Havia pousado em Lisboa há poucas horas quando torno a sair de casa lançando-me na
rua a pé ignorando o carro na garagem numa continuação já de muitos dias sem se
mexer, quero crer. Nem sequer o vou visitar, a garagem é um lugar tão feio. Há estes
momentos em que me chega um rasgo de vontade de não ter carro nenhum. Vou assim
nesta filosofia descartável à primeira necessidade, evidentemente, pelo meio do
agosto macio e quentinho, quase deserto, e vou com os pés a escorregar nas
sandálias que me estão um pedaço largas mas foram caríssimas e são mesmo lindas.
Já sabemos que sapato de mulher ou é lindo (e todo desconfortável, chegando
mesmo a proporcionar o desconforto de nos atirar ao chão se for preciso) ou é um
conforto muito doce mas parece sapato de homem, mesmo que cheio de purpurinas cor
de rosa, que isso não interessa. Então vou assim pela rua a escorregar nas
sandálias e a entreter-me com o meu telefone esperto, que anda todo queriduras
comigo não sei porquê, mas tipo talvez para fazer pirraça ao carro lá sozinho
no escuro e na companhia das caixas de caçar ratos. Hoje por
exemplo recebo nele uma mensagem muito linda sobre uma promoção a começar
amanhã numa espécie de loja e eu mesmo a precisar duma compra daquelas, ai jesus, logo eu que sou
contra promoções por causa dos nervos que me dá tanto lixo informativo. Este
post está um bocado esquisito, mas é posts destes que eu mais gosto de
escrever, que engraçado. É que a gente andando no carro vê um pior nas
pessoas, não vê? Eu mesmo a pé e a esforçar-me para continuar dentro das sandálias, vejo.
E vejo um automobilista a irritar-se imenso, imenso, imenso com um taxista ali
à frente porque este parou para largar duas passageiras que iam lá dentro e as
senhoras já não eram assim tão novas. O automobilista naquele excesso de irritado pespega-se parado ao lado do taxista a largar gritos incompreensíveis (felizmente) e
a seguir acelera para dentro do meu próprio bairro a uma velocidade para aí
quase o dobro do limite indicado na tabuleta. Portanto pensei no âmbito da
minha filosofia, ora cá está, ao volante a pessoa revela-se pior: este exemplar
histérico quer regras para o taxista cumprir mas para ele próprio não
é preciso nada disso, é primeiro parar na via a importunar enquanto larga a gritaria dele e segundo é acelerar para dentro do bairro feito autoestrada.
a voz à solta
15/08/2017
Um bocado esquisito este post
09/08/2017
O Steinway, a gola e o ferro
Anton veio jantar. Chegou com a habitual pontualidade que se
fosse britânica não seria mais exata. Ajudei-o a despir o casaco fino de verão, que
pendurei no vestíbulo. Entrou e, quando se sentou na cadeira que lhe estendi,
notei-o cansado.
- Estás cansado – verbalizei.
- Sim, um pouco – riu-se – estou a ficar velho –
acrescentou.
Nasceu em Amesterdão há noventa e seis anos e de vez em
quando diz que está a ficar velho.
- Hoje despedi-me dum cliente de mais de quarenta e cinco
anos – anuncia.
Eu tenho de traduzir os quarenta e cinco mentalmente, que em
holandês se diz ao contrário, cinco e quarenta.
- Quarenta e cinco - repeti.
- Sim. É um belo piano de cauda, aquele, um Steinway. Mas foi a
última vez.
- E sentes-te triste? – perguntei.
- Sim, claro. É triste. Agora cada cliente que visito é a
ultima vez.
Ainda trabalha no seu ofício de sempre, pianos. Mas desde há
uns meses anda a despedir-se: de cada vez que vai afinar um piano, comunica ao
cliente que já não volta.
Falámos ainda um pouco sobre o seu trabalho na fábrica de pianos, que
fechou há décadas. Fazia controlo de qualidade e arranjou no
chefe da produção um inimigo, ele queria
produzir muito, mas era preciso
rejeitar os pianos que não estavam bons, diz Anton.
