a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

07/05/2019

Altura vs altitude (um post fundamental)

Já com a refeição quente, muito quente, como avisou o comissário de bordo, em cima do meu tabuleiro, pergunta-me a sua colega que desejo eu beber. Dei a resposta que sempre dou a esta altura e também altitude: sumo de tomate.
- É a primeira pessoa hoje a pedir sumo de tomate! – informa, enquanto abre uma embalagem de litro ainda fechada.
- Ah sim? – promovo conversas com estranhos, aliás eu própria as enceto crendo que melhor irá o mundo se o fizer. E já agora vou sentada na fila vinte e cinco, o avião acaba para aí na trinta e um e esta hospedeira começou bem lá na frente a perguntar o que desejam beber os passageiros. Fica a explicação, importantíssima para a estatística.
- Ainda por cima é muito saudável! – exclama enquanto serve o copo de plástico que fará meu.
Estou bastante interessada em ver estes copos passarem a outros materiais em dois mil e vinte. Tipo vidro. Esta nota quis também ficar.
- Pois é saudável… – segue-se a minha vez de falar conversa deitando-a fora, mas mantendo as ligações no ar (nesta altura e também altitude, conforme já disse) e boas de saúde, segundo eu, tal tal.
- Principalmente no avião! – rematou ainda a toda bem-disposta hospedeira, até parece que sabe ela que eu nunca bebo sumo de tomate no solo, mas sempre o bebo no avião.

Explicar isto é que já não é possibilidade que me assista. Que é como quem diz não estou à altura. Qualquer que seja a altitude.

(este post para além de fundamental, ainda ficou indentado, coitadinho)

26/04/2019

Ainda a esperança na liberdade e a própria e as voltas que a vida dá (grande título)


Na primeira noite depois de ter saído de casa com as minhas filhas bem pequenas e ido viver com elas para um também pequeno apartamento no alto de um prédio, ouvi a maior discussão a que alguma vez assisti. Eu sentia-me extremamente feliz, é preciso notar. Do outro lado da parede onde estava a minha cama encostada, essa nova parede, alugada, eles discutiam com ameaças de morte, eu vou e mato-te, eu também, eu com uma faca, eu com duas. A minha felicidade egoísta, recém-conquistada, não estava sendo perturbada, mas fiquei alerta. Ouvia coisas a cair, os gritos de conteúdo já referido de ambas as partes, dela e dele. Era evidente que não havia um vítima e outro agressor, eram ambos vítimas. Quando o estrondo quase abanou a parede comum – uma cadeira talvez, atirada com força – eu preparei-me para chamar a polícia, fazer alguma coisa. Mas não fiz. O barulho cessou logo a seguir e eu depressa adormeci.
Hoje, passadas quase duas décadas, num prédio erguido alguns quilómetros mais a norte, ouvi a segunda maior discussão. Aliás, ainda estou a ouvir. Segunda porque ainda não voaram cadeiras, nem coisas caíram (para além de lágrimas, isso sim).

(é que lembrei-me, ver título - que vê-se bem)

Notícia de última hora: já se ouve rir e até cantar. O cão ladrar. Melhor, quer isto dizer.

25/04/2019

Esperança

Liberdade é escolher a hora do sol para tornar a sair e deixar o carro na garagem. Caminhar pouquíssimo até à loja do chinês e comprar um balde verde, um alvéolo furado em verde para encaixar no balde e uma esfregona de cabo também verde que será espremida no alvéolo furado encaixado no balde com clique. Liberdade é escrever isto e ainda que faltava o clique. É comprar um pequeno alguidar que o outro se estragou nas obras, também verde. O balde anterior igualmente se estragou, e a esfregona, o escadote. O meu escadote. Hoje escolho verde. É a cor que dizem da esperança e eu sou livre e supersticiosa se quiser. A esperança que pode ser prima da liberdade, tenho a certeza. Ainda na loja do chinês, tomei na mão livre um utensílio próprio para lavar janelas com borracha afiada em lâmina de um lado e esponja do outro. Bem pensado.
Caminhei de volta para casa ainda com sol. Sol e o arsenal descrito nas mãos. Ao chegar lavei o chão da cozinha, da entrada, do corredor, da varanda e de uma casa de banho. Lavei mais coisas na casa de banho. O chão da cozinha lavei duas vezes. A mesa e as cadeiras só uma, ficaram lindas. Continuo a sentir debaixo dos pés o pó finíssimo depositado pelas obras. Vive cá em casa há praticamente seis meses sem parar. Parou no chão, vamos. E dentro dos roupeiros. A entrada também lavei duas vezes. E a porta mais usada e os puxadores, com um pano. Uma vez. Liberdade pode ser não dizer a cor do pano. Ficou nojento. Os vidros não lavei nada, mas entreguei o trabalho que tinha data de amanhã e o outro para segunda feira levou um avanço. Liberdade é comer bacalhau cozido quando as miúdas não estão, o cheiro que fica, aquilo tudo e não as ouvir reclamar. Liberdade é o silêncio.

