Todas as terças feiras do último mês me viram sair de casa depois do jantar, meter-me no carro... não, afinal não viram, porque na garagem costuma estar escuro e eu gosto de fazer o corredor até ao meu carro às escuras enquanto penso que não tenho medo dos ratos imaginários como a minha vizinha do sétimo andar tem e ainda ensaio o andar da Charlize Theron no reclame de um perfume chamado J'adore (isto há anos) em que tudo é dourado e o vestido dela também e depois o vestido cai ao chão no fim daquele caminhar que eu imito mas sem a parte de deixar cair o vestido ao chão, o que me ia atrasar um bocado, além disso sujava-se um vestido tão lindo e para mais não sendo completamente certo não haver ali ratos.
Portanto todas as terças feiras, agora é que é, saio depois do jantar para ir a meio da cidade, ouvindo a música que o rádio está a passar na altura, por exemplo uma ária de Bach, sabe muito melhor ouvir uma ária de Bach quando não se está à espera de ouvir uma ária de Bach do que quando sabemos perfeitamente que foi esse o disco que pusemos a tocar, portanto é assim que vou e vou apanhar três jovens com idades para serem minhas filhas e uma delas por acaso é mesmo minha filha, ao treino de voleibol. Faço a distribuição tipo carreira da noite, ao princípio dava uma grande volta porque me enganava sempre no caminho e uma das mães começava a ligar e a filha dessa mãe a dizer lá atrás sim, mãe, estamos quase, quando ainda eu não estava nada quase, mas a miúda não devia saber. Pelo caminho uma tagarelice sobre os passes, os serviços, o treino, enfim, aqueles nomes técnicos ditos muito depressa (elas falam sempre todas ao mesmo tempo) enquanto eu mergulhada no Bach, é um casamento de mundos que vai bem pela avenida da república fora e eu nestes momentos sou feliz sem querer (a imitar a Charlize Theron também).
Há três viagens atrás aproveitei uma distração na tagarelice e ataquei: então digam-me lá, alguém aí atrás gosta de ler?
- Ó mãe não comeces... - diz a minha filha.
- Não - diz a Joana.
- Sim - diz a Sara.
Isto ao mesmo tempo, evidentemente.
Claro que a Sara e eu fizemos a despesa da conversa o resto desse caminho, a miúda leva um avanço interessante considerando a idade tenra que tem, é a minha tia, diz ela, dá-me muito livros. A conversa das leituras da Sara tem pontuado as viagens desde aí, sem no entanto abandonar a Joana à noite que passa lá fora ou a Bach.
- Porque não lês, Joana?
- Não sei... acho que é porque não tenho livros.
Hoje ao jantar fui informada de que a Joana começou a ler um livro, que está a adorar e que já leu mais de cinquenta páginas. Ora isto também é situação para me fazer feliz.
- E que livro é, filha?
- Não sei, mãe... não me lembro...
Não faz mal. Amanhã é terça feira.
a voz à solta
30/11/2015
28/11/2015
Um anjo no hospital (post do tamanho de um episódio)
Sentou-se na cadeira ao meu lado na sala de espera improvisada num corredor do hospital. No colo uma mala de pele vermelha, pele vermelha parece que quer dizer índia, mas quer dizer pele vermelha. Da mala retirou um pequeno livro que folheou antes de começar a ler. As folhas curvaram-se em grupo umas sobre as outras e sob a pressão do seu polegar, depois com o alívio do polegar deixaram-se cair na mesma sequência, de novo aplanadas: o som que fizeram as folhas transportou-me para as leituras que fiz nas revistas das seleções do reader's digest há mil anos ou, diria mais, há cem (esta parte lógica baseia-se numa tirada do Obélix, caso contrário eu não me teria metido nisto, evidentemente). Entretanto, ela começou a ler. O livro está escrito em francês, mas eu não consigo daqui ler nada de jeito, e até queria aproveitar porque estou precisada de treinar o francês, mas esticar-me não posso, estou torcida com a dor que aqui me trouxe hoje.
Ao fundo deste corredor feito sala de espera surge um médico que se vê mesmo que é um médico. Aproxima-se dela e diz-lhe em voz relativamente baixa, mas eu capturo tudo, que o meu português continua bom:
- Ela diz para lá ir buscar os iogurtes, tem iogurtes para si.
Depois o médico sacode a cabeça e fala de novo, perante a minha companheira de banco, que ainda não disse nada.
