Já era de noite. Os carros a passar, a apitar, a acelerar, a fazer
enfim coisas de carros, bufando no semáforo vermelho enquanto não sai o verde. Enchi-me
de animação. Tinha vinte e seis minutos para fazer o trajeto. Então saquei do
telefone inteligente e chamei a app já por tempo pertencente ao meu conjunto pessoal
de apps por estrear. Ora logo à cabeça o ecrã mostra um mapinha cheio de moscas.
Pareciam moscas a tremer, eu sem óculos de ver bem, a noite caída como já
disse, as luzes dos candeeiros de rua a não ajudar imenso. Adorei as mosquinhas,
é verdade, ainda me distraíram lembrando os jogos no computador velhinho, onde
já vão esses tempos. Mas logo percebi a cena, as moscas eram carrinhos, oh c’amooor
como diz a minha irmã Ana imitando as suas alunas, repito-me, e fui informada que
o carro estava a dois minutos de mim. O carro? Mário?! Quem é o Mário? Já?! Mas aceitei
tudo o que apareceu para aceitar no modo userfriendly e avancei para a relação
iminente. Não correu bem. O carro chegou tão depressa, quais dois
minutos de nada de magrinhos, que eu nem tive tempo de pestanejar e ajeitar-me
ali no passeio eu toda animada. Resultado, não interpretei que aqueles faróis quase à
minha beira eram os supostos guardiães da matrícula que eu devia reconhecer e que,
óbvio, se encontrava invisível devido à noite e às luzes a encandear-me. O meu
ex-futuro primeiro motorista Uber desistiu de mim e pirou-se. Mário! Vi que era
ele, quando passou bem perto, mas já era tarde demais. Logo olhei para o ecrã na minha mão lançando
chispas dos olhos encandeados e dizendo a mim mesma que afinal a paragem de
autocarro é que vai ser, mania de modernices que não me querem para nada. Porém a safada da apezinha agarrou-me pela rapidez no serviço, pela inteligência, pelo
golpe de cintura e nem um passo eu dei, logo passei a estar com um novo
motorista Álvaro?! a quatro minutos de mim. E desta vez a coisa deu-se, a app é minha amiga, isso eu posso dizer que senti. O carro,
quando entrei, boa noite, com licença, a cheirar tão bem de lavadinho (o meu
carro também quer!!), o som ambiente meio que acolhedor, eu logo fiquei tranquila. A
viagem aconteceu lindamente, incluindo vislumbrar fotografias do bebé do motorista, Álvaro!, o bebé é tão parecido consigo!, que era, e então bebés, que eu adoro, o oh
c’amoooor é aqui que fica. Logo quis saber o Álvaro se eu ia a apanhar muito
ou pouco vento, que eu dissesse caso algo não esteja em conformidade, eu disse
pouco vento, muita conformidade. E pouco também foi o que paguei, um euro e
dezoito cêntimos a mais quando compararmos com a opção dois autocarros mais uma chance de me tresmalhar. Cheguei ao destino faltavam dois minutos para a hora marcada.
E no fim ainda veio mail a informar que estou muito bem cotada na rede, diz que
sou cinco estrelas. Ah pois é.
a voz à solta
31/10/2019
Uberizei-me
Ontem, quando precisei de me transportar da Av. Almirante
Reis para o Campo de Ourique em hora pulsante de tráfego, sito em Lisboa, e estando o
meu carro a marcar lugar longe de mim, fui ver as minhas opções. Tomar dois
autocarros desconhecidos e meio descoordenados, oferecendo probabilidades, sendo eu a
passageira, de errar o alvo na paragem de descida ou sabe-se lá de que outros desvios seria capaz. Então senti que tinha chegado o momento de dar o passo.
29/10/2019
Um bom coração era para ser aqui
Há muito tempo que não faço uma ligação aqui neste pequeno blogue empoeirado e com uma ou outra teíta de aranha, só um momento, ultimamente deu-me para gostar de aranhas e também de osgas, está bem está, já me deve faltar pouco para abraçar um gafanhoto, ai senhores, mas não me querendo desviar do foco, o que eu vinha dizer é que hoje ando bem disposta, bem mais do que devia e já lá vamos.
Do que devia?! (que estranho) Tendo em conta que a minha casa foi assaltada de fresco com pés e mãos de lã, outra vez, é isso que quero dizer. Pensava eu e os polícias (no último ano entraram em minha casa uns doze polícias ao todo e acho que não me falta conhecer nenhum dos que ficaram de fora), e toda a minha família e arredores também pensava que os miseráveis já se tinham empaturrado com o que levaram das outras vezes e agora, com fechadura nova de alto gabarito, se teriam desencorajado, porém não.
Isto somado ao apito nos ouvidos e à dor de cabeça que ainda não saiu, dava para andar cabisbaixa.
