a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

13/07/2019

A sério

A festa das crianças tem insuflável com um motor para o enchimento com ar que trabalha em permanência fazendo um ruído em conformidade. Em concorrência, há música de palhaços com batida quadrada mesmo ao lado do motor em permanência incluindo não se perceber a cantiga devido à distorção. Um homem adulto, jovem, está vestido como se fosse um mágico e tenta animar as crianças fazendo-lhes perguntas extremamente entusiasmadas e recebendo respostas do tipo tiradas a ferros, como se costuma dizer. Há também uma mulher adulta, jovem, com metade da cara pintada, que se debruça incentivando as crianças a divertir-se no insuflável, ora as puxa para escorregarem ora as instiga a pular. Alguns pais e mães bebem cerveja pela garrafa nas laterais do recinto e olham para telemóveis na outra mão. As crianças estão relativamente paradas. Sentada na beira de uma cadeira, aguardando pacientemente que outra mulher jovem termine uma pintura no seu pequeno rosto, está uma menina. Nenhuma criança ri, salta, corre ou brinca por iniciativa própria.

No final da festa, sobrou o chão do pátio polvilhado de papelinhos coloridos. Alguns, no canto, rodopiam num tufãozinho de vento que ali se deixou ficar a brincar.

A sério.

11/07/2019

Estupe, por favor

Houve uma hora em que pus a cabeça descansando nas mãos, os cotovelos apoiados na mesa nova, tão bonita, e senti que agora era estupe, quero estupe.

***
- Rodrigo, o que diz ali naquelas letras pretas?
- Diz... en...tra...da. Entrada!

O meu sobrinho mais novo passou para o segundo ano e já sabe ler muito bem, segundo o próprio, embora não tudo tudo. Há palavras difíceis, tia!

Fizemos o percurso de ida e volta na telecabine. Vimos uma alforreca deitada na água. Vimos cardumes de peixes. Pretos, disse a Maria. Uns grandes, outros pequenos. Cinzentos, corrigiu o Rodrigo. Os peixes são cinzentos! Vimos as árvores de cima e as casinhas dos gelados. Vimos um fumo a subir, ao fundo. Seria talvez fogo. Falámos sobre o nome deste rio, o Tejo, e de outros dois, o Douro e o Mondego.

No fim da volta, a telecabine devolvendo-nos a terra firme, tornei

- E ali naquelas letras o que diz?
- Saí...da. Primeiro era entrada e agora saída!

Ao subirmos no elevador do prédio, já recolhendo a casa, não precisei de lhe perguntar o que podia ler ali, o Rodrigo adiantou-se: estupe, leu, junto ao botão de stop do elevador.

***
Então, tirei a cabeça das mãos sacudindo a vergonha e fui abrir a porta ao pequeno novo probleminha.

Estupe, realmente, não existe. Não está nas minhas mãos.

10/07/2019

#azapes

Estou em meio de dois mil e dezanove a incluir apps nos meus hábitos. Não sei se finalmente ou se isso não interessa a ninguém (tipo). Apps dos horários dos comboios já as trato por tu, ora pour toi ora door jij, consoante. A última, então, é perfeita, toda facilzinha, espertíssima, dou-me lindamente.
Em segundo lugar estão as apps de dicionários, mais paradinhas e menos urgentes, é verdade, um pouco menos exatas, ok, mas também valeu. Alinham-se na segunda fila do ecrã principal à direita de quem vai, tipo.
Mas aquela que verdadeiramente me traz aqui hoje é a belezinha da última aquisição. Capaz, a danada, de me pôr feita num oito. É a app de 7 - sete! - minutos de exercício diário! Tipo como quem não quer a coisa. Eu vou e dou-lhe um toque, aciono a modalidade básica, na boa, e começo a obedecer aos comandos. Faça o exercício, no belo português do Brasil. Sete minutos de arraso, saio dali (da app que, no finzinho, me dá os parabéns, hã?) e vou direta para o chuveiro, posso dizer, bastante necessitada. Não parece, mas é. Ai esta appezinha!

Próxima app desejável (por favor): descarregável para as lentes de contacto que dê para ver bem tudo, focado, legível, tá?, a lente ajustada para a necessidade em tempo real, mudando à velocidade da luz o ajuste, chovesse ou fizesse sol, para visão ao perto, ao meio e ao longe.

