a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

21/08/2022

O exemplar

Atracámos o barco num dos pequenos ancoradouros sem plataforma. Lancei o cabo de maneira a apanhar os picoletes do cubo de material capaz de propriedades mecânicas que dão muito jeito, ali firmado para isso, mas só à terceira consegui. Entretanto havia-se levantado um vento fraco do lado onde pastavam uma série de vacas. Quando a embarcação por fim se imobilizou e o ruído do motor deu lugar ao grasnar do bando de gansos cruzando o azul do céu, olhei para o relógio. Ainda faltavam três horas para o jantar no único café da vila. As ideias expressas no TripAdvisor colocavam-se no topo da escala, de modo que a espera prometia. Os homens começaram a pescar e eu anunciei às minhas irmãs que ia reconhecer o lugar e com elas de preferência. A do meio saltou, a rir, por cima da pequena balaustrada para o relvado que ali nos acolhia o meio da tarde e a mais nova, de máquina fotográfica por equipamento principal, tomou mais cuidado ao desembarcar enquanto nos ameaçava com um trilião de palavras por minuto, palavras que, já nós sabemos, ficarão bordadas numa dança em dó maior como se constata no exemplar que mais tarde lhe roubei.

29/07/2022

Publicidade até à loucura

Ontem cheguei tão cansada do dia de trabalho que me dispus ao comprido no sofá para que as minhas células continuassem a manter-se unidas entre si e fiz a parvoíce de ligar a televisão. À quinta vez em dez minutos em que apareceu o anúncio da MEO com um monstro azul qualquer e a Inês Castel-Branco a falar com ele com muita piedade fingida, fui catapultada para fora do sofá e atirada até embater com o dedo espetado, muito assanhada, no botão de desligar do aparelho antes que enlouquecesse. Nem tive tempo de me lembrar que, há já umas quatro décadas, a televisão também se pode desligar no comando remoto. 

24/07/2022

A serpente

Aquilo no aeroporto de Amesterdão, hoje de manhã e depois de tarde, perturbou-me. Serpenteámos milhares de pessoas pela geometria temporária que os insuficientes funcionários desenharam por forma a encaminhar o enorme fluxo de gente. Foram bem sucedidos, porque, na ausência de inúmeros colegas, conseguiram manter as linhas a coser a vida de um grande aeroporto e do verão, sem que houvesse quebras demasiado severas. Nós fizemos a nossa parte. Chegámos com três horas de antecedência, mantivemo-nos ordeiros obedecendo às múltiplas voltas da grande serpente e, por fim, arrumámos os tabuleiros utilizados para a bagagem regressada do túnel do raio X. Talvez até haja aqui um prenúncio de futuro de certo modo risonho para variar. Um futuro em que os passageiros tomam para si os rabinhos das tarefas de futuros ex-insuficientes funcionários.

Houve um momento na longa fila, após uma das muitas mudanças de sentido no ziguezague apertado, em que os meus olhos bateram nos de uma outra passageira, uma senhora com o rosto sulcado de rugas, que circulava em sentido contrário ao meu no dorso da serpente. Sorri-lhe e ela devolveu-me o sorriso. Procurei-a em voltas posteriores, mas não voltámos a encontrar-nos.

Depois, como não tinha nada que fazer, fiquei a pensar que aqueles que veem nos desconhecidos potenciais inimigos não estão totalmente ligados ao mundo. Não de um modo potencialmente harmonioso. Em Lisboa há muitos.

20/07/2022

Arrivederci!

O homem magro, de gola à padre, aproxima-se e senta-se no lugar ao meu lado. Ainda há poucos passageiros na porta de embarque. Ao sentar-se, o homem magro faz um aceno de cabeça na minha direção à laia de cumprimento. Retribuo com outro aceno e ajeito a mochila para lhe dar espaço. Reparo então na enorme cruz, toda trabalhada, que traz pendurada ao peito presa num fio muito grosso. O fio mais grosso que já vi na minha vida. O homem magro continua a linha de comunicação comigo. Pega na enorme cruz levantando-a à frente da minha cara e diz, vou para Roma. Achando que ele estava enganado na porta, explico-lhe que este voo é para Barcelona. Eu sei, diz ele no que penso ser italiano misturado com outra coisa, mas o voo a seguir, nesta porta, irá para Roma. E continua, ainda segurando a cruz, vou ter com o Papa Francisco, trabalho no Vaticano, sou bispo. Ah, bom! digo eu. E como está a saúde do Papa Francisco?, aproveito para perguntar. Está bem, o problema é superficial, é no joelho. Dizendo isto, o bispo larga a cruz e põe a própria mão no próprio joelho não fosse eu desentender a palavra joelho, que realmente é esquisita, naquele meio-italiano. Oh, que bom, digo eu, se for só o joelho... Sim, o resto, e por dentro, diz o bispo, ele está bem.
Depois, levantando oito dedos das mãos e a seguir cinco, o bispo sorri enquanto sublinha a idade do Papa Francisco. Oitenta e cinco. Está bem.

Quando me levantei para embarcar desejei-lhe boa viagem. E ele a mim, de novo sorrindo: Arrivederci!

18/07/2022

Lisboa em obras (de propósito)

Há dias, num topo de telhado estendendo-se a um troço do Tejo ao pôr de um dia de sol quente, houve três ocorrências. Vários participantes do evento responderam que, como eu, não apreciam esse ruído de obras a que os organizadores dos topos de telhado chamam música de disco jóquei. Uma. Duas, encontrei ali terreno propício a uma discussão que há tempos queria trazer para cima de uma mesa: como é o dia-a-dia de um filósofo que não tenha enveredado pelo ensino e olha lá que valeu. E três, à saída do evento desce junto connosco no elevador um americano que torcia as mãos encardidas e repetia, muito ébrio, que esta é a sua hometown e eu não lhe perguntei se a ele os ruídos acutilantes agradaram, não foi preciso. A solidão engana-se de qualquer maneira distorcida, sonora ou líquida. 

Entretanto tive uma ideia: os disco jóqueis, em vez de se meterem em eventos a reproduzir até à loucura a banda sonora da construção de um edifício tipo centro cultural de Belém, iam trabalhar para os mais carenciados aeroportos.