- Mas olhe... eu acho que ela está é nervosa.
- Obrigada - falou agora.
Na minha cabeça formou-se a cena. Esta rapariga cujo francês é melhor que o meu e tem uma mala de pele vermelha está a acompanhar uma doente que tem iogurtes para ela e que não está aqui. Satisfeita com a minha própria dedução, encosto a cabeça na parede atrás de nós e tento relaxar, controlar a dor. De vez em quando a leitora do livro em francês solta uma pequena risada e nunca mais vai buscar os iogurtes. Eu um iogurte até ia, que já não como há imensas horas (não vou repetir a lógica do Obélix para não cansar, mas apetecia-me devido a estar radiante por afinal não ter tido uma faca cirúrgica do tipo bisturi a abrir-me a barriga hoje mesmo) claro que gosto das risadas da minha vizinha, mas fico quieta e continuo sem meter conversa, quero atentar às chamadas dos nomes, o meu há de surgir muito distorcido no altifalante e eu temo não o compreender, apesar de vir em português.
De repente ouve-se uma barulheira vinda do fundo do corredor de onde surgiu há pouco o médico, uma mulher com idade para ser minha mãe e de certeza avó (ou mesmo mãe, ai lá escapou) da rapariga do livro em francês, vem agarrada a um funcionário do hospital que tenta acalmá-la, calma, calma, já vamos, calma, e ela não se acalma, ó Cristina!, Cristina!, onde estás Cristina?, tenho aqui os iogurtes para ti, ó Cristinaaaa!
O rapaz que a acompanha condu-la ao assento vago do outro lado da Cristina, que fechou o livro e está a olhar para eles. A mulher senta-se pesadamente, traz um tubo enfiado na mão, diz que não vê nada, ó Cristinaaaa!!, diz, não, grita, grita que não vê nada, enquanto mete a mão com o tubo dentro da mala cuja cor já não me lembro qual era e procura os iogurtes, Cristina!, tu não comeste nada para vires para aqui comigo e eu estou preocupada, come os iogurtes! (os pontos de exclamação vêm com os gritos).
- Leonor, eu não quero iogurtes - afinal não se trata de mãe e filha (digo eu) nem avó e neta.
- Sim, queres, vais comer os iogurtes!!! Tu não comeste nada, Cristina!!! Eu trouxe-os a pensar em ti!!! - a mão continua dentro da mala e os gritos fora, por todo o lado, eu nesta fase já me tornei admiradora da Cristina.
De repente surgem de dentro da mala cuja cor me escapou, duas embalagens de gelatina de morango pronta a comer no caso de se ter uma colher.
- Isso não são iogurtes - a Cristina pôs em palavras o meu pensamento.
- Não são iogurtes?!
- Não - não tenho a certeza se foi só a Cristina ou se eu também articulei este não.
Mas ela não se fez rogada, espetou com as duas embalagens de gelatina e de secção quadrada, agarradas por um lado no topo, quem já foi ao supermercado e ainda não se fartou deste post de grandes dimensões está mesmo a ver como é, espetou com elas, dizia, em cima do casaco da Cristina, dobrado no seu colo,onde também está a mala de pele vermelha. Não tenho fome, diz a Cristina, come!, tens de comer!, grita a Leonor, mas isso não mata a fome de ninguém, penso eu.
- Está bem. Mas não posso comer isto assim, tens uma colher, Leonor?
A Leonor tem duas e volta com a mão entubada para dentro da mala, sem nunca parar de gritar - toda a sala de espera está, obviamente, a acompanhar, mas creio que mais ninguém tira notas (que são mentais, por causa da dor que tenho). Saem as colheres semi-embrulhadas num pedaço de papel com muito mau aspeto, uma delas está limpa!, grita Leonor, vê lá qual é, Cristina! E os seus dedos esfregam as colheres a ver qual delas é a limpa, o processo dá-lhe tempo de gritar que o médico foi um mal educado!, não, Leonor, o médico teve mesmo muita paciência, paciência?! com aquele tom?!, sim, dificilmente arranjas outro tão paciente. E continua: não tenho fome, Leonor, deixa estar. Nesta altura nota que o seu casaco está sujo, uma das embalagens está a verter gelatina derretida, olha, já me sujou o casaco. E limpa-o com a mão e com muita paciência.
- Então deita isso no lixo, pronto!