Mas logo ontem, dia em que me dediquei à esquadra da Polícia da área de atuação, obviemos os pormenores, li um post num outro blogue que me alegrou por dentro e veio mesmo a calhar essa alegria. Era aqui que eu queria chegar quando peguei lá em cima e depois derrapei. Não li só um post num outro blogue, atenção, li vários em vários blogues e como só leio o que gosto, em todos me alegrei. Mas este que vou dizer alegrou-me por dentro por causa da imensa generosidade, que é o mesmo que dizer, por revelar um bom coração.
Se há coisa que me faz feliz é tropeçar num bom coração. Ora o post é este.
(Penso que na lista referida no post linkado está este blogue da teíta de aranha, e isso poderia pôr em causa a imparcialidade da minha manifestação. Pois paciência, não chega para me deter.)
25/10/2019
Por obséquio
Tenho em mãos um trabalho de tricô que já não se usa. Mesmo eu, teimosa veterana rejeitante de novidades de que não sinto falta e portanto fora de moda, mal lhe pego! Por vezes, levo-o a passear de carrinho para aqui e para ali, acondicionado no seu saquinho e bem acompanhado de intenções. Até lhe comprei umas agulhas circulares para, no comboio ou numa sala de espera onde me possa eu encontrar, não dar agulhadinhas em quem me ladeasse e aí pôr-me a produzir à vontade. Só espero que não dar agulhadinhas em quem me ladeasse esteja suficiente para se visualizar a cena hipotética que as agulhas circulares vêm salvar. Mesmo assim, todo equipado e prevenido, o trabalho já vai ganhando um pózinho por cima que é revelador.
Tudo isto porque, quando acabei as obras em casa, me enchi de entusiasmo e decidi não comprar mas fazer capas novas para duas almofadas dos sofás (não vou nem a meio da primeira) e agora, instalada no comboio regional, o outono holandês a deslizar, todo querido, na janela, eu bem calminha, o tricô já ia. Mas só se eu não o tivesse deixado ficar em Lisboa, claro, que um trabalho destes não se pode guardar na nuvem ou pedir a alguém que de lá mo envie por obséquio e por Whatsapp ou por e-mail num instante. Olha que lindo.
22/10/2019
Ata Luna. Spânia.
Há dias, precisei de comprar, com certa urgência, uma caixa para transportar animais. Gatos, por exemplo. E como não dispunha de vontade de procurar em lojas da especialidade, longe de mim, fui à loja dos chineses que não só estava perto de mim, como já sabemos que tem lá tudo (mas tudo, um enigma).
A chinesa dona da loja, que conheço há anos de a ver ali atrás do balcão, mas acho que ela nunca se lembra de mim, indicou-me o corredor especializado em oitocentas coisas incluindo caixas de transporte de animais.
Lá fui eu por ali fora, o corredor não é dos curtos, e escolhi uma caixa azulinha com corpanzil para levar dois gatos de uma vez, pareceu-me, e ainda aproveitei para registar na memória os restantes artigos afins. Nunca se sabe.
Quando me pus a caminho de regresso à caixa de pagamento com a caixa de transporte na mão, uma mesma palavra pode dar para tanto, ela estava ao telefone a falar o que para mim era completamente chinês. Abrandei então o passo e fingi interessar-me pelos chinelos de quarto ali pendurados suficientemente perto para me permitir ouvir a conversa. Os estalidos e as exclamações, evidentemente, aquilo encanta-me. De resto, é, como já disse, chinês. Quando decidi que já chegava de ouvir chinês, aproximei-me do balcão e a dona da loja terminou a conversação e olhou para mim.
- Qué chineu? Qual qué numbo?
Até aqui ainda se traduz bem.
- Não, obrigada, estava só a ver.
E depois confessei.
- Gosto muito de ouvir falar chinês.
Sem se impressionar com o que eu disse (afinal se calhar lembra-se de mim) ela esclareceu-me, então, sobre o teor da conversa, deduzindo, bem, que esse eu não tinha podido interpretar.
- É Ata Luna.
- Como?
- Ata Luna. Spânia.
- Como, desculpe?
- Ata Luna, Ata Luna. Spânia.
- Espanha? Tem familiares em Espanha? - experimentei.
- Si, Ata Luna.
E então mostra-me, no seu telemóvel, as imagens dos protestos que decorrem na Catalunha.
Quando dou formação sobre temas nada a ver, costumo ainda assim mencionar que a comunicação é fundamental. Continuo, porém, a sentir que não se lhe dá a devida importância. Continuo, também, a sentir que, se a comunicação tivesse palavras e tivesse ouvidos em proporção equilibrada, talvez muitos protestos, destes e doutros, pudessem ser evitados. E como fiquei dias a pensar neste episódio da loja dos chineses, tinha de vir aqui contá-lo ainda antes de pegar ao trabalho. Bom dia!
- Gosto muito de ouvir falar chinês.
Sem se impressionar com o que eu disse (afinal se calhar lembra-se de mim) ela esclareceu-me, então, sobre o teor da conversa, deduzindo, bem, que esse eu não tinha podido interpretar.
