a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

30/10/2013

Pensar

Chamava-se Song Yonglun, o meu amigo chinês. Era professor catedrático na Universidade Tecnológica do Sul da China e veio a Lisboa por alguns meses fazer um trabalho de investigação. Por acasos felizes da vida, calhou ficarmos, ele e eu, na mesma sala.

Tinha as pálpebras superiores a cair suavemente e quase sem curvatura por cima dos olhos escuros, um pouco tristes.

Se conversava no corredor com alguém, juntava os pés e as mãos, braços caídos mas não abandonados, baixava ligeiramente a cabeça enquanto ouvia e depois ficava a pensar um pouco antes de falar.

Nessa altura, para falar, levantava a cabeça olhando de frente o seu interlocutor e mantendo a postura corporal. Ele era humildade, inteligência e sabedoria. Paz e tranquilidade.

Eu, que saltitava de crescer em crescer ainda na casa dos vinte e cheia de inseguranças, dúvidas e certezas, mistura explosiva, parava o relógio do tempo para o ouvir.

De cada vez que saía da sala onde trabalhávamos, ele fazia-o a caminhar para trás, para que não me virasse as costas. Na minha existência imberbe de então, se da primeira vez achei aquilo esquisito, logo me enchi de respeito.

Se nos via, a mim e aos outros colegas do corredor, a rir com as diferenças que ele trazia, baixava os olhos e sorria na espera sem impaciência. Nós haveríamos de crescer.

Vivia no campus universitário da sua universidade, numa das melhores casas atribuídas aos professores da cátedra. Tinha cerca de vinte metros quadrados e partilhava-a com a família, ao todo quatro pessoas. Nunca tinha tido um domingo livre para ir ao parque com a sua única filha, de cinco anos, e assim cumprir o sonho da sua mulher. Trabalhava sete dias por semana até muito tarde.

Parecia saber sempre como reagir aos conflitos que outros criavam.

Um dia perguntei-lhe para que era eu calhada, o que achava ele? Ouviu a minha pergunta, foi pensar. No dia seguinte deu-me a resposta: editora de livros, eu devia ter uma editora de livros.

O meu amigo Song Yonglun voltou para a China em agosto de mil novecentos e noventa e cinco.

Eu, animada da sabedoria que dele tomei, com profundidades essenciais sobre a existência humana e a dar os primeiros passos na arrumação de prioridades, escrevia-lhe. Por vezes enviava-lhe um facsimile, por ser tão imediata a comunicação. Ele nunca respondia.

E eu insistia, insistia, deve ser da distância, das linhas, insistia.

Um dia respondeu. Pediu-me para não comunicar com ele porque lhe causava problemas na Universidade, não tinha autorização para receber as minhas missivas. Não era suposto ele ter feito amizades em Lisboa.

Nunca mais lhe escrevi e nunca mais o vi.

Não sei se agora vive menos preso nas amarras da sua cultura ou se isso não lhe importa porque a sua alma é livre.

O que sei que sei é que ele continua a dar-se tempo para pensar.

29/10/2013

Barriga do peixe

Há muito tempo que não te escrevo.

Ainda tenho as palavras sujas e custa-me mandar-tas assim.

Aqui os dias já se estão a vestir de cinzento e as lágrimas do céu começaram a cair e molharam tudo. Mas eu não me importo.

A roupa lavada que estendo para secar enquanto penso em ti, não seca, mas descobri que se a lavar a sessenta graus fica com menos mau cheiro, é o que agora faço.

Este mau cheiro, este, que se veio colar às minhas palavras maculadas, desculpa.

O correr dos dias aqui é constante, a monotonia só a quebro porque oiço música diferente a cada hora. De resto é o que sabes, não te conto nada de novo, não lavei as palavras.

É o trabalho, a ilusão de prosperidade, a hora da saída, o anoitecer, o supermercado quase sempre, as limpezas domésticas às vezes.

