Faltam duas horas e catorze minutos para as seis e um quarto virado a sul, muito sol, duas boas assoalhadas,
ai não era isto, perdão, divergi. É de ser sexta feira, ié, evidentemente. Não sei escrever ié, mas o
som, ao ler, está certo.
Levanto-me para obedecer
ao desejo e ir à máquina do café buscar um. A dona Esmeralda anda a limpar as
mesas da famosa cantina e não está a cantar.
- Então, dona
Esmeralda? Hoje não canta?
- Não, filha. É
sexta feira – e ri-se porque sabe que a razão não é essa mas acredito que não
saiba que razão é.
Em primeiro lugar, sempre
que uma pessoa mais velha me trata por filha, abre-se uma porta no meu coração
mole e eu não me importo.
- É sexta
feira, ié – imagine-se aqui em redor das letras uma clave de sol muito bem
feitinha e uma colcheia, uma semicolcheia, um arranjo de notas musicais que nos
catapulte para a conhecida música rap, ié.
Ando empenhada num novo
projecto de blogue que é continuar este mas com posts menos enormes de vez em
quando. Para não ficar toda a noite a escrever e assim cuidar melhor da minha
pele.
- Sabe aquela
música “é sexta feira, ié”, sabe, dona Esmeralda? – eu torno à carga enquanto a
máquina do café treme imenso ao expelir com esforço o fio espumoso e aromático
fazendo um barulhão que me obriga a gritar.
- Sei, filha –
esclarece, enquanto dobra em oito o pano molhado que tem na mão – sei até muito
bem, eu tenho esse disco.
De qualquer maneira, o
empreendimento não se torna simples de concretizar, uma vez que se pudesse eu escrevia durante todo o dia até me
fartar, e penso que não me fartava nem aí.
- Bem, não é um
disco – a dona Esmeralda, com o pano muito bem dobrado a viajar agarrado ao corrimão paralelo ao balcão das sobremesas, a esta hora já vazio, continua – é
o canal da meo. É um canal de música e eu ao sábado, enquanto limpo a casa,
ponho naquele canal que começa sempre com o Tony Carreira. Gosto muito de
música.
Sorri abertamente na palavra música detendo-se quieta com a limpeza por
dois segundos, e mostra-me a falta dos dentes que lhe conheço há anos.
O meu café está pronto e eu regresso ao trabalho com a chávena fumegante na
mão e a memória das suas palavras de um dia já longínquo, quando alguém lhe
perguntou o que faria se ganhasse a lotaria.
- Mandava pôr os dentes que me faltam, filha.
E agora vou imitar os
blogues simpáticos e desejar um bom fim de semana e ainda deixar uma
canção que me faz sorrir a mim, que tenho a sorte de ter os dentes praticamente
todos.