- É Ata Luna.
- Como?
- Ata Luna. Spânia.
- Como, desculpe?
- Ata Luna, Ata Luna. Spânia.
- Espanha? Tem familiares em Espanha? - experimentei.
- Si, Ata Luna.
E então mostra-me, no seu telemóvel, as imagens dos protestos que decorrem na Catalunha.
Quando dou formação sobre temas nada a ver, costumo ainda assim mencionar que a comunicação é fundamental. Continuo, porém, a sentir que não se lhe dá a devida importância. Continuo, também, a sentir que, se a comunicação tivesse palavras e tivesse ouvidos em proporção equilibrada, talvez muitos protestos, destes e doutros, pudessem ser evitados. E como fiquei dias a pensar neste episódio da loja dos chineses, tinha de vir aqui contá-lo ainda antes de pegar ao trabalho. Bom dia!
20/10/2019
Perdido por cem perdido por mil (contudo nem sempre)
A passageira parisiense que, na estação de Biarritz, veio
sentar-se no lugar ao meu lado, primeiro assustou-me devido à enormidade da mala
que trazia. Para avançar no corredor central e único do comboio
de grande velocidade, a senhora puxava a mala com visível esforço. Por sugestão sua, para que melhor nos encaixássemos ambas, eu deslizei com a minha tralha já em ação
desde há três estações atrás, computador e os afins do costume incluindo uma
garrafa de água, para o lugar à janela, o seu, e ela senta-se no meu, mais acessível
para manter a sua grande mala debaixo de olho, que tal? Por mim, está
excelente, digo. Fico portanto a ver a França passar a grande velocidade mais
perto dos olhos. Mas, após o susto inicial e pronto a ser ignorado, um atraso que
nasceu pequenito foi crescendo a cada paragem, cedo começando a ameaçar a
tranquilidade da viagem e aí oferecendo um susto maiorzinho. Isto porque no meu caso
não adoro perder o próximo comboio e ficar entregue ao natural fluir do encadeamento
da vida, por vezes recheado de injustiças prontas a saltar para fora da caixa
delas (agora usa-se muito isto da caixa, especialmente do lado de fora). Eu
seguia concentrada no meu trabalho, mas ainda assim pude reparar na quantidade desabitual
de passageiros extra a entrar no comboio. Eles provêm de uma longa espera visto
que, informou-me a nossa passageira (passa a nossa), os dois comboios anteriores haviam sido cancelados devido a certa
greve. Mau. Eu a pensar que tinha tido sorte por ter escapado à greve o meu
comboio (meu, mas não muito muito) e que portanto ia fazer a viagem lindamente. Começaram,
então, a acumular-se passageiros no corredor, metidos com as malas,
passageiros, outros, sentados nos degraus das escadas entre os dois pisos do material
circulante (ou podemos repetir comboio), e no chão, em frente à casa de banho, já toda inacessível, sentavam-se outros passageiros nos interstícios
deixados pelas bagagens. No altifalante, o chefe de cabine ia pedindo milhares
de desculpas, às mil de cada vez, pelas condições e pelo atraso, ok. A dada altura
percebi que ia perder a ligação seguinte, a margem de que dispunha estava já
consumida até ao limite. E foi aí que a passageira parisiense ao meu lado me tentou
ajudar (eu tinha-lhe contado da minha possível perda iminente). Mostrei-lhe, na app, as minhas intenções de apanhar o percurso de metro recomendado por ela, app, para chegar à estação seguinte, a bela Gare du Nord, e aí um novo comboio (uma
espécie de complicação). Ora esta senhora, certificada e validada pela sua condição de residente em
Paris, instruiu-me noutra route, uma que, não parecendo, seria menos morosa,
mais minha amiga nesta hora da escassez dos minutos. Experimente, ela disse. Pensei aquilo do perdido
por cem perdido por mil, talvez esta nossa senhora tenha razão e, após saltar do comboio a rebentar pelas costuras o mais cedo que consegui, corri, furei o mar de gente
naquela estação de Montparnassetambém ela recheada demais, contornei as obras de uns melhoramentos, bem precisados esses melhoramentos, ó senhores!, a ver se já agora pelo caminho limpam a estação, pensei, desci
escadas quase a voar e fui. Tomei a nova route sugerida pela nossa senhora e à revelia da app.
E agora toma (vai buscar): não perdi o comboio por dez minutos, perdi-o por cinco. Um-zero para a nossa passageira, que ganhou à app!
(A greve deveu-se ao seguinte, para quem estiver
interessado: há dias, um comboio local, algures em França, uma composição com
duas carruagens, teve um acidente. O maquinista, único membro da tripulação na
composição – em comboios tão pequenos é a regra – ficou ferido no acidente e,
ferido, ajudou outros passageiros, também feridos. Os colegas, em todo o país, já
desde longa data contra atribuir a comboios pequenos apenas um trabalhador, que é
o maquinista, fizeram esta greve, querem mais tripulação nas composições.)
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