a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

19/11/2022

Já chegou o frio e a neve também quer

A vizinha da frente esquerda, a dos carros muito feinhos, era muito feinho o primeiro carro que ela tinha quando se mudou para aqui com a família o ano passado e é muito feinho o segundo carro, pelo qual trocou o primeiro, a diferença entre eles é o musgo muito sujo entranhado que o primeiro tinha e o segundo ainda não teve tempo de ganhar, mas como eu ia dizendo, a vizinha da frente esquerda tem uma pequena tabuleta feita à mão espetada na terra do seu jardim, junto ao passeio e virada para quem passa nele e para o tal seu muito feinho carro. A tabuleta mostra uma informação que, vista daqui, parece ter bonecos coloridos. A avaliar pela sua altura, estou em crer que se trata de uma espécie de “não faças cocó neste local”, mensagem obviamente destinada ao público-alvo canino da rua quando já vai aflitinho, mas tenho de me aproximar como quem não quer a coisa, para confirmar tudo. Quem sabe, a vizinha está assim a proteger a área circundante do seu novo e feinho carro. Pode ser que, deste modo, se acumulem nele menos camadas de musgo muito sujo.

(entretanto, comecei a ler o Carlos de Oliveira, “Casa na duna”, ah pois)

29/10/2022

Insiste insiste

Li o texto “As hienas” da Clara Pinto Correia acabadinho de ser publicado no Página Um e percebi ainda melhor que sou uma rainha da felicidade. Então levantei-me e fui abrir a porta à Marble que já estava a pedir para ir à rua (de gato) há imenso tempo e para isso tinha deitado ao chão cinco envelopes que aguardam a chegada de vontade de os abrir e qualquer coisa na casa de banho que não se partiu porque já não há lá nada que se parta. Lavei os dentes, preparei o quarto para me receber no sono e na insónia e depois de todo esse tempo fui, em trajos desadequados e inéditos, buscar sua excelência a gata ao menos dois. Vinha satisfeita certamente com algumas aranhas minúsculas na barriga ou nem quero pensar de que menu alternativo ela se teria servido, a verdade é que veio logo ter comigo de cauda no ar, pronta para voltar para casa. Subi as escadas com a donzela ao colo, as duas contentes, pois, eu incluída. Quais regras, pá. Agora só peço é um aspeto: dormir a noite inteira até ser de manhã. Por exemplo para variar um bocado.

15/10/2022

Leituras tão boas

Às sete da manhã ainda se ouvia uma coruja ou uma ave do estilo coruja, das que só piam à noite. Para começar. Depois, quando finalmente larguei a leitura do meu novo jornal, achado por causa do banho de Clara Pinto Correia que estou deliberadamente a tomar, o Página Um, e me levantei para ir dizer bom dia à serra, vi que estávamos acima da nuvem encaixada no vale. É sempre tão lindo que quase me dói olhar. Fica praticamente difícil respirar normalmente. Mas talvez eu seja um bocado deslumbrada.

Fui caminhar pela estrada de terra entre eucaliptos e alguma vegetação autóctone sobrevivente das indústrias, quando a nuvem estava a levantar-se dali. Subia depressinha e em minutos já me estava a envolver bastante. Tirei algumas fotografias ao espaço em torno com a neblina e raios de sol a cortá-la, tendo por companhia a berma silvestre com o solo revolvido às covas mal feitonas, género às três pancadas, sabe-se lá por que bicho mas eu desconfio. Ronc.

Entre isso e aquilo, ouvi a Inês Lourenço n’O poema ensina a cair dizer um poema da Sophia que até nem achei aborrecido. Admito. A Inês Lourenço tem um adorável sotaque do norte e talvez tenha sido daí. Deu-me até vontade de ir outra vez ao Porto inserir-me nas suas ruas e descobrir se já está mais calminho, com algumas das obras prontas e tipo isso. Deu deu.

21/09/2022

Mas pavões bebés entre os livros, isso sim

Ainda me zumbe nos ouvidos a gritaria que foi ir à Feira do Livro na cidade do Porto. Uma pessoa vai ingénua fazer fé na estação de São Bento para entrada, mas qual quê. Nem toda a beleza dos azulejos, dos ferros trabalhados e das outras obras de arte para as quais logo nos faltam os olhos cansados, que encimam as cabeças de hordas de turistas com telemóveis ao alto, nos safa. Saímos da estação para respirar e somos atropelados pela orquestra de motas a serpentear por entre os carros furiosos que por sua vez se desviam de prédios em obras e mais prédios em obras. Ao menos ficamos a saber em que altos ruídos opressores se inspiram os tais DJ de topos de telhado ou lá o que é aquilo.