O altifalante diz o meu nome seguido de gabinete cinco. Já não vi se as gelatinas foram para o lixo, mas não foi preciso. Bastou-me trazer do hospital a certeza de que os anjos existem e de que foi por ter estado sentada ao lado de um, que a dor se foi embora e a minha barriga chegou a casa inteira.
Ao fundo deste corredor feito sala de espera surge um médico que se vê mesmo que é um médico. Aproxima-se dela e diz-lhe em voz relativamente baixa, mas eu capturo tudo, que o meu português continua bom:
- Ela diz para lá ir buscar os iogurtes, tem iogurtes para si.
Depois o médico sacode a cabeça e fala de novo, perante a minha companheira de banco, que ainda não disse nada.
- Mas olhe... eu acho que ela está é nervosa.
- Obrigada - falou agora.
Na minha cabeça formou-se a cena. Esta rapariga cujo francês é melhor que o meu e tem uma mala de pele vermelha está a acompanhar uma doente que tem iogurtes para ela e que não está aqui. Satisfeita com a minha própria dedução, encosto a cabeça na parede atrás de nós e tento relaxar, controlar a dor. De vez em quando a leitora do livro em francês solta uma pequena risada e nunca mais vai buscar os iogurtes. Eu um iogurte até ia, que já não como há imensas horas (não vou repetir a lógica do Obélix para não cansar, mas apetecia-me devido a estar radiante por afinal não ter tido uma faca cirúrgica do tipo bisturi a abrir-me a barriga hoje mesmo) claro que gosto das risadas da minha vizinha, mas fico quieta e continuo sem meter conversa, quero atentar às chamadas dos nomes, o meu há de surgir muito distorcido no altifalante e eu temo não o compreender, apesar de vir em português.
De repente ouve-se uma barulheira vinda do fundo do corredor de onde surgiu há pouco o médico, uma mulher com idade para ser minha mãe e de certeza avó (ou mesmo mãe, ai lá escapou) da rapariga do livro em francês, vem agarrada a um funcionário do hospital que tenta acalmá-la, calma, calma, já vamos, calma, e ela não se acalma, ó Cristina!, Cristina!, onde estás Cristina?, tenho aqui os iogurtes para ti, ó Cristinaaaa!
O rapaz que a acompanha condu-la ao assento vago do outro lado da Cristina, que fechou o livro e está a olhar para eles. A mulher senta-se pesadamente, traz um tubo enfiado na mão, diz que não vê nada, ó Cristinaaaa!!, diz, não, grita, grita que não vê nada, enquanto mete a mão com o tubo dentro da mala cuja cor já não me lembro qual era e procura os iogurtes, Cristina!, tu não comeste nada para vires para aqui comigo e eu estou preocupada, come os iogurtes! (os pontos de exclamação vêm com os gritos).
- Leonor, eu não quero iogurtes - afinal não se trata de mãe e filha (digo eu) nem avó e neta.
- Sim, queres, vais comer os iogurtes!!! Tu não comeste nada, Cristina!!! Eu trouxe-os a pensar em ti!!! - a mão continua dentro da mala e os gritos fora, por todo o lado, eu nesta fase já me tornei admiradora da Cristina.
De repente surgem de dentro da mala cuja cor me escapou, duas embalagens de gelatina de morango pronta a comer no caso de se ter uma colher.
- Isso não são iogurtes - a Cristina pôs em palavras o meu pensamento.
- Não são iogurtes?!
- Não - não tenho a certeza se foi só a Cristina ou se eu também articulei este não.
Mas ela não se fez rogada, espetou com as duas embalagens de gelatina e de secção quadrada, agarradas por um lado no topo, quem já foi ao supermercado e ainda não se fartou deste post de grandes dimensões está mesmo a ver como é, espetou com elas, dizia, em cima do casaco da Cristina, dobrado no seu colo,onde também está a mala de pele vermelha. Não tenho fome, diz a Cristina, come!, tens de comer!, grita a Leonor, mas isso não mata a fome de ninguém, penso eu.
- Está bem. Mas não posso comer isto assim, tens uma colher, Leonor?
