a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

21/12/2024

Vinte e dois livros à data

Escrevo na agenda, nas folhas para notas, os títulos e os autores dos livros que leio. Para chegar ao final do ano e saber se ele foi bom. Os de poesia não contam, que esses nunca se acaba de ler, naturalmente.

Vinte e dois é a conta à data. Com um melhor dormir que me chegou da idade, muito Bach, a casa razoavelmente limpa, as contas em ordem, o número de contribuinte, os vizinhos mais quietinhos, e apesar do whatsapp, da via verde.

Também muitos litros de café matinal, lá isso. Na rua ainda noite, metade de mim debaixo dos cobertores, os gatos alimentados lambendo as patas.

Depois o trabalho, claro. O autocarro, aquelas pessoas na paragem. O homem negro, a mulher faladora. E, no longo curso, o comboio a levar-me dali toda com a cabeça já noutro lugar. No livro. 

De sobra, o acordar acima das nuvens, os javalis à noite, os veados na brama quase ao meu lado, ou mesmo saborear o melhor entrecosto do mundo. Pelo meio fazer amigos, fazer sopa, salada, caminhadas, tricot.

Um ano com vinte e dois livros lidos é um ano mesmo muito bom.

20/12/2024

O que dizem as tuas botas?

As botas a separar-me os calcanhares do chão em cerca de seis centímetros. (Assim a olho.) 
A prometer um cansaço no fim da semana, uma dorzinha qualquer. 
Não muito grande, pequena. (Até fácil de combater.) 
Por exemplo, à noitinha, já no comboio doido, resfolegando-se nos metais, nas peças móveis, em todo o seu material circulante, então desaparecem.
As botas. 
Encostarei a cabeça no ponto mais distante delas, talvez de olhos fechados.
E lembrar-me-ei dos jacarandás à espera de junho, das paragens de autocarro com teto alusivo à primavera, e eu pesada com malas no chão.
Coisas destas.
Então sorrirei toda cá no escuro de mim, porque sei perfeitamente que chegou a minha vez. 

(está um dezembro avançado lá fora, cheio de hoteis e luzinhas de natal, e um calor desgraçado aqui) 

04/12/2024

A carreira das oito

Entre também eu agarrada ao telemóvel como quase todos aqui em redor e estar de mãos livres a olhar para as pedras da calçada, prefiro isto de vos escrever.
O autocarro está atrasado conforme é seu habitual procedimento, mantendo os passageiros à espera, espalhados pelo murete de cimento rosa, um rosa por acaso até alegre. 
Os pilares do viaduto que nos encima e protege da chuva se ela cair têm, estimo, um metro de diâmetro. A sua larga curvatura dá portanto espaço à vontadinha para os cartazes a anunciar quartos a estudantes. Alguns com casa de banho e tudo. Outros espaçosos. Ou no seio de lares de famílias respeitosas. Quando não trago o carrego todo dos livros, ponho-me a ler os anúncios para não me esquecer que, no meio daqueles que visam os cifrões e mais nada também se encontra generosidade ou vontade de acolher. Não sendo especialista em assuntos aborrecidos como mercados, deduzo porém estar completamente fora deste. Apesar de ser uma intensa estudante para a minha idade. Mas - um momento, já volto.

Continuando, estou pois fora deste mercado, mas não sou a única. Aqui no murete ao meu lado está o casal de negros velhotes que vai sempre nesta carreira. Demoram imenso tempo a subir para o autocarro e depois a descer, em Lisboa. Ele já me reconhece e fala comigo. Comenta o atraso e o facto de irmos sempre no mesmo dia à mesma hora, acha graça e ri-se de me ver. Ela parece alheada, fica apenas agarrada ao marido com os olhos no vazio. Acho que é quase cega, porque uma vez em que ele se afastou (mas não para ler os cartazes dos pilares do viaduto) ela ficou assustada de esperar sozinha e levantou-se para o procurar. Quando achou que o tinha encontrado uns metros mais abaixo, neste murete, e chegou a cara muito perto da dele para confirmar, percebeu que se tratava de outra pessoa (eu) e não do seu marido. Mas sosseguemos porque ele logo logo, vendo duas mulheres - a sua e eu - de ar assustado e caras tão próximas uma da outra que quase tocavam os narizes, uma delas de olhos vazios muito abertos, a outra de olhos cansados e surpreendidos, respetivamente, acudiu a primeira, tranquilizando-a e desculpou-se à segunda. Ora essa, que é lá isso, pensou esta, balbuciando qualquer coisa que já não me lembro o que foi.
Quando, muito em breve, trocar esta viagem por um meio mais confortavelzinho de a fazer, vou sentir falta deles. Mas só na primeira vez e na segunda, depois, é quase certo que os esqueço. 

24/11/2024

Santa Comba Dão (é que este nome)

O sino da igreja deu as quatro e meia três minutos depois. O sol já se inclina muito a poente e o vento caiu. A tarde está amena. Ouve-se apenas a água do canal que corre para uma pequena cascata, por sobre pedras e vegetação, para de novo se emparedar numa calmia líquida. Tanto, que a igreja cimeira nela poderia ver refletidas as cores dos seus vitrais.
O passadiço de madeira fresca leva-nos ao restaurado lagar de azeite. A porta aberta bastou para que nos aventurássemos a visitar o belíssimo interior. Uma exposição de míscaros, líquenes e fungos colhidos de manhã na outra margem do rio estava a ser montada por gente do norte, disseram-nos. Gente que os sabe classificar: desde os que dão boas sopas ou um suculento risotto, aos que são mortais quando ingeridos. 
À saída, tropeçamos no edifício de um velho posto de transformação. Aquele mesmo que, na parede exterior, ostenta, numa composição de ladrilhos, um orgulhoso mapa da cidade exibindo o encontro entre os dois rios pintado num azul vivo, muito alegre. Como se fosse dali que vem aquela força, tanta beleza. 
Mas na esplanada já não está ninguém. Parece que todos terão recolhido o sábado - assim amadurecido, assim morno, assim tranquilo - dentro das suas casas de pedra muito arranjadinhas pelas ruas estreitas. Todos não. Quatro homens estão sentados dentro do café aquecido, demasiado aquecido, a olhar muito quietos, com as faces vermelhas, bolachudas, para a televisão acesa (claro). No programa da tarde decorre uma homenagem a Marco Paulo, o cantor popular que Portugal guardará por muito tempo, estou certa, no seu coração.