Hoje, por ser verão, vem sem gravata. A camisa de manga
curta tem gola de abotoar, mas noto que os botões estão fora das casas. Mentalmente
revejo a senhora baixinha, asiática, que lhe faz a limpeza do apartamento desde
que vive sozinho depois de ter enviuvado, há uns anos. Cruzei-me com ela uma ou duas vezes,
e agora lanço sobre ela a responsabilidade desta pequena falha que, num homem que usa
gravata todos os dias exceto quando o calor aperta um bocadinho, é uma considerável falha. Mas para não ser injusta com a senhora asiática nem sequer mentalmente, e
porque sei dizer passar a ferro em holandês, perguntei:
- Quem é que te passa a roupa a ferro, Anton?
- Eu mesmo.
Terei certamente aberto muito os olhos e levantado as
sobrancelhas, porque ele se chegou um pouco mais a mim e querendo talvez amenizar
a minha admiração, baixando a voz, confidencia:
- Mas não passo cuecas nem meias…
Lembro-me de já ter ouvido, a algumas pessoas com um terço
desta idade, dizer que não sabem passar a ferro. Tirando o
esquecimento de abotoar a gola, é possível aprender-se a passar
a ferro aos noventa anos. Caso se queira, evidentemente.
02/08/2017
Esgadanhei-me é tão feia
Quando eu era miúda, e durante uns anos, ia na “carrinha” do
colégio para casa, depois das aulas. Havia umas quatro ou cinco “carrinhas”
(daqui em diante designadas apenas por carrinhas) cada uma destinada à sua volta na zona da cidade que lhe fora atribuída. Aguardavam por nós, passageiras, no pátio traseiro do terreno
do colégio. A minha era a
da dona Efigénia. Cada carrinha tinha a sua dona e isto embora possa parecer,
não se trata dum café, repare-se que dona está a sair sem maiúscula se faz
favor. A dona Efigénia, vamos lá a ela, era muito feia e era má. Eu preferia ir
na carrinha da dona Glória, onde ia a minha amiga Ângela, mas essa não passava
pela minha casa. A dona Efigénia também não gostava de mim. Um dia foi dizer à
minha mãe, a estúpida, não sei como, já que a minha mãe nunca estava em casa
quando a carrinha chegava, foi dizer que eu era uma mosquinha morta. E porquê uma
mosquinha morta?! Porque era sempre a última a entrar na carrinha.
- Porque és sempre a última a entrar na carrinha, Susana?
- Porque fico à espera que as outras raparigas entrem.
- À espera porquê?...
- Porque elas dão empurrões e puxões e encontrões, todas
querem ser a primeira a entrar. E por isso eu espero.
Quando entrava, em último, havia lugares vagos de sobra, a carrinha era mesmo comprida. Sentava-me e ia olhando o caminho, que não era
curto. Como não tinha amigas nessa carrinha da dona Efigénia, olhava pela janela
sem falar. Quando passava pela casa em ruínas, uma casa grande e medonha que
havia no cimo de uma pequena colina ao lado da estrada, pensava que era ali a
casa do papão. Toda a gente sabia da existência do papão, que era tão mau e
perigoso como hábil a esconder-se. Mesmo que eu espreitasse muito para dentro
da casa em ruínas e virasse a cabeça para trás o mais que podia até a casa desaparecer ao longe, nunca o consegui ver.
Lembro-me que no dia seguinte àquele em que calhou o diálogo com a minha mãe acima reproduzido o melhor possível, pus-me à frente à porta da carrinha da
dona Efigénia, e mal a porta abriu, esgadanhei-me toda (esgadanhei-me é tão feia como a dona Efigénia) e fui a primeira a
entrar. Levei umas caneladas e cotoveladas, empurrões, mas ia preparada, retribui cotovelos com força e entrei. Desejei que ela me tivesse visto,
para perceber as coisas, mas não sei se viu. Depois, nos outros dias todos e
até conseguir crescer e livrar-me daquela carrinha odiosa, voltei aos meus
costumes e a ser a última a entrar. E não houve mais recados da dona Efigénia. A burra (claro que ela também era burra).
