a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

05/04/2020

Um post por dia até ao fim do Corona - 21

E agora mais uma contribuição da Catarina, desta vez em chinês!!!

*****************************

Estava no computador, a trabalhar e a ouvir o meu filho adolescente a jogar Fortnite com os amigos. Então decidi interromper o trabalho por um pouco para dar nota que, nesta quarentena, estou a aproveitar para me cultivar e aprender uma nova Língua, que se deve chamar qualquer coisa como adolescente-a-jogar-fortnite-ês. Antes de mais, aprendi que, neste jogo, todos se chamam “Zé”, ou “Mano”, ou “Puto”. Em momentos de desespero é “Puuuuuto” (com uma voz ligeiramente esganiçada). E, como sou uma boa aprendiz, já sei articular algumas frases deste novo dialeto. São elas:

- Mano, quando estás a fightar, não uses só a shotgun.
- Tens quantas kills?
- Zé! - eles são vários, mas na verdade também pode ser o Mano de há pouco - Estou a soro!
- Puto! Estou todo légado!!!
- Maaaaano, levei uma snaipada!
- Ahhhhh, estou a zero de viiiida!
E quando os companheiros de jogo adotam todos o mesmo nome,
- Putos, baza jogar squads?

Seja lá o que isso for... 

Entretanto, descobri que esta linguagem pode dar azo a más interpretações porque, a certa altura do jogo, ouvi-o comentar, com alguma desilusão na voz: 
- Mano, já sei porque é que eu morri... porque léguei!
Ora, fazendo o exercício de ler o comentário do rapaz em voz alta, facilmente se percebe a dúvida. Exato... foi isso mesmo que eu percebi. 

Catarina Rodrigues

04/04/2020

Um post por dia até ao fim do Corona - 20

- Ah! Desculpe, não era para si!

Eu tinha atendido o telefone com o entusiasmo correspondente.

- Dona Esmeralda, há quanto tempo!
- Não era para si, desculpe... andava a tentar apagar o número de uma pessoa que morreu e liguei para si.
- E como eu ainda não morri, atendi. Como está?
- Olhe, sei lá. Estou! Tal como todos, nesta prisão!
- Então já não vai trabalhar?
- Ai vou, isso vou! Levo um cachecol enrolado a tapar a boca e o nariz e apanho o autocarro. Mas lá no refeitório andamos todas de máscara e luvas, tem de ser. As outras pessoas não, quando vão comer não levam máscara e sentam-se dois em cada mesa, naquelas mesas compridas, há turnos, está a ver?
- Deve ser cansativo andar de máscara todo o dia.
- Então não é?... Eu até parece que ando com a garganta esquisita. As gargantas não estão habituadas às máscaras, filha.
- Pois, acredito... Então mas ao menos vê gente, não está o tempo todo sozinha.
- Ó filha, mas eu queria ficar em casa, acho que era melhor, não acha? Sempre a lavar as mãos, de tanto em tanto tempo lavamos as mãos... eu até já tenho as minhas alcoolizadas.
Se já me estava a ser um bocado difícil gerir as gargantas não estarem habituadas às máscaras, agora é que escapou mesmo a gargalhada.
- Desculpe, Dona Esmeralda. É que ter as mãos alcoolizadas não é para todos.
Ela também se riu. 
- Ai a gente ri-se, mas isto é muito triste. Quando vou às compras, as pessoas é um passo para trás um passo para a frente, toda a gente a afastar-se, a ir de volta, é muito triste, filha.
- Olhe, mas isso do cachecol. Faz muito bem, tem é de o mudar...
- E mudo! Ainda hoje lavei dois. E como tenho cinco, é um para cada dia da semana, está tudo controlado! E olhe, combino o cachecol com a roupa, escolho o que dá melhor, e lá vou eu!
Agora rimos ao mesmo tempo. 
- Mas sabe, há uma coisa que me revolta.
- O quê, Dona Esmeralda?
- É os hospitais não terem tudo o que precisam e haver tanto dinheiro metido em estádios de futebol. A quantidade de estádios que se fizeram p'raí e ficaram às moscas, já viu? Depois vem uma coisa destas e os hospitais não têm o que precisam! Então não era de o dinheiro ter ido logo para os hospitais?

Como diria a Carla, com quem eu partilhava intervalos à beira da máquina do café com a D. Esmeralda por perto a nutrir a conversa: Já foste!