Não sei o que é o oposto de liberdade. Mas a esperança de nunca vir a saber, sei.

19/04/2019

As patas (presumo que duas)

Há quem diga que aquilo que desejamos se cumpre. Comigo tem esta crença tecido mais longe, basta dizê-lo sem propriamente o desejar: cumpre-se.

Desta vez quem bate à porta é o senhor Valério. Está hoje diferente, quase bonitinho. Penso que talvez se deva a ser a sexta feira santa (aqui devem faltar umas maiúsculas), ou seja, não tem o ar de ter acabado de pintar paredes e escavar na terra e correr a maratona tudo ao mesmo tempo. Tem o ar de quem acabou de tomar banho e pentear o cabelo. Então o senhor Valério dá-me os bons dias com o seu vozeirão, o Mercedes nem o desligou, ficou ali na estrada a ouvir a conversa. Pergunta como está a senhora (a senhora sou eu), digo que estou bem, e estou, e logo empunha ele ao alto um saco de plástico com o quê dentro? Ovos, pois claro!! Muitos! (devem ser uma duzinha, penso cá para mim, mas não pergunto). Observo a oferta, agradeço, agradeço, normalmente agradeço em duplicado, é mania minha, e vejo, de repente, através da transparência do plástico que há lá dois maiorzinhos e aí sim, aí pergunto.
- E estes dois maiores são... de quem?
- Esses são de pata! - ri-se muito o senhor Valério provavelmente da cara de espantada que fiz.
Confessei.
- Nunca comi ovos de pata (em princípio). Não sabia que também tinha patas, senhor Valério.
- Pois tenho! - continua a rir-se, está claramente divertido - Os ovos são iguais aos de galinha, só tem de fazer mais força para partir a casca.

Portanto estes ovos de galinha vão saber-me a pato e os de pata também. Referência seja feita a dois posts atrás, se não fosse pedir muito.

E para que não se duvide da premissa com que começa este, aqui fica a prova.


Desejo uma Páscoa Feliz a todos os meus queridos e pacientes leitores.

16/04/2019

Corvo*

Bem no centro de Miranda do Corvo, onde se pode observar quão magrinho corre o rio*, se pode sentar numa esplanada a tomar alguma coisa e ainda se pode lamentar os prédios abandonados ao destino cruel que a entropia das coisas lhes dá, estava, hoje mesmo, um homem agarrado a uma máquina de soprar folhas do chão. Ou-tra-vez (esta situação). Fiquei a olhar, com certeza de boca aberta. A tentar compreender. Não, ele não está a aspirar as folhas do chão – por um momento pensei, fui otimista, queiram desculpar – ele está a so-prá-las de uma posição para outra posição. Juro. E um barulhão. Ora estando a olhar o homem a fazer aquilo tentando entender a utilidade de tal isso, estou também a segurar no meu cabelo, sim, realmente está comprido, é verdade, mas estou a segurá-lo porquê, porque será?
Porque está uma ventania! Ou seja, as folhas não sossegam em lugar nenhum, sopra-as o homem e a máquina, sopra-as o vento. Qual deles ganha parece que ninguém sabe.
(se alguém me pudesse explicar)
Bom, adiante. Miranda do Corvo tem mais para a gente contar. Por exemplo, nas tabuletas da auto-estrada pode ler-se anunciada na variante “Miranda Cvo”, ao passo que nas tabuletas de não auto-estrada pode ler-se a versão “Mda. do Corvo”. Pode pode.


(Se eu não tenho mais que fazer? Tenho. Mas também tenho um blogue, não é?)