(Mas porquê isto agora? Porque estava a notar o meu blogue ainda
ali com o post de há imenso tempo, um post que desencadeou outros também
servidos em hashtag, muito bonitos, e depois todos esses outros autores já
escreveram mais coisas, várias, bastantes, boas, e eu ainda assim.)
25/07/2017
#parecesasvelhotas
- Ó mãe, pareces as velhotas!
Trabalho muito tempo junto a uma das minhas janelas. Uma ou duas, mas
mais uma. E enquanto penso – o meu trabalho requer um mergulho interno, ora
agora, ora mais tarde, para pensar. Por acaso adoro. E enquanto penso, dizia eu, deixo os olhos
caírem lá em baixo na rua, eles parece que pedem um alongamento destes e digo
assim (hoje disse assim), olha lá vai o vizinho das luvas outra vez, tem a mesma
camisola de ontem!
- Ó mãe, pareces as velhotas!
O vizinho das luvas é das-luvas porque muda os pneus furados
dos seus carros calçando luva branca de algodão, que eu meti uma vez conversa
para chegar perto, então vizinho teve um furo, e poder confirmar o algodão. Até contei no blogue porque achei aquilo tão giro.
- Ó filha, vê-se que é a mesma camisola por causa da cor! Eu
não digo que seja mal ele usar a mesma camisola, mas com aquela cor vê-se logo e isso é o que eu digo.
Também observei da janela que ele (a cor é um rosa clarinho), ao passar por um dos seus carros –
que não cabendo na garagem está na rua, todo lavadinho, estão sempre lavadinhos
aqueles carros – olha muito o carro, muito o carro, e até dá uma boa meia volta em torno da
viatura (para não repetir carro) a ver qualquer coisa, mas isso, da meia volta, já não
disse à cachopa minha filha, para não, de novo,
- Ó mãe, pareces as velhotas!
E pareço, por acaso pareço.
Mas não sou, se fosse #nãotinhaumamodernicedestasnofimdumpostnemnotítulopoisnão?
(próximo post pode bem ser: E tu, já tens o teu próprio #[oteupróprio]
?)
20/07/2017
That's life
Enquanto aguardo que o portão da garagem percorra, lentamente e com um nhéééééc muito conhecido, o
curso vertical que fez sabe-se lá quantas vezes (ninguém sabe), deixo o olhar assentar numa gota de água que desliza do lado de fora do vidro do carro. Não
choveu: a gota resta do esguicho que ali impus para o para-brisas ir limpinho arrumar-se no lugar dele. O portão toma o seu tempo e eu largo a gota quando
ela se espraia na horizontal da borracha limpadora que ali repousa e viro-me para o ouro
lado – lá vêm o pai cego com
a filha adolescente passeando o cão branco de braço dado, conversam. No céu azul um avião segue subindo. O rádio
do carro, que vem ligado desde o centro da cidade, emite a canção que veio
ajustar-se a este quadro e que se pode encontrar abaixo. O momento está no ponto e a cereja do seu topo dentro da mala: levo, quietinha ali, encostada à carteira, à caixa dos óculos e ao pacote de lenços, “A Sibila” de Agustina
Bessa-Luís. Ando deste modo antecipando o prazer que lhe adivinho há dias, porque ainda não demos início ao enlace da leitura eu e ela. Mas, na primeira página esquerda que não foi deixada em branco, posso avançar,
leem-se as palavras “Fixação do Texto”. Não lhes conhecendo o significado exato, ensaio imaginá-lo e é certo que acabarei a pesquisá-lo. Por agora: foram Manuel
Vieira da Cruz e Luís Abel Ferreira os autores dessa outra arte, que o portão
já alcançou o fim do seu curso e o carro deixo-o deslizar rampa abaixo, ele vai muito bem.
(esta canção também me lembra um filme de quinze minutos que vi no verão de 1992, em Sevilha, no intervalo de um calor abrasador que fazia no recinto da chamada Expo, dentro do pavilhão dos Estados Unidos da América - chorei quase convulsivamente, palavra que foi, eu, e acho que toda a gente - gostava tanto de encontrar esse filme)
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