a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

06/10/2015

Lombinho na brasa e o prémio Nobel da Física

Gosto muito de saber que os neutrinos sempre têm massa. Mas se não a tivessem eu gostava na mesma, os neutrinos intrigam-me, encantam-me e mais coisas, mas hoje não. Que oscilam, não me admiro. Vindos do sol a abrir, trazem o fogo no rabo (quem tem massa tem rabo, suponho), atravessam o que for preciso sem olhar para trás (se olhos não for o caso, fica a metáfora), mas isto sou eu a inventar. O que gostava muito de saber a seguir, se os senhores não se importassem, é qual a probabilidade de, ao longo de uma vida humana, um neutrino mais gordinho, vamos supor, todo oscilante, colidir às cegas (os olhos já se sabe) com uma célula das nossas, coitadinha, está visto que apanhará o susto da sua vida, e eu queria saber se a colisão é tal que faz apenas cócegas à gente ou se é valente e pode mesmo deslocar do lugar (do pé para a mão, por exemplo), a célula atordoada ou, pior, mudar-lhe as funções sem mais nem ontem, depois de tantos anos de especialização no ofício. Ou seja, que quantidade de energia traz o neutrino afinal, o rechonchudo, no lombo? Lombo de neutrino, se faz favor. Lombinho? pode ser. Sim, com massa. E na brasa, que eu ainda não jantei.

(Post terminado a martelo, para ficar pequenino como o seu mentor, ainda que maciço - ah maroto!, quem diria, uma coisita de nada e vai-se a ver pimba, massa com ele! - e não, o acabar do post, para evitar que continuem a chover tolices, como pode ter parecido.)

05/10/2015

Todas e cada uma contam

Reparo que na página de escrutínio onde consta o meu nome de eleitora que sou, já toda a gente, companheiros de folha no caderno eleitoral, tinha ido votar. Tola, ocorre-me que se isto fosse amostra representativa do universo, abstenção nem vê-la, um grande zero é o que é, ou quase, como no livro em que Saramago ensaiou sobre a lucidez, e parvamente sorri.

Duas horas na autoestrada a caminho da urna olhando os loendros do separador central, que ainda estão em flor, e faço a lista de razões mentalmente. O que levará um cidadão a optar por não votar, ora deixa lá ver. Reflexão no modo o melhor que sou capaz e são três as razões que me restam como válidas: depressão profunda, incapacidade física para o efeito, ausência do país por motivo de força maior. Mais não me ocorre em tantos quilómetros de loendros. Sobrou ainda tempo, é verdade, para conferir que me mantenho indecisa quanto à cor da flor que lhes prefiro, se branca se rosa (se isto parecer piada política, não é, nem isso nem eu indecisa).

E depois vem aquilo da página onde os dedos escrutinadores que procuravam o meu nome por inteiro pararam e em voz alta alguém confirmar que eu sou eu, estou aqui (aperto sempre a mão do presidente da mesa, porque na verdade gosto à brava de votar, de estar ali, haja o que houver), e depois veio aquilo de esta vou-dizer-minha página estar cheiinha de vistos nos quadrados em frente dos outros nomes, ah vizinhos!, veio aquilo de eu sorrir e sonhar em me orgulhar absurdamente por fazer parte de um povo que se recusa a ficar indiferente e faz valer a sua voz, veio aquilo de ter a mania que é agora que a coisa vai. 

Acho vergonhoso o tamanho da nossa abstenção. 

Pois também o oceano é feito de gotas de água. Muitas e muitas, mas todas e cada uma contam.

03/10/2015

Em estado larvar bem perto de si

Como quereis vós, homens com sede, que eu me detenha somente em tarefas nobres e rejeite escrever tolices, se me é dado ouvir no rádio do carro, logo pela manhã, antes mesmo de dar entrada no habitual sistema de entradas, uma coisa do tipo peça orquestral em estado larvar?

Ora isto é composição que se ponha assim completamente na emissão de uma estação de rádio do tipo antena dois, neste escorvar de mais um outubro, composição que uma pessoa do tipo eu, em tendo um blogue activo, não é capaz de deixar passar em branco e vai e posta aqui o quê? Uma curta metragem (é a fase das curtas).