03/04/2020

Um post por dia até ao fim do Corona - 19

Hoje tive um lindo dia de folga. Quando, a meio da tarde, fui à rua pôr o lixo (não sei se já tinha trazido para aqui o querido tema de ir ao lixo), parei toda calminha junto à porta do prédio, do lado de fora, a apanhar uma aragem relativamente composta num espectro de temperatura com ares de primavera. Ares, literalmente. Ora enquanto estava nesta parada a aproveitar-me da situação e sem ir a correr devolver-me à minha casa, ao aspirador e ao pano do pó, como devia, li os editais que a Junta afixou na porta com informações está-se mesmo a ver relativas a quê. Um dos editais com um texto longo, mas eu - que leio as embalagens de champô, do leite e dos cereais de pequeno almoço - li-o. As lojas que estão abertas, as que fecharam, o que temos de fazer se sentirmos isto ou aquilo, números de telefone e horários, linhas de apoio e, bem presente, destacada pelas maiúsculas com que nasceu, por todo o texto de alto a baixo, a palavra de ordem: COVID-19.
De repente, já nas últimas linhas, encontro-a. Fruto, quem sabe, de um cansaço de ser, de um suspiro de esperança, do escapar de um dedo crente ou, sei lá, de uma ação intencional, a mutação: COVIDA-19.

02/04/2020

Um post por dia até ao fim do Corona - 18

E temos, diretamente do prelo da redação colateral deste blogue denominado, de vez em quando, "avós à solta", mais uma contribuição da nossa convidada especial!

**********************************
O dia a dia dos dias de hoje
O despertador tocou e eu levantei-me para mais um dia de trabalho. Tomei banho e demorei algum tempo a escolher a melhor indumentária para me apresentar ao serviço porque estava indecisa entre as três leggings pretas que tenho e umas cinzentas. Escolhas feitas, calcei uns sapatos a condizer: as minhas pantufas cor de rosa para contrastar com os tons de cinzento eleitos para me aquecer acima do tornozelo.
Demorei algum tempo a chegar ao trabalho porque os gatos não me largavam os pés a pedir comida. Tropecei neles duas vezes! Apesar do trânsito e de ter escapado ao sinistro por uma unha negra, consegui deixar os miúdos nas aulas, na mesa da sala, e fui para o trabalho, que não fica longe, na outra ponta da mesa. Cumprimentei colegas via whatsapp, li os e-mails pendentes (uns 150), respondi e recebi mais uns quantos, atribuí trabalho, recebi, corrigi, dei o devido feedback e a manhã estava feita.
Fui almoçar ao restaurante do costume e pedi mesa na esplanada, uma varanda com vista para a vizinha da frente. O pessoal do restaurante é muito simpático e conhecem-me há tanto tempo que me fazem sentir como em casa. Depois de analisar a ementa ao pormenor, escolhi o prato do dia (o único), que era esparguete à bolonhesa. Para sobremesa, doce da casa (já só há laranjas). Os outros clientes do restaurante, os meus filhos, eram simpáticos e criou-se um ambiente agradável. Depois de beber o café (isso ainda há, pouco), lavei a loiça para pagar a conta e regressei ao trabalho.
A tarde de trabalho não foi muito diferente da manhã. Mais uns 500 e-mails, leitura, resposta, organização, correção, feedback... e correu tudo bem.
Antes de ir para casa, ainda passei pelo ginásio que fica em frente à televisão para uma aula com o meu PT, o YouTube. Fiz bastante exercício, mas não me cansei o suficiente porque, antes do jantar, ainda me deu para ir fazer uma caminhada até ao caixote do lixo que fica do outro lado da rua.
O jantar fui eu que fiz e não estava mau. É curioso, porque o tempero da cozinheira do restaurante onde fui almoçar é bastante semelhante ao meu.
Enfim, no meio de toda esta atividade, acho que avariei o telemóvel porque o contador de passos registou pouco mais de 500.

Catarina Rodrigues

01/04/2020

Um post por dia até ao fim do Corona - 17

Há uns dias a esta parte venho notando a suave, progressiva involução: a garrafa do líquido das lentes de contacto está a chegar ao fim; não se tratando de um Bushmills ou lá o que é, também faz imensa falta a garrafa. Se noutros tempos isto era involução (o termo raro aplica-se por exemplo a úteros) para me arreliar, quase tanto aliás como ver o depósito da gasolina do carro a não ir para cheio, agora começou a entusiasmar-me. Anuncio, portanto, que vou ir, em breve e com legitimidade, bater à porta do oculista (vou ir é ainda mais raro). Se estiver aberta, entro e só saio, eu digo, com uma nova garrafa, cheia (uma?! é preciso ver o exemplo do papel higiénico), ou duas! Pois se hoje foi a minha vez de ir lá abaixo à beira da rua contribuir para a evolução do carregamento de um contentor de lixo (evolução é que já coiso) com o nosso, amanhã será a vez de ir a minha filha Saminhas, já que a terceira ocupante da casa, ocupante mas muito menos, isso não faz. Esta última não chega nem se aproxima dos quatro quilos de peso e tem outras competências, por exemplo, jogar às escondidas como e com gente grande e bater mosquinhas que esvoaçam aflitas no vidro da janela com saltos altos (sim, sim). Portanto, como amanhã será dia de ir a Saminhas fazer o percurso para o contentor do lixo, vou eu mesma em pessoa real visitar o oculista, e se faz favor onde se lê real deve entender-se não-virtual. Deste modo, ficaremos com as idas à rua tão bem distribuídas como está espesestetacular este post, não ficaremos?