a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

04/02/2021

Aromês

Reflito com os cabelos molhados sobre as abelhas produzindo todo aquele mel que não quero ingerir. Antes observar paragens de autocarro especialmente quando estão fornecendo primaveras por cima. Ou, vá lá, o aroma a coco, todo lembrando-me as idas violetas imperiais.

Sim, que leio os rótulos debaixo da água quente com o mesmo empenho outrora produzido frente à caixa de Nestum (com aquele) e verificando claro que todas as traduções disponíveis. Podia ter avarias diferentes.

Estando pronto o duche, faço cumprir a função do rodo essencialmente de cima para baixo, enfim proporcionando o descanso querido ao contador do fluido limpo e frio, não sei se sabias, a pingar.

(contudo, o frango estufado com ervilhas chama em aromês, vem do fogão e é urgente)

31/01/2021

Ou é tudo abusos?

Agora a sério, se os frasquinhos vêm com cinco doses lá dentro, que eu já vi de relance ali na televisão, e houver, por exemplo, dezasseis pessoas na lista para vacinar num dado local de vacinação, daí o nome, de quantos frascos vamos precisar? Quatro. Mas do quarto frasco só sai uma dose. Sobram as outras quatro. Que entretanto já perderam a sua condição criogénica de setenta graus negativos, coitadinhas, uma vez que um enfermeiro de sangue quente pegou no frasquinho, ou enfermeira. Não sendo o dito um frasquinho que deite muito corpo, não lhe será difícil sentir-se confortavelmente quentinho num piscar de olhos.

E depois? O nosso enfermeiro volta a meter o frasquinho requentado dentro da mala do frio para levar as quatro doses de regresso à base? Pergunta ali em redor quem quer levar uma dosesinha de oferta já que aqui estamos? Ou encolhe os ombros e descarta aqueles quatro tesourinhos como resíduos?

23/01/2021

atraso

A poesia é de chá ou um comboio com certeza a entrar no túnel do metro.

Nunca o meu nome dará um ciclone, nem serei passageira naquele comboio. Mas sim passageira.

Pressiono botões logo após o futebol sair para o ar, devolvendo-me à pureza das flores.
(para não cegar, todas as flores são minhas, mesmo as que não nasceram)

O café esfria na chávena sempre por causa da minha mão. Ela não será maior que sobre a língua preta de um papagaio. Nada farei pela poesia de chá que se afogou ao nascer morta. Nem chorarei enquanto arranjo o cabelo.

Vejo que os filhos se escoam ávidos pelos retângulos de vidro, deitando mães orfãs ao sino da igreja que vem com um minuto de atraso.

De repente, vou arranjar o cabelo.

20/01/2021

Adoro chá mas hoje não me apetece

Continuo a beber chá, pouquíssimo, mas por interesse. Ou para dele extrair o calor diretamente para as mãos quando finalmente a chávena deixa de queimar, ou então por ter uma companhia tão irresistível à minha frente que nem noto estar a bebê-lo e não o querido café, um copo de vinho, cerveja, sumo de laranja ou mesmo de tomate. Com tanto que há para beber, o chá pobrezinho.

A verdade é que ainda assim posso ser acometida de uma raríssima vontade de beber chá por razões válidas e desconhecidas, que não por interesse. Nestes casos, ocorridos anual ou bianualmente, p'raí, aproveito muito depressa e vou a correr pôr a água toda imbuída do exclusivo da ocasião. Só que depois o próprio chá não colabora, nem com versões mais atualizadas deste, é incrível. Continua a levar meses ou, diria mais, horas a arrefecer, por muito que eu me esforce em soprá-lo, soprá-lo, soprá-lo, o que ainda por cima é feio. E claro que lá se vai a vontade, enjoada de esperar pela sua vez. Não sei como isto se resolve, o que gostava de saber é se quem bebe chá por gosto não se cansa de esperar que arrefeça, se anda já com as mucosas queimadas e nem sente ou se aproveita para ir às compras, lavar o carro e passar na farmácia que ainda dá tempo se não estiver muita fila.