Lembro que começava o agosto a cair de maduro quando nos cai a nós, aqui em casa, uma comunidade de vespas crescidas a pedir atenção urgente. Atenção bem orientada que foi, culmina com Peça orquestral em estado larvar em exibição num dispositivo bem perto de si e por exemplo não saia do seu lugar.

Aviso: O vídeo que se segue tanto pode conter imagens chocantes como provocar reminiscências de break dance baseado em contorcionismo. Não experimentei fazer em casa e detesto contorcionismo. Mas não este.


A orquestração esteve a cargo da mãe natureza, o estado pertence às tais vespas.

(nota para os eventuais atentos ouvintes da antena dois: este post deve-se ao dia um do corrente e chega de notas) 

30/09/2015

Post sobretudo mais ou menos curto

Ao almoço não quiseste sopa, eu comi a de ervilhas. Algumas inteiras, as demais em união irreversível, cremosa, de um tom de verde que me aprisionou os olhos por causa da sedução cromática à qual já sei desde os vinte e cinco anos de idade que sou sensível. Gostava de ter um casaco de inverno deste tom de verde era o meu pensamento, estava até a ver-lhe a textura macia, a imaginar-lhe os botões de massa do mesmo tom, grandes, o casaco forrado para deslizar melhor no abraço de o vestir, o que eu gosto de casacos e eles de mim, de certeza que é isso, quando tu repetiste que estás ansiosa pela tua primeira aula de condução, logo à tarde. Pestanejei nas ervilhas para me libertar e virei o olhar para ti, sinto-me sempre um tanto culpada por desviar a atenção de quem está presente, absorta no meu mundo vibrante que é magnético, eu que tenho teorias tão bonitas, ainda por cima eu e os casacos e as cores, elas hábeis sugam-me em vórtice, algumas cores, e se eu quisesse exagerar diria todas mas não. Sentada à minha frente, continuas a falar e a sorrir, mexes as mãos, inclinas a cabeça, ainda não sabes que és linda e és tanto. Pedi-te para repetir, o que disseste, filha? Enquanto te olhava não te ouvi, uma das minhas teorias desdiz a de as mulheres fazerem múltiplas coisas em simultâneo, mentira imensa. E tu vais de fazer a inclinação de cabeça e o olhar maroto, depois a pausa, a seguir baixas mais a cabeça e olhas reprovadora a fingir para mim: Ó mãe, pára! Mas parar de te amar com os olhos não farei até morrer. Retomas o assunto da condução, da aula que vais ter, que estás nervosa, esperas ser capaz, dizes, e torces as mãos no colo, não preciso de as ver para saber que as torces, és tão bonita, filha, e não sabes que é tão bom estar aqui a almoçar contigo enquanto o meu lugar lá na cantina vazio.

Sucedeu este almoço não hoje mas há uma lua talvez e eu apanho este rascunho no monte de rascunhos que é o meu. Pensei que era capaz de dar um post mais ou menos, mais ou menos curto, sobretudo. Longo não. Longo há-de ser o meu casaco sopa de ervilha. Casaco não, sobretudo.

28/09/2015

A primeira lição

Também o meu foi um dia longo. Mas ainda o vou esticar mais um bocado porque isto tem de ser escrito.

Tomei o pequeno almoço com o sol a nascer à minha direita e a televisão a dar as notícias à minha frente. Uma jovem estudante síria, de dezanove anos, que acaba de chegar a Portugal, é entrevistada: o que vem ela cá fazer, perguntam-lhe. Vem, diz ela, estudar engenharia civil para depois voltar à Síria e ajudar a reconstruir o seu país. 

Há pessoas que me entram assim coração adentro e nunca mais por muitos anos que viva, delas me esquecerei. Esta jovem vem aprender engenharia civil para ir reconstruir a Síria e quem recebeu a primeira lição fui eu.

Bem haja gente assim. 

(lembrei-me das incontáveis manifestações a que assistimos por este país fora: para mais salário e menos horário, para mais direitos e menos deveres, lembrei-me)