A Leonor tem duas e volta com a mão entubada para dentro da mala, sem nunca parar de gritar - toda a sala de espera está, obviamente, a acompanhar, mas creio que mais ninguém tira notas (que são mentais, por causa da dor que tenho). Saem as colheres semi-embrulhadas num pedaço de papel com muito mau aspeto, uma delas está limpa!, grita Leonor, vê lá qual é, Cristina! E os seus dedos esfregam as colheres a ver qual delas é a limpa, o processo dá-lhe tempo de gritar que o médico foi um mal educado!, não, Leonor, o médico teve mesmo muita paciência, paciência?! com aquele tom?!, sim, dificilmente arranjas outro tão paciente. E continua: não tenho fome, Leonor, deixa estar. Nesta altura nota que o seu casaco está sujo, uma das embalagens está a verter gelatina derretida, olha, já me sujou o casaco. E limpa-o com a mão e com muita paciência.
- Então deita isso no lixo, pronto!
O altifalante diz o meu nome seguido de gabinete cinco. Já não vi se as gelatinas foram para o lixo, mas não foi preciso. Bastou-me trazer do hospital a certeza de que os anjos existem e de que foi por ter estado sentada ao lado de um, que a dor se foi embora e a minha barriga chegou a casa inteira.
24/11/2015
Post relativamente parvo, porém necessário
Não consegui
decidir qual a árvore mais bela de toda a avenida dom joão segundo à hora do almoço,
vou até dizer que se tratou aquilo de um orgasmo visual, tipo mesmo em grande.
No fim da alameda, eu já ia relativamente cansada de me forçar a desviar o olhar das
laterais arborizadas para não embater nos carros da frente quando, como se não bastasse tanto, apresenta-se-me um grupo de seis à direita, as
copas grandes de um verde escuro à excepção de uma mão cheiinha de folhas novas
de um verde claro, alinhadas duas a duas, as árvores frondosas, e com um tal entrelaçado de troncos
que faz lembrar notas de uma música antiga, perfeitamente habilitadas – digo eu – a fazer o olho de qualquer máquina fotográfica chorar de alegria, incorporada em telemóvel ou independentemente disso. Digo chorar de alegria para não
repetir a metáfora do orgasmo visual, o que, se formos bem a ver as coisas, não traz
grande diferença.
A dona Esmeralda
perguntou-me hoje à tarde, a meio do corredor, ao ver-me de mão na barriga, a minha mão foi estacionar-me na barriga sem
eu a mandar propriamente, perguntou-me ela então, não sem um certo entusiasmo no olhar, por cima dos seus óculos dourados, se
eu não estou por acaso de bebé: não está por acaso de bebé?... Está de se ver que não sabe ela a minha idade, mas eu, ai foi tão
bom ouvir aquilo, tão bom, que fingi não perceber, diga diga, dona Esmeralda, estou quê? só para ela repetir a pergunta,
assim em voz baixa e com a cabeça mais próxima de mim do que estaria se me perguntasse que horas são.
- Não, dona Esmeralda, não estou de bebé.
- Não, dona Esmeralda, não estou de bebé.
Mas que me deu
vontade de estar, ah deu. Era da maneira que não pensava no novo governo, nem no avião militar russo abatido, não pensava no presidente nem nos ministros nem nos atentados que não me canso de incompreender, nem sequer nos refugiados, não pensava em coisa
nenhuma que me afligisse porque quando estamos de bebé, temos incorporados filtros muito bons. De forma que recomendo, para quem ainda puder.
É que acima de tudo, já agora, este nosso mundo precisa de mais gente boa. E nós, a gente boa, de podermos continuar a apreciar as belezas do nosso caminho. Em paz e de bebé na barriga. Ou não.
Tikka masala
Saio de casa tentando refazer mentalmente o caminho para a garagem onde levo o carro uma vez por ano à manutenção, normalmente engano-me (hoje também). Já dentro do grande hangar onde penso sempre que não me importava de trabalhar, espero uns minutos enquanto outros clientes que entregam carros da marca do meu - detalhe que sempre me faz sentir ligeiramente irmã daquelas pessoas - contam coisas. Ao chegar a minha vez - quem está a seguir, estou eu - sou informada de que precisamos de dois pneus novos e mais algumas coisas específicas para automóveis. Os de trás estão bons, perguntei, os de trás estão bons, ouvi. Respirei um pouco de alívio e foi quando me ofereceram um carro novo, um motor isto, uma tecnologia aquilo (as voltas que uma pessoa dá para não dizer que carro é este), muito interessante, para eu experimentar, a única coisa que lhe pedimos, minha senhora, é que preencha este pequeno questionário e nos diga a sua opinião sobre o carro no final do dia, quer, quero. Fui, no caminho para o trabalho (nesse nunca me perco), a ser conquistada sem hesitação e, posso mesmo dizer, à maluca - a tal ponto que quase me resvala a vontade para pensamentos completamente fora da caixa - pelo carrinho de pequenas dimensões, mas que giro é o carro. Ou seja, chego ao trabalho muito bem disposta sem querer, acho impossível não ser conquistada por um carro novo, afinal deve ser tão somente isso, seja lá ele que carro for, os estofos desportivos, os pespontos brancos e grossos, o volante todo ergonómico, o azulinho daqui e dali, o rádio na TSF, que rico carrinho, a câmara de estacionamento que me mostra linhas no pavimento e me confunde a manobra, mas isso o problema é meu, evidentemente.