Esforço-me, tu sabes disso. O detergente da máquina da loiça acabou, mas na loja só havia pastilhas de lavagem completas, daquelas que eu não uso, cinco em um ou coisa assim. Mas trouxe-as, são boas, modificam-me os dias e têm três cores.

Vês como as minhas palavras não prestam?

Encontrei uma maçã velha no fundo da cesta da fruta e descasquei-a a pensar em ti, porque penso em ti o tempo todo, estava tão seca, deitei-a fora.

E enquanto estendo estas palavras moles, pegajosas, mofentas, e as estico, as tento endireitar para ti, ordenar, arrumar em caixas com laços azuis e lilases, oiço uma voz chorosa que vem de outro apartamento. É a vizinha que não sai à rua há meses, que vê televisão e que ouve as histórias de amor com mentiras. Mas amor com mentiras não é amor.

O ar está a arrefecer e em breve vou ter frio de noite por causa do vazio que deixaste ficar. É por isso que calço as meias grossas que te fazem rir, são coloridas ao menos.

Já chegou a foto que me mandaste pelo correio. Colo-a aqui no fim das minhas palavras ímpias que não as pude sagrar. Gosto do azul que ostenta e da agonia que me firma na alma porque me mostra quão longe estás, me autoriza a dor e me rega as lágrimas. Aqui os homens ainda usam calças.

Queria enviar-te chá de tomilho, a erva que meto na barriga do peixe antes de ir ao forno, mas tu não gostas de chá.

Daqui a dias, quando chegares, mostro-te como o meu sorriso voltou.

28/10/2013

O elefante

Tinha quatro anos de idade e era o dia em que a minha mãe me ia levar ao jardim zoológico.

Seguíamos no seu Fiat 127 cuja matrícula ainda sei e que muito mais tarde foi roubado do parque de estacionamento de Algés. Nunca mais voltou.

Cá vamos, então, no Fiat, Campo Grande fora. O primeiro destino é a casa da amiga da minha mãe cujo nome esqueci (memorizar matrículas é que eu faço bem) e que tem uma filha da minha idade.

Ora neste feliz dia vamos todas, as quatro, visitar o jardim dos animais, local mágico, aonde eu estalo de vontade de ir, mas que hoje me amedronta porque, mãe, disseste que vamos andar no elefante, disseste? E se ele não quer?

- Quer, filha. Mas antes de chegarmos a casa da Ana (acabo de a baptizar, Ana serve muito bem), tira a pastilha elástica da boca, para não ires a mascar, que é muito feio.

Obediente, que a minha mãe é que manda, tiro a pastilha da boca e, como não vi, dentro do carro, depósito apropriado, fica a pastilha encolhida na minha mão esquerda, fechada, só até sair e encontrar um caixote do lixo. E entretanto pensava no elefante, ele é tão grande, será que vou cair?

Chegamos à porta da Ana, mas não houve tempo de sair e procurar o desejado caixote, a pastilha fica aqui mais um bocado, muito sossegadinha na minha mão e já deve ter adormecido, porque me parece que está espalmada.

Entra a Ana no carro e então, efusivamente, olá Susana, que crescida, dá cá um beijinho, e tal, aquelas coisas que me enervam, principalmente com isto na mão, se tivesse demorado mais um bocadinho, eu tinha saído e procurado o lixo, e o medo do elefante, crescida eu?

A outra miúda instalou-se a meu lado, também não é nada crescida, tem é cá uns olhos curiosos, espero que não saiba do que tenho escondido na mão. Olá, disse-lhe eu.

Dali ao jardim dos elefantes foi um salto e, finalmente, estou fora do carro.

Entramos nos portões de Sete Rios e avisto o desejado cilindro esverdeado-sujo, feito em rede metálica, salvo erro, a olhar para mim. Detenho-me junto dele e disfarçadamente abro a mão mesmo por cima do círculo aberto ao céu, que alívio vai ser, deixar o rejeitado pedaço de goma mascada cair lá para dentro.

