeralda, deu-me lulas com arroz ao almoço, eu dou-lhe um chocolate, tem aqui, para o caminho – o meu sorriso revela, estou certa, a simpatia que não posso negar nutrir por esta mulher trabalhadora que se levanta às cinco da manhã para apanhar o barco e canta coisas desconhecidas mas muito bem entoadas a meio da tarde enquanto varre o chão da cantina.

-          Tão pequenino?!

Post atrasado do dia da mãe

Hoje o post não é meu. Ou melhor, é. Deu-mo a minha filha mais velha.


"Estou eu sentada no sofá, a passear pelo feed de notícias da minha conta de facebook. Hoje tenho uma quantidade assustadora de senhoras anafadas e sorridentes com os seus filhos no meu feed, é dia da mãe.
 Os rebentos, que neste caso fazem parte dos 427 amigos que compõem o meu facebook, elaboram descrições para os tais retratos, competindo entre eles e descrevendo as demais qualidades da progenitora em questão. Clico em “gosto” numa foto em que reconheço a senhora anafada.
Continuo o scroll e deparo-me com um tipo diferente de post- um rapaz que se revoltou com a quantidade de afeto demonstrado no seu feed; talvez as mães dos seus amigos não sejam só anafadas, talvez tenham também verrugas e bigodinho. Escreve ele – “Dia da mãe? Não vai ser com fotos no facebook que lhe dão o devido valor lol. Eu cá acordei às 17h fui ter com a minha mãe e pedi-lhe para me fazer o almoço, depois dei-lhe um beijinho e disse “quem tem mãe, tem almoço”".
Eu cá concordo com ele, também não vou postar uma fotografia da minha mãe. E porquê? Primeiro, porque me recuso a partilhá-la com os 427 facebokianos que têm acesso ao meu perfil e segundo, porque, tendo eu uma mãe de extrema elegância para exibir, poderia ferir susceptibilidades.
Mas, o problema com que me deparo, é que nunca peço, principalmente às cinco da tarde, para me prepararem o almoço. E, mesmo na hipotética possibilidade de tal acontecer, a minha mãe será a última pessoa à qual irei recorrer com tal pedido - à minha irmã talvez, ao meu pai até, se estiver bem disposto, mas nunca!, nunca à minha mãe. E se não estiver mais ninguém em casa? E se nem tiveres restos para comer? Perguntariam os meus amigos, ou mesmo o já referido facebokiano. Nesse caso, meus caros, quando a preguiça é tanta e não há restos, mais vale voltar para a cama e fingir que a fome não existe. O almoço foi à uma.
Embora não me prepare refeições fora de horas, eu gosto muito da minha mãe e gosto especialmente de lhe dar prendas. Não quer dizer que ela goste muito de as receber, mas eu gosto de as dar. E, apesar de o fazer com gosto, admito que quando era mais pequena, dar prendas do dia da mãe era extremamente fácil e absurdamente mais económico. Passo a explicar: até aos 10 anos todas as crianças são privilegiadas com o fornecimento de ideias e até de material, para a produção em massa das prendas para o dia da mãe: ora um colar de papel colorido, ora uma moldura com conchas, ora um marcador de livro. Tudo isto com a atenta supervisão dos professores, não vá o menino sujar-se! Em caso de verdadeiras dificuldades na realização dos trabalhos manuais, o meu portanto, os professores também intervêm, perguntando só as cores que a mãe do menino prefere.
Eu quando tinha 6 anos tentei diversificar: fiz-lhe uma salada, acordei cedo e, para o pequeno almoço a minha querida mãe teria uma salada, uma salada, porque ela gosta mesmo de salada! Achei que iria gostar. Aprendi então, que as saladas não fazem parte do pequeno almoço, de acordo com a nossa dieta mediterrânea e que tinha que descascar as cenouras antes de as ralar para a saladeira e de lavar a alface e de cortar os tomates em pedacinhos... Depois dessa manhã decidi que as prendas feitas na escola eram perfeitas e que a minha mãe as iria receber, todas!
Mas, um filho cresce e fica sem professores dispostos a ajudar, sim!, que eu bem que perguntei à minha de biologia, mas ela deu uma forte gargalhada na minha cara e nem me respondeu! Fiquei portanto sem saber o que dar à mãe e, já há alguns anos que ela diz que não quer prendas, que já tem tudo. E agora?! O que dá uma filha quase maior e sem dinheiro a uma mãe que diz que não quer prendas e que já tem tudo?! Beijinhos e muitos miminhos? Isso já lhe dei eu a minha vida toda! Torna-se um pouco repetitivo...

Decidi, então, arrumar o armário da casa de banho, lavar a loiça e fazer a cama, deixando o meu quarto no exacto limiar de desarrumação que ambas definimos. Pode ser que ela goste."