E ainda esta outra, muito querida app (lembrei-me de tarde e já agora vai): descarregável para as rodas do carro diretamente, estacionando-o ela direitinho enquanto eu já me ocupava, na livraria, de pedir o livro de Stephen King que a minha sobrinha de doze anos agora ensaiou de ler e querer mais. Doze! (e não é a única, pois o referido livro já só havia em armazém todo ali a querer esgotar-se o maluco)

(Tipo adoro.)

E tu, com que nova app sonhas?

05/07/2019

Cinquenta e três (vírgula trinta e sete, precisamente)

Os dois homens que vieram substituir o vidro defeituoso são pai e filho.
- E parecem-se um pouco um com o outro - isto disse eu, que tenho uma impossibilidade de não procurar parecenças familiares, assinatura tão intrigante da mãe natureza.
Um pouco. O pai é mais alto, o filho mais gordinho.
Apertamos as mãos e eu, que nunca os tinha visto, digo o meu nome. Os deles não pude reter.
A colocação do vidro novo faz uma barulheira infernal que eu diria capaz de partir o material, mas claro que não e conclui-se em menos de meia hora.
Depois tomamos café. Sentamo-nos à mesa do jardim os quatro e conversamos. Neste país não há serviço deste tipo que não seja acompanhado de momento para café ou chá, bolachas e uma pitada de conversa. Eu digo que está frio, por causa do vento que esta manhã se pôs, juntamente com nuvens. O filho comenta que em Portugal costuma estar sempre mais calor, não é? Não tanto no último mês, digo eu, não tanto no último mês (às vezes repito).
O tempo é costume ser tema proliferante entre os holandeses e hoje não foi exceção.
Aproveitou então Erik para contar sobre o passeio de bicicleta que ontem fizemos, o tempo não podia estar mais de feição e nem sequer fomos atacados pelas lagartas dos carvalhos, cujos pelos já incomodaram muita gente e são capazes de matar um cão. Eles ficaram admirados e contaram de alguém seu conhecido que apanhou com os pelos das bichas e se viu aflito. Cinquenta e três quilómetros foi a contagem do aparelhinho montado na minha bicicleta. Mas eles não se mostraram impressionados. Os restantes doze quilómetros foi o comboio que fez connosco, o queridinho tem um espaço aberto especial para as biclas; eu para lá de agradecidissima. É que não aguentava mais, evidentemente.
- Em Portugal o terreno é acentuado, nem toda a gente se habitua a fazer muitos quilómetros de bicicleta - expliquei o que não era preciso explicar.
Mas o pai e o filho não puderam deixar de sorrir condescendentes, especialmente na parte do abençoado comboio como recurso para o regresso a casa.
Muito engraçado, sim senhor. Muito engraçado.

02/07/2019

Gatinho

Nos raros momentos em que reengreno o fluir do meu tempo com as rédeas mais a jeito nas minhas mãos engelhadas e dou ordem ao meu próprio norte - se existir, mas é possível que sim - equipo-me das ferramentas mais completas e mergulho na floresta da escrita de Agustina, na qual ainda só hesitante gatinho. Não é por falsa modéstia que digo isto, é por ser verdade que necessito de firmeza na base. De joelhos não há que me suster, já que, em todo o caso, cambaleante não irei. Avanço lentamente para não perder um crepitar, uma teia de aranha, uma pedra na iminência de rolar. Quando me sento para dar descanso aos joelhos, às mãos, à Terra de tanto girar, nem noto que avancei centímetros. Mas, como já levo a barriga cheia, ergo-me, sacudo a saia, componho o cabelo e sigo achando-me real outra vez.

(Ontem à tarde, o vento levou o guardanapo de papel que estava na mesa da esplanada rodeada de janelas de vidro, abertas para a ocasião do calor; quando logo depois me levanto para sair, procuro o guardanapo no chão intentando apanhá-lo, e vejo-o debaixo do sofá de verga ornamentado com almofadas muito bonitas, uma de cada padrão, à minha frente. Fiz o gesto rápido e necessário para apanhar o fugitivo de papel e recuperá-lo de se tornar poluição antes de a próxima rajada de vento ter outras ideias e espetei com a cabeça a todo o vapor na quina da janela aberta, perpendicular ao meu olhar e por isso materializada numa linha quase invisível. Pareceu ali toda a cidade ressaltar da investida que empreendi, involuntária. Enfim, não morri.)