a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

06/11/2019

Muito obrigada a todos

Eu gosto deste blogue, muito. A palavra “deste” não tem link, o blogue referido é o presente, mesmo. Ou é mesmo um presente. É que passados tantos anos disto, ter sempre, mas é que sempre, pessoas boas a lê-lo e a comentá-lo é muito bom e é balsâmico.
Muito obrigada a todos e todas pela presença e pela generosidade, por deixarem aqui as vossas palavras e/ou o vosso tempo (parece que me estou a despedir, mas não estou, é um agradecimento sem calendário, sem ser o fim, o Natal ou um aniversário). Por mim, era começar a servir chá e café, biscoitos e fatias de bolo a toda a gente que vem e se senta um pouco, relaxa, e aqui se entrega, mais ou menos, nem que seja pelos minutos de ler. Se isto fosse um lugar físico, seria assim o presente blogue. Sofás e cadeiras, bancos, almofadas coloridas, velas e música de fundo, por exemplo também livros. Toda a gente a conversar, a partilhar. Era era.

Porém – por agora – melhor ser virtual o presente, mesmo, que eu talvez fosse entupir o ambiente com fotografias de gatinhos fofos e gatinhas que me entraram pela vida adentro como se isto fosse tudo deles e delas. Dela, para ser precisa. A safada. Esta.

(parece muito santinha)
(mas é uma cabrita)
(traz da caçada grilos estonteados que entrega de presente e depois deita-se a descansar a beleza)

31/10/2019

Uberizei-me

Ontem, quando precisei de me transportar da Av. Almirante Reis para o Campo de Ourique em hora pulsante de tráfego, sito em Lisboa, e estando o meu carro a marcar lugar longe de mim, fui ver as minhas opções. Tomar dois autocarros desconhecidos e meio descoordenados, oferecendo probabilidades, sendo eu a passageira, de errar o alvo na paragem de descida ou sabe-se lá de que outros desvios seria capaz. Então senti que tinha chegado o momento de dar o passo.
Já era de noite. Os carros a passar, a apitar, a acelerar, a fazer enfim coisas de carros, bufando no semáforo vermelho enquanto não sai o verde. Enchi-me de animação. Tinha vinte e seis minutos para fazer o trajeto. Então saquei do telefone inteligente e chamei a app já por tempo pertencente ao meu conjunto pessoal de apps por estrear. Ora logo à cabeça o ecrã mostra um mapinha cheio de moscas. Pareciam moscas a tremer, eu sem óculos de ver bem, a noite caída como já disse, as luzes dos candeeiros de rua a não ajudar imenso. Adorei as mosquinhas, é verdade, ainda me distraíram lembrando os jogos no computador velhinho, onde já vão esses tempos. Mas logo percebi a cena, as moscas eram carrinhos, oh c’amooor como diz a minha irmã Ana imitando as suas alunas, repito-me, e fui informada que o carro estava a dois minutos de mim. O carro? Mário?! Quem é o Mário? Já?! Mas aceitei tudo o que apareceu para aceitar no modo userfriendly e avancei para a relação iminente. Não correu bem. O carro chegou tão depressa, quais dois minutos de nada de magrinhos, que eu nem tive tempo de pestanejar e ajeitar-me ali no passeio eu toda animada. Resultado, não interpretei que aqueles faróis quase à minha beira eram os supostos guardiães da matrícula que eu devia reconhecer e que, óbvio, se encontrava invisível devido à noite e às luzes a encandear-me. O meu ex-futuro primeiro motorista Uber desistiu de mim e pirou-se. Mário! Vi que era ele, quando passou bem perto, mas já era tarde demais. Logo olhei para o ecrã na minha mão lançando chispas dos olhos encandeados e dizendo a mim mesma que afinal a paragem de autocarro é que vai ser, mania de modernices que não me querem para nada. Porém a safada da apezinha agarrou-me pela rapidez no serviço, pela inteligência, pelo golpe de cintura e nem um passo eu dei, logo passei a estar com um novo motorista Álvaro?! a quatro minutos de mim. E desta vez a coisa deu-se, a app é minha amiga, isso eu posso dizer que senti. O carro, quando entrei, boa noite, com licença, a cheirar tão bem de lavadinho (o meu carro também quer!!), o som ambiente meio que acolhedor, eu logo fiquei tranquila. A viagem aconteceu lindamente, incluindo vislumbrar fotografias do bebé do motorista, Álvaro!, o bebé é tão parecido consigo!, que era, e então bebés, que eu adoro, o oh c’amoooor é aqui que fica. Logo quis saber o Álvaro se eu ia a apanhar muito ou pouco vento, que eu dissesse caso algo não esteja em conformidade, eu disse pouco vento, muita conformidade. E pouco também foi o que paguei, um euro e dezoito cêntimos a mais quando compararmos com a opção dois autocarros mais uma chance de me tresmalhar. Cheguei ao destino faltavam dois minutos para a hora marcada. E no fim ainda veio mail a informar que estou muito bem cotada na rede, diz que sou cinco estrelas. Ah pois é.

