A insónia rendeu bem esta noite. Apanhou-me na curva das três para as quatro, aquela horinha em que adormecer está quieto. Então já que é assim levantei-me. O quarto estava quente, as pedras da parede a largarem o calorzinho que lhes ofereceu a tarde. Mesmo assim, embrulhei-me no robe. Desci as escadas com cuidado, não fosse um pé escorregar-me para fora do chinelo no escuro.
Para suavizar os estalidos metálicos que assustam o silêncio, abri devagar a porta que dá para o terraço. Na névoa fresca da noite, imobilizei o corpo a escutar o breu.
A insónia rendeu bem esta noite. De longe, chega-me através da humidade do ar, projetado pelas entranhas do cio, o uivo de um veado macho. A brama já começou.
A brama faz isso: devolve-nos a uma espécie de tempo antigo, onde a noite ganha outra espessura e a pressa deixa de ter qualquer utilidade. Há uma beleza rara nessa transição de setembro, em que o calor do dia ainda fica preso às paredes e o ar da madrugada já nos pede o aconchego do robe.
ResponderEliminarÉ uma bela forma de dar as boas-vindas ao mês, com esse contraste tão bem apanhado entre o silêncio da casa e a força crua da natureza a chegar de longe. Obrigado por partilhares essa fração de noite.