A carrinha do padeiro anuncia a sua chegada com a buzinadela habitual. Agarro na moeda de um euro e abro a porta. O padeiro está a pendurar o saco de plástico com as carcaças contadas na cerca retorcida da vizinha inglesa do botox, do outro lado da estreita rua. Depois volta-se para mim, sorri e eu digo a quantidade de pão para hoje. Enquanto ele prepara o saco para me dar, a vizinha sai de casa e desce a rampa até à provisória cerca. Traz o seu cabelo escorrido apanhado num rabo de cavalo, uma camisola sem forma que suspira por lavagem, umas leggings em condições semelhantes e um par de chinelos já sem cor revelando uns pés deformados pelas agruras de uma vida apertada, muito triste. Em silêncio, apanha o saco com o seu pão e regressa pelo mesmo caminho até desaparecer atrás da porta da casa. Eu também não a cumprimentei. Aceito que ela prefira ignorar quem tem a sorte de carregar na alma uma mínima dose de paz. Aquela que, quando falta, incita o coração vazio, inquieto, doente, a presumir inimigos em cada canto. Mesmo que numa aldeia de três ruas, muitos gatos e um par de veados que já entraram na brama.
a voz à solta
15/09/2022
13/09/2022
No alfa das seis e nove
08/09/2022
Doces*
Está
finalmente a chover. Em cima do tapete da entrada pelo terraço virado a sul,
oito gatos aguardam nova dose de comida. Ali não apanham chuva. Se tocar no
puxador da porta envidraçada, as carinhas voltam-se todas para cima, olham-me
através do vidro, e algumas boquinhas abrir-se-ão miando fininho. Não estão
todos, falta pelo menos um dos mais novinhos que, ao ouvir miar os outros, virá
a correr desalmado, derrapando no chão molhado do terraço até conseguir equilibrar-se e vir juntar-se ao grupo. Mas não toquei no
puxador, antes vim sentar-me de casaco de malha vestido para escrever estas doces linhas.
* porque me lembrei dos votos da minha colega chinesa para o meu dia de ontem: "Um dia doce", podia ler-se no seu engraçado português, proveniente lá dos confins orientais onde vive.
02/09/2022
Setembro, mas já sabia
A meio da manhã pausei o trabalho e saí para fazer a caminhada habitual levando na mão três garrafas vazias de cerveja mini destinadas ao contentor próprio. (Ao menos aproveito para fazer qualquer coisa de jeito.) Dou início ao episódio de podcast que escolhi para me entreter a neura e entro em passos rápidos na manhã amena. No cimo das escadas que dão para a paragem do autocarro, ao fim da rua, cruzo-me com uma senhora agarrada a duas ou três raspadinhas esfolando com força a película perversa e temporária de uma delas.