29/10/2019

Um bom coração era para ser aqui

Há muito tempo que não faço uma ligação aqui neste pequeno blogue empoeirado e com uma ou outra teíta de aranha, só um momento, ultimamente deu-me para gostar de aranhas e também de osgas, está bem está, já me deve faltar pouco para abraçar um gafanhoto, ai senhores, mas não me querendo desviar do foco, o que eu vinha dizer é que hoje ando bem disposta, bem mais do que devia e já lá vamos.
Do que devia?! (que estranho) Tendo em conta que a minha casa foi assaltada de fresco com pés e mãos de lã, outra vez, é isso que quero dizer. Pensava eu e os polícias (no último ano entraram em minha casa uns doze polícias ao todo e acho que não me falta conhecer nenhum dos que ficaram de fora), e toda a minha família e arredores também pensava que os miseráveis já se tinham empaturrado com o que levaram das outras vezes e agora, com fechadura nova de alto gabarito, se teriam desencorajado, porém não.
Isto somado ao apito nos ouvidos e à dor de cabeça que ainda não saiu, dava para andar cabisbaixa. 
Mas logo ontem, dia em que me dediquei à esquadra da Polícia da área de atuação, obviemos os pormenores, li um post num outro blogue que me alegrou por dentro e veio mesmo a calhar essa alegria. Era aqui que eu queria chegar quando peguei lá em cima e depois derrapei. Não li só um post num outro blogue, atenção, li vários em vários blogues e como só leio o que gosto, em todos me alegrei. Mas este que vou dizer alegrou-me por dentro por causa da imensa generosidade, que é o mesmo que dizer, por revelar um bom coração.
Se há coisa que me faz feliz é tropeçar num bom coração. Ora o post é este.

(Penso que na lista referida no post linkado está este blogue da teíta de aranha, e isso poderia pôr em causa a imparcialidade da minha manifestação. Pois paciência, não chega para me deter.)

25/10/2019

Por obséquio

Tenho em mãos um trabalho de tricô que já não se usa. Mesmo eu, teimosa veterana rejeitante de novidades de que não sinto falta e portanto fora de moda, mal lhe pego! Por vezes, levo-o a passear de carrinho para aqui e para ali, acondicionado no seu saquinho e bem acompanhado de intenções. Até lhe comprei umas agulhas circulares para, no comboio ou numa sala de espera onde me possa eu encontrar, não dar agulhadinhas em quem me ladeasse e aí pôr-me a produzir à vontade. Só espero que não dar agulhadinhas em quem me ladeasse esteja suficiente para se visualizar a cena hipotética que as agulhas circulares vêm salvar. Mesmo assim, todo equipado e prevenido, o trabalho já vai ganhando um pózinho por cima que é revelador.
Tudo isto porque, quando acabei as obras em casa, me enchi de entusiasmo e decidi não comprar mas fazer capas novas para duas almofadas dos sofás (não vou nem a meio da primeira) e agora, instalada no comboio regional, o outono holandês a deslizar, todo querido, na janela, eu bem calminha, o tricô já ia. Mas só se eu não o tivesse deixado ficar em Lisboa, claro, que um trabalho destes não se pode guardar na nuvem ou pedir a alguém que de lá mo envie por obséquio e por Whatsapp ou por e-mail num instante. Olha que lindo.

22/10/2019

Ata Luna. Spânia.

Há dias, precisei de comprar, com certa urgência, uma caixa para transportar animais. Gatos, por exemplo. E como não dispunha de vontade de procurar em lojas da especialidade, longe de mim, fui à loja dos chineses que não só estava perto de mim, como já sabemos que tem lá tudo (mas tudo, um enigma).
A chinesa dona da loja, que conheço há anos de a ver ali atrás do balcão, mas acho que ela nunca se lembra de mim, indicou-me o corredor especializado em oitocentas coisas incluindo caixas de transporte de animais.
Lá fui eu por ali fora, o corredor não é dos curtos, e escolhi uma caixa azulinha com corpanzil para levar dois gatos de uma vez, pareceu-me, e ainda aproveitei para registar na memória os restantes artigos afins. Nunca se sabe.
Quando me pus a caminho de regresso à caixa de pagamento com a caixa de transporte na mão, uma mesma palavra pode dar para tanto, ela estava ao telefone a falar o que para mim era completamente chinês. Abrandei então o passo e fingi interessar-me pelos chinelos de quarto ali pendurados suficientemente perto para me permitir ouvir a conversa. Os estalidos e as exclamações, evidentemente, aquilo encanta-me. De resto, é, como já disse, chinês. Quando decidi que já chegava de ouvir chinês, aproximei-me do balcão e a dona da loja terminou a conversação e olhou para mim. 
- Qué chineu? Qual qué numbo?
Até aqui ainda se traduz bem.
- Não, obrigada, estava só a ver.
E depois confessei.
- Gosto muito de ouvir falar chinês.
Sem se impressionar com o que eu disse (afinal se calhar lembra-se de mim) ela esclareceu-me, então, sobre o teor da conversa, deduzindo, bem, que esse eu não tinha podido interpretar.
- É Ata Luna.
- Como?
- Ata Luna. Spânia.
- Como, desculpe?
- Ata Luna, Ata Luna. Spânia.
- Espanha? Tem familiares em Espanha? - experimentei.
- Si, Ata Luna.
E então mostra-me, no seu telemóvel, as imagens dos protestos que decorrem na Catalunha.

Quando dou formação sobre temas nada a ver, costumo ainda assim mencionar que a comunicação é fundamental. Continuo, porém, a sentir que não se lhe dá a devida importância. Continuo, também, a sentir que, se a comunicação tivesse palavras e tivesse ouvidos em proporção equilibrada, talvez muitos protestos, destes e doutros, pudessem ser evitados. E como fiquei dias a pensar neste episódio da loja dos chineses, tinha de vir aqui contá-lo ainda antes de pegar ao trabalho. Bom dia!