O dia de trabalho fechou em queda (deixei cair uma caixa pesada ao chão ao tentar abrir uma porta estúpida que nem ela, a maçaneta polida sem querer rodar, a caixa a escorregar-me dos braços com equipamentos caros dentro, um deles... ai) portanto saltamos esta parte.
No final do dia, antes de me atirar para o fogão, em casa, a fazer o jantar, e depois de ter entregado o carro que de manhã me conquistou tanto e por mim esperou estacionado o dia inteiro, toda aquela tecnologia ali e eu nada, depois de preenchido o questionário sobre a minha opinião e trazido o meu com dois pneus novos e mais umas peças próprias para carros, já tinha dito, e agora está o período a ficar grande, passei no supermercado. Na caixa, arrumei as compras nos sacos à velocidade mais alta que consegui, quero ir para casa. Duas maçãs reinetas saltaram para fora do saco em que as meti, rolaram para o chão e eu fui atrás delas. Apanhei uma de cada vez enquanto a empregada me anunciava os sessenta euros que eu devia pagar, e meti-as num outro saco. Ouvi então alguém dizer olá e percebi que já era um segundo olá. A mãe de um amigo da minha filha ali na caixa também, a sorrir de me ver de rabo para o ar atrás das maçãs, eu sei bem ler sorrisos, como está, estou bem, trocámos os beijos, ela trazia o cabelo bonito e eu perguntei-lhe pelo filho, se está a gostar do curso, o miúdo entrou na universidade e estuda precisamente o mesmo que eu estudei, que belos tempos foram aqueles, pago as maçãs reinetas e o resto, suspiro, volto para os pneus novinhos em folha com pedacinhos de borracha espetados para fora e vamos para casa.
Inventei tudo, claro. Um prato indiano que levou uma tikka masala pré-preparada e pedaços de uma das maçãs reinetas, metade de um pimento vermelho, frango aos bocadinhos e alho francês, cebola e sementes de mostarda, folhas de caril e quando invento sai bom. Depois de arrumar a cozinha, sentei-me a escrever. Tinha de contar do carrinho novo que hoje foi meu por vinte quilómetros. E a escrever eu não invento. Nota-se.
O dia de trabalho fechou em queda (deixei cair uma caixa pesada ao chão ao tentar abrir uma porta estúpida que nem ela, a maçaneta polida sem querer rodar, a caixa a escorregar-me dos braços com equipamentos caros dentro, um deles... ai) portanto saltamos esta parte.
No final do dia, antes de me atirar para o fogão, em casa, a fazer o jantar, e depois de ter entregado o carro que de manhã me conquistou tanto e por mim esperou estacionado o dia inteiro, toda aquela tecnologia ali e eu nada, depois de preenchido o questionário sobre a minha opinião e trazido o meu com dois pneus novos e mais umas peças próprias para carros, já tinha dito, e agora está o período a ficar grande, passei no supermercado. Na caixa, arrumei as compras nos sacos à velocidade mais alta que consegui, quero ir para casa. Duas maçãs reinetas saltaram para fora do saco em que as meti, rolaram para o chão e eu fui atrás delas. Apanhei uma de cada vez enquanto a empregada me anunciava os sessenta euros que eu devia pagar, e meti-as num outro saco. Ouvi então alguém dizer olá e percebi que já era um segundo olá. A mãe de um amigo da minha filha ali na caixa também, a sorrir de me ver de rabo para o ar atrás das maçãs, eu sei bem ler sorrisos, como está, estou bem, trocámos os beijos, ela trazia o cabelo bonito e eu perguntei-lhe pelo filho, se está a gostar do curso, o miúdo entrou na universidade e estuda precisamente o mesmo que eu estudei, que belos tempos foram aqueles, pago as maçãs reinetas e o resto, suspiro, volto para os pneus novinhos em folha com pedacinhos de borracha espetados para fora e vamos para casa.
