a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

07/04/2020

Um post por dia até ao fim do Corona - 23

Telefonei ao veterinário. Um pouco envergonhada, é certo. Perguntei primeiro se por lá estava tudo bem. Estava, estava, mas com menos pessoal, horário reduzido. Ah, que bom. Haveria, então, continuei, possibilidade de cortarem as unhas à gata devido a eu ser pouco rápida e nada experiente no manuseamento da ferramenta e ter um medo que eu própria sei lá de magoar a bichinha? E que desculpassem o incómodo por questão assim pouco premente, ainda disse. Não há problema, pode passar por cá, entrega a gatinha nas mãos dos profissionais de saúde animal e fica à porta. Os tutores não entram, compreende, ficam lá fora.
Eu não aproveitei para informar que tutora não sou de gata nenhuma, que isso é o quê precisamente, não. Pareceu-me desadequado em cima da pouca vergonha que eu já tinha (não era muita vergonha, portanto era pouca). Então optei por agradecer e desligar.
Também não informei que a gata em causa escolheu ela própria um outro tutor, sim tutor. Foi patinha para cá e patinha para lá, um interesse, uma atenção. Que houve uma tutoria toda ali, houve. Eis o registo em imagens que não me deixam mentir.
  




Mas tenho boas notícias: apanhei-a, depois de toda aquela interação com o seu tutor na televisão (interativa, claro), a dormir. De modo que me enchi de coragem e, com sua licença, comecei numa pata e acabei noutra. Contam-se atualmente dezoito unhas de gato no meu logbook. Dezoito pontinhas, por segurança.  

06/04/2020

Um post por dia até ao fim do Corona - 22



Eis a prova de que, entre a minha pessoa e a grande Palmy Rego, saudosa artista que queremos DE VOLTA!!!!!!, nota-se apenas uma diferença: o detalhezito da barriga dos papagaios devido à falta de lápis de cor amarelo-sol na coleção da minha filha, mas isso perdoa-se, não perdoa-se? 

05/04/2020

Um post por dia até ao fim do Corona - 21

E agora mais uma contribuição da Catarina, desta vez em chinês!!!

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Estava no computador, a trabalhar e a ouvir o meu filho adolescente a jogar Fortnite com os amigos. Então decidi interromper o trabalho por um pouco para dar nota que, nesta quarentena, estou a aproveitar para me cultivar e aprender uma nova Língua, que se deve chamar qualquer coisa como adolescente-a-jogar-fortnite-ês. Antes de mais, aprendi que, neste jogo, todos se chamam “Zé”, ou “Mano”, ou “Puto”. Em momentos de desespero é “Puuuuuto” (com uma voz ligeiramente esganiçada). E, como sou uma boa aprendiz, já sei articular algumas frases deste novo dialeto. São elas:

- Mano, quando estás a fightar, não uses só a shotgun.
- Tens quantas kills?
- Zé! - eles são vários, mas na verdade também pode ser o Mano de há pouco - Estou a soro!
- Puto! Estou todo légado!!!
- Maaaaano, levei uma snaipada!
- Ahhhhh, estou a zero de viiiida!
E quando os companheiros de jogo adotam todos o mesmo nome,
- Putos, baza jogar squads?

Seja lá o que isso for... 

Entretanto, descobri que esta linguagem pode dar azo a más interpretações porque, a certa altura do jogo, ouvi-o comentar, com alguma desilusão na voz: 
- Mano, já sei porque é que eu morri... porque léguei!
Ora, fazendo o exercício de ler o comentário do rapaz em voz alta, facilmente se percebe a dúvida. Exato... foi isso mesmo que eu percebi. 

Catarina Rodrigues

04/04/2020

Um post por dia até ao fim do Corona - 20

- Ah! Desculpe, não era para si!

Eu tinha atendido o telefone com o entusiasmo correspondente.

- Dona Esmeralda, há quanto tempo!
- Não era para si, desculpe... andava a tentar apagar o número de uma pessoa que morreu e liguei para si.
- E como eu ainda não morri, atendi. Como está?
- Olhe, sei lá. Estou! Tal como todos, nesta prisão!
- Então já não vai trabalhar?
- Ai vou, isso vou! Levo um cachecol enrolado a tapar a boca e o nariz e apanho o autocarro. Mas lá no refeitório andamos todas de máscara e luvas, tem de ser. As outras pessoas não, quando vão comer não levam máscara e sentam-se dois em cada mesa, naquelas mesas compridas, há turnos, está a ver?
- Deve ser cansativo andar de máscara todo o dia.
- Então não é?... Eu até parece que ando com a garganta esquisita. As gargantas não estão habituadas às máscaras, filha.
- Pois, acredito... Então mas ao menos vê gente, não está o tempo todo sozinha.
- Ó filha, mas eu queria ficar em casa, acho que era melhor, não acha? Sempre a lavar as mãos, de tanto em tanto tempo lavamos as mãos... eu até já tenho as minhas alcoolizadas.
Se já me estava a ser um bocado difícil gerir as gargantas não estarem habituadas às máscaras, agora é que escapou mesmo a gargalhada.
- Desculpe, Dona Esmeralda. É que ter as mãos alcoolizadas não é para todos.
Ela também se riu. 
- Ai a gente ri-se, mas isto é muito triste. Quando vou às compras, as pessoas é um passo para trás um passo para a frente, toda a gente a afastar-se, a ir de volta, é muito triste, filha.
- Olhe, mas isso do cachecol. Faz muito bem, tem é de o mudar...
- E mudo! Ainda hoje lavei dois. E como tenho cinco, é um para cada dia da semana, está tudo controlado! E olhe, combino o cachecol com a roupa, escolho o que dá melhor, e lá vou eu!
Agora rimos ao mesmo tempo. 
- Mas sabe, há uma coisa que me revolta.
- O quê, Dona Esmeralda?
- É os hospitais não terem tudo o que precisam e haver tanto dinheiro metido em estádios de futebol. A quantidade de estádios que se fizeram p'raí e ficaram às moscas, já viu? Depois vem uma coisa destas e os hospitais não têm o que precisam! Então não era de o dinheiro ter ido logo para os hospitais?

Como diria a Carla, com quem eu partilhava intervalos à beira da máquina do café com a D. Esmeralda por perto a nutrir a conversa: Já foste!

03/04/2020

Um post por dia até ao fim do Corona - 19

Hoje tive um lindo dia de folga. Quando, a meio da tarde, fui à rua pôr o lixo (não sei se já tinha trazido para aqui o querido tema de ir ao lixo), parei toda calminha junto à porta do prédio, do lado de fora, a apanhar uma aragem relativamente composta num espectro de temperatura com ares de primavera. Ares, literalmente. Ora enquanto estava nesta parada a aproveitar-me da situação e sem ir a correr devolver-me à minha casa, ao aspirador e ao pano do pó, como devia, li os editais que a Junta afixou na porta com informações está-se mesmo a ver relativas a quê. Um dos editais com um texto longo, mas eu - que leio as embalagens de champô, do leite e dos cereais de pequeno almoço - li-o. As lojas que estão abertas, as que fecharam, o que temos de fazer se sentirmos isto ou aquilo, números de telefone e horários, linhas de apoio e, bem presente, destacada pelas maiúsculas com que nasceu, por todo o texto de alto a baixo, a palavra de ordem: COVID-19.
De repente, já nas últimas linhas, encontro-a. Fruto, quem sabe, de um cansaço de ser, de um suspiro de esperança, do escapar de um dedo crente ou, sei lá, de uma ação intencional, a mutação: COVIDA-19.