a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

03/04/2025

Nem nada que se pareça

A voz no altifalante disse, desta vez, algo diferente. Não o habitual senhores passageiros, ao desembarcar, atenção à distância entre o comboio e a plataforma, ladies and gentlemen, mind the gap. Não senhor. Desta vez a voz anunciou problemas técnicos na locomotiva. Portanto, íamos ser providos de outra locomotiva sem problemas nenhuns (especialmente técnicos). Mas, disse ainda a voz, os senhores passageiros devem ficar sentados nos vossos lugares, enquanto procedemos à mudança de locomotiva. Entendi. Nada de ir ao bar adquirir alguma coisa, bebidas, croissants, batatas fritas, um chocolatinho. Mas antes de a minha cabeça arranjar ideias para justificar aquela advertência, a voz de novo se fez ouvir, os senhores passageiros devem ficar sentados nos vossos lugares (porquê, mas porquê? eu quero saber) para não se magoarem nem... nem nada que se pareça! 

Várias horas mais tarde, o comboio já provido com nova locomotiva, cujo acoplamento ao resto da composição não fora capaz de sacudir nem a leve cortina pendurada na janela, de tão suave, muito menos capaz seria de atirar passageiros contra objetos muito duros, candidatos a magoar partes dos passageiros, mas continuando, várias horas mais tarde, na aproximação ao destino, diz a nossa voz no altifalante, senhores passageiros, estamos a chegar a Lisboa, ao desembarcar tenham atenção à distância entre... (tal tal, o resto já sabemos), e conclui: desejamos continuação de uma boa viagem... ai perdão, boa viagem não, continuação de uma boa noite! 

E com isto conseguiu a voz pôr os passageiros nada magoados ou algo que se pareça a sorrir uns para os outros enquanto alçavam malas e mochilas, vestiam casacos, arrumavam telemóveis, percorriam o corredor em direção à saída

22/03/2025

O exame

Tinha o Martinho já derrubado as diversas árvores no meu bairro, tantas, como eu nunca tinha visto, os homens dos serviços municipais desencaixado os painéis publicitários retorcidos, atingidos por elas, cortado os troncos que se haviam atravessado nas vias e varrido os galhos espalhados por todo o lado, quando chegou finalmente a hora do meu exame.

Já me tinha esquecido de como o estômago se contrai, as mãos tremem e o coração acelera à beira de um evento destes. Mas tinha tudo preparado: os ouvidos livres de auriculares, o pulso de relógio inteligente, o quarto de telemóvel, tablet, ou afins eletrónicos, a porta fechada. Nem os gatos eram permitidos junto de mim. Só mesmo o portátil de ligação à organização, com câmara e microfone ligadíssimos, o meu cartão de cidadão pronto a ser fotografado comigo ao lado. De resto, os livros, documentos, manuais, canetas, papel, água, um chocolatinho. Ah, e a impressora. Dez minutos antes poderíamos imprimir uma parte do enunciado.

Tirando as duas vezes em que a minha cabeça se desviou do centro de visão da câmara porque me estiquei na direção de um documento orientado a norte, e em que recebi avisos de cuidado! imagem não detetada!, tudo correu lindamente.

Este fim de semana é como se fosse de férias, nem noto que chove sem parar,  que está frio, e vento, e ao mesmo tempo nevoeiro, e húmido, e que as árvores mal começaram a florir, os insetos não polonizam nada, os pássaros quase não cantam, o sol não vem para secar a roupa. 

13/03/2025

A nova polivalência

Durante o duche matinal, senti-me imbuída de certa impressão pela polivalência de alguns personagens contemporâneos. Pensei até que talvez a Coca-Cola, também um gigante mas com muito mais idade, necessite de um incentivo às vendas da variante sabor manga/laranja, relativamente pouco apreciada, ao que parece.
Ou mesmo a conhecida Levi's, que anda tão carota nos modelos mais clássicos, aqueles sem esfregamento prévio de pedra pomes para rasgar o pano ou quase rasgar. De certeza que lhes daria jeito um empurrãozinho publicitário do presidente, pois então. 
Ao menos enquanto se entretém a publicitar marcas de produtos dos amigos, tão sofridos pelas próprias medidas absurdas e mesmo abjetas, não está a fazer mais estragos na economia, nas pessoas, no mundo. 

11/02/2025

Uma espécie de nevoeiro no comboio da noite

Há uns dias, no escritório - sim sim, por vezes encontro-me fora do autocarro ou do comboio -, uma colega oriunda do Brasil lembrou a sua infância lendo gibi. A base de dados armazenada na memória orgânica de que disponho apresentou-me então a tradução para o português deste lado: livros de banda desenhada ou, como nós referíamos, livros do tio Patinhas. Mesmo que fossem do Zé Carioca, Professor Pardal, ou outras variantes.
Acho que li tudinho o que desse estilo se publicou em Portugal e em português do Brasil, naqueles tempos em que as minhas irmãs e eu tínhamos férias de três meses entre a praia e a beira da piscina, para não dizer quatro. Portanto, os livros do tio Patinhas eram lidos e relidos.
O que porém fiquei por saber foi a razão misteriosa por detrás das relações familiares entre os famosos patos. Havia os tios e havia os sobrinhos. Não havia nunca nem pais, nem mães e portanto nem filhos.
O tio Patinhas era tio, o pato Donald tio era, o Huguinho, o Zezinho e o Luisinho, sobrinhos. E mesmo a Margarida, quando surgia, conseguia ser tia de alguém sua sobrinha. Se não estou a inventar, o próprio Zé Carioca, que outra ave encarnava, ou melhor, enverdava, apareceu com um sobrinho da mesma cor. A sério, isto interessa-me. 

(no comboio cheira tão bem a croissants que sou capaz de começar a engordar outra vez)

E de perguntar amanhã no escritório, à minha colega Brasuquinha, versada em gibi, se ela conhece a razão de tão denso mistério. 

04/02/2025

Isto parece-me importante na manhã de hoje

Ninguém parece ter notado (todos, incluindo eu, de cabeça inclinada para o vidrinho retangular), mas a gravação que anuncia as próximas paragens no autocarro disse "pê cê cedilhado José Queiroz".
"Pê cê cedilhado" sendo a abreviatura de praça, evidentemente. Hã? Abreviatura?!