Inventei tudo, claro. Um prato indiano que levou uma tikka masala pré-preparada e pedaços de uma das maçãs reinetas, metade de um pimento vermelho, frango aos bocadinhos e alho francês, cebola e sementes de mostarda, folhas de caril e quando invento sai bom. Depois de arrumar a cozinha, sentei-me a escrever. Tinha de contar do carrinho novo que hoje foi meu por vinte quilómetros. E a escrever eu não invento. Nota-se.
18/11/2015
Isto tinha sido ontem, mas não quis fazer dois posts no mesmo dia
O chili que
sobrou do jantar passou a noite em cima do fogão desligado de propósito. Pela manhã estava o
tacho aflitinho para o levar ao frigorífico passar o resto do dia muito fresco.
À hora do almoço já o meu chili livre de quenturas mas não de frescuras, e diz-me na cantina a dona Esmeralda quer sopa? hoje não obrigada, então não
tem fome, não tenho fome. Resposta perante a qual - reparar bem nesta maravilha que me aconteceu - ela me questiona, evidentemente.
- Mata-bichou tarde, foi?
- Mata-bichou tarde, foi?
Pausa feita por mim neste momento.
- Mata-quê, dona Esmeralda?
- Se mata-bichou tarde, menina. – a dona Esmeralda já não me trata por menina mas eu nem sempre encaro as verdades de frente se não forem muito lindas – não conhece a expressão?
- Mata-quê, dona Esmeralda?
- Se mata-bichou tarde, menina. – a dona Esmeralda já não me trata por menina mas eu nem sempre encaro as verdades de frente se não forem muito lindas – não conhece a expressão?
Ela já está toda satisfeita a olhar-me trocista por cima dos seus óculos conhecidos de ginjeira em toda a Lisboa e Vale do Tejo, gosto imenso de dizer Lisboa e Vale do Tejo, e
já me apanhou na curva do tabuleiro que seguro nas mãos, desta vez ganha ela.
- Não, não conhecia o verbo mata-bichar. É um verbo interessante na medida em que a parte que se conjuga é aquela que a solo não é verbo nenhum e vice versa mas isto claro que eu não lhe disse, antes levei o pensamento assim encadeado no tabuleiro sem sopa para a mesa e sentei-me com a elegância que me apeteceu. O que eu disse ao sentar-me com a elegância que me apeteceu foi é muito giro esse verbo, dona Esmeralda.
- Não, não conhecia o verbo mata-bichar. É um verbo interessante na medida em que a parte que se conjuga é aquela que a solo não é verbo nenhum e vice versa mas isto claro que eu não lhe disse, antes levei o pensamento assim encadeado no tabuleiro sem sopa para a mesa e sentei-me com a elegância que me apeteceu. O que eu disse ao sentar-me com a elegância que me apeteceu foi é muito giro esse verbo, dona Esmeralda.
Tão giro que
nessa tarde, ao fazer a escolha do almoço da semana seguinte, lá no trabalho somos muito
organizados nessa matéria, quase me fugiu a caneta e pus a cruz da terça feira no
ensopado de borrego para impressionar a Carla, que me afiança há anos vai para
décadas que o ensopado de borrego da nossa cantina é uma maravilha (e a Carla é boa cozinheira, dizem), uma maravilha ou muito bom, depende dos dias, mas ela garante. Eu cá borrego nunca comi, toda a gente sabe isso, não precisamos de ir à minha mãe perguntar, bastou-me cheirar uma vez a panela ao lume tinha eu uns sete anos, fugi. Portanto não, desviei a caneta e votei no prato da dieta como convém às gordas e depois fui para casa tarde e pensei que podia muito bem deixar de ser esquisita, talvez os borregos de hoje sejam mais suaves no cheiro da cozedura, e ia e provava o ensopado
para depois contar como ficou admirada a Carla ao observar-me a mim e ao borrego e assim fazer um post como deve ser.
(o chili continua no frigorífico - uma das colegas mais inteligentes que tive em toda a minha vida tinha a palavra frigorífico como password do computador, por isso de vez em quando ocorre-me dar notícias frescas)
(o chili continua no frigorífico - uma das colegas mais inteligentes que tive em toda a minha vida tinha a palavra frigorífico como password do computador, por isso de vez em quando ocorre-me dar notícias frescas)
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