a voz à solta
13/07/2019
A sério
No final da festa, sobrou o chão do pátio polvilhado de papelinhos coloridos. Alguns, no canto, rodopiam num tufãozinho de vento que ali se deixou ficar a brincar.
A sério.
11/07/2019
Estupe, por favor
Houve uma hora em que pus a cabeça descansando nas mãos, os cotovelos apoiados na mesa nova, tão bonita, e senti que agora era estupe, quero estupe.
***
- Rodrigo, o que diz ali naquelas letras pretas?
- Diz... en...tra...da. Entrada!
O meu sobrinho mais novo passou para o segundo ano e já sabe ler muito bem, segundo o próprio, embora não tudo tudo. Há palavras difíceis, tia!
Fizemos o percurso de ida e volta na telecabine. Vimos uma alforreca deitada na água. Vimos cardumes de peixes. Pretos, disse a Maria. Uns grandes, outros pequenos. Cinzentos, corrigiu o Rodrigo. Os peixes são cinzentos! Vimos as árvores de cima e as casinhas dos gelados. Vimos um fumo a subir, ao fundo. Seria talvez fogo. Falámos sobre o nome deste rio, o Tejo, e de outros dois, o Douro e o Mondego.
No fim da volta, a telecabine devolvendo-nos a terra firme, tornei
- E ali naquelas letras o que diz?
- Saí...da. Primeiro era entrada e agora saída!
Ao subirmos no elevador do prédio, já recolhendo a casa, não precisei de lhe perguntar o que podia ler ali, o Rodrigo adiantou-se: estupe, leu, junto ao botão de stop do elevador.
***
Então, tirei a cabeça das mãos sacudindo a vergonha e fui abrir a porta ao pequeno novo probleminha.
Estupe, realmente, não existe. Não está nas minhas mãos.
10/07/2019
#azapes
Em segundo lugar estão as apps de dicionários, mais paradinhas e menos urgentes, é verdade, um pouco menos exatas, ok, mas também valeu. Alinham-se na segunda fila do ecrã principal à direita de quem vai, tipo.
Mas aquela que verdadeiramente me traz aqui hoje é a belezinha da última aquisição. Capaz, a danada, de me pôr feita num oito. É a app de 7 - sete! - minutos de exercício diário! Tipo como quem não quer a coisa. Eu vou e dou-lhe um toque, aciono a modalidade básica, na boa, e começo a obedecer aos comandos. Faça o exercício, no belo português do Brasil. Sete minutos de arraso, saio dali (da app que, no finzinho, me dá os parabéns, hã?) e vou direta para o chuveiro, posso dizer, bastante necessitada. Não parece, mas é. Ai esta appezinha!
Próxima app desejável (por favor): descarregável para as lentes de contacto que dê para ver bem tudo, focado, legível, tá?, a lente ajustada para a necessidade em tempo real, mudando à velocidade da luz o ajuste, chovesse ou fizesse sol, para visão ao perto, ao meio e ao longe.
E ainda esta outra, muito querida app (lembrei-me de tarde e já agora vai): descarregável para as rodas do carro diretamente, estacionando-o ela direitinho enquanto eu já me ocupava, na livraria, de pedir o livro de Stephen King que a minha sobrinha de doze anos agora ensaiou de ler e querer mais. Doze! (e não é a única, pois o referido livro já só havia em armazém todo ali a querer esgotar-se o maluco)
05/07/2019
Cinquenta e três (vírgula trinta e sete, precisamente)
- E parecem-se um pouco um com o outro - isto disse eu, que tenho uma impossibilidade de não procurar parecenças familiares, assinatura tão intrigante da mãe natureza.
Um pouco. O pai é mais alto, o filho mais gordinho.
Apertamos as mãos e eu, que nunca os tinha visto, digo o meu nome. Os deles não pude reter.
A colocação do vidro novo faz uma barulheira infernal que eu diria capaz de partir o material, mas claro que não e conclui-se em menos de meia hora.
O tempo é costume ser tema proliferante entre os holandeses e hoje não foi exceção.
Aproveitou então Erik para contar sobre o passeio de bicicleta que ontem fizemos, o tempo não podia estar mais de feição e nem sequer fomos atacados pelas lagartas dos carvalhos, cujos pelos já incomodaram muita gente e são capazes de matar um cão. Eles ficaram admirados e contaram de alguém seu conhecido que apanhou com os pelos das bichas e se viu aflito. Cinquenta e três quilómetros foi a contagem do aparelhinho montado na minha bicicleta. Mas eles não se mostraram impressionados. Os restantes doze quilómetros foi o comboio que fez connosco, o queridinho tem um espaço aberto especial para as biclas; eu para lá de agradecidissima. É que não aguentava mais, evidentemente.
- Em Portugal o terreno é acentuado, nem toda a gente se habitua a fazer muitos quilómetros de bicicleta - expliquei o que não era preciso explicar.
Mas o pai e o filho não puderam deixar de sorrir condescendentes, especialmente na parte do abençoado comboio como recurso para o regresso a casa.
Muito engraçado, sim senhor. Muito engraçado.