Mas ela não cai. Que coisa, a pastilha espreguiçou-se e agora não sai, está agarrada, colada à minha mão, acinzentada e suja, ai, como se faz para deitar isto fora, tenho que raspar, mas se calhar cola-se à outra mão, é melhor não mexer.

- Anda lá Susana, anda!

Fecho a mão e corro para as apanhar não vá verem esta porcaria, que vergonha. Não posso dizer nada, não quero deixar a minha mãe ficar mal perante a amiga e a outra petiza que é muito curiosa, já sabemos que pastilhas é feio. Agarro com a minha mão direita a mão da minha mãe, porto seguro, talvez daqui ela me consiga ouvir o segredo se eu lho contar baixinho, mas não pode ser, a miúda não se afasta, vai ouvir tudo.

- Vamos andar de elefante? - pergunta ela, ansiosa.

Resposta positiva, entusiasmada, das mães em uníssono. Vem a miúda a correr pôr-se ao meu lado e tenta agarrar na minha mão esquerda para sermos duas crianças felizes a saltitar em vez de uma criança feliz a saltitar e uma criança infeliz agarrada à mãe, com um problema na mão e medo do elefante.

- Esta mão não se pode abrir - digo eu.
- Ai não? Porquê?
- Porque tem um segredo.

Ah, um segredo na mão. A outra menina parou de saltitar e caminha agora ao meu lado, a curiosidade ainda lá está, a avaliar pelos olhares de soslaio que me deita à mão, mas a admiração é mais evidente. Um segredo na mão!

- Ó mãe, eu também sou crescida, não sou? - oiço-a dizer, enquanto me concentro a pensar que desculpa arranjo para não subir ao elefante com uma mão a menos para me segurar.
- Claro que sim, querida.
- E as crescidas podem ter segredos, não podem?
- Hum? Podem...

Depois, olhos no chão, voz fininha, desanimada, confessa:

- É que eu também tenho um segredo... tenho medo de andar no elefante.

23/10/2013

Fada de espuma

Lembro-me muito bem do teu sótão.

Palco das histórias mágicas que me contavas, com fadas e princesas, o teu sótão foi o ninho onde nasceram os meus sonhos.

O soalho era feito de tábuas muito compridas entre as quais desapareciam os alfinetes que te caíam dos dedos quando experimentavas em mim os vestidos de verão que se faziam com as tuas mãos de anjo. Está quieta, dizias.

Eu queria os vestidos compridos até aos pés e tu dizias que não, isso não. Mas, depois da prova, eu ia ao cesto dos restos de tecido e escolhia um bem grande. Enrolava-o à cintura e pedia-te os alfinetes, prende aqui, prendes? Prendias. E deixavas-me ser a princesa das tuas histórias.

Lembro-me de te sentares à janela, aberta para os telhados de Lisboa. Recortava com a tesoura, devagar e desajeitadamente, os restos dos panos que sobravam das tuas costuras, para eu fazer as minhas. E, ao mesmo tempo, observava os pássaros que esvoaçavam perto de nós.

- Se eu cair da janela e escorregar no telhado, tu vais buscar-me?
- Não, querida, os pássaros apanham-te e trazem-te para casa.

E cantavas outra vez aquela canção que eu te pedia, a da fada de espuma, vá lá, só mais uma.


Muito tempo mais tarde, no dia em que morreste, perguntaste-me, admirada, porque gosto tanto de ti.

Não sabias que os teus panos e os teus alfinetes, as tuas histórias e cantigas, teceram para sempre o manto de protecção que ficou a pairar sobre mim?

Lembro-me muito bem do teu sótão, avó.

Setenta e sete palavras

Hoje foi um dia bom.

A minha irmã Catarina escreveu um texto com setenta e sete palavras e foi lida hoje na rádio pela escritora que lança o desafio. Mais nada!