a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

30/09/2015

Post sobretudo mais ou menos curto

Ao almoço não quiseste sopa, eu comi a de ervilhas. Algumas inteiras, as demais em união irreversível, cremosa, de um tom de verde que me aprisionou os olhos por causa da sedução cromática à qual já sei desde os vinte e cinco anos de idade que sou sensível. Gostava de ter um casaco de inverno deste tom de verde era o meu pensamento, estava até a ver-lhe a textura macia, a imaginar-lhe os botões de massa do mesmo tom, grandes, o casaco forrado para deslizar melhor no abraço de o vestir, o que eu gosto de casacos e eles de mim, de certeza que é isso, quando tu repetiste que estás ansiosa pela tua primeira aula de condução, logo à tarde. Pestanejei nas ervilhas para me libertar e virei o olhar para ti, sinto-me sempre um tanto culpada por desviar a atenção de quem está presente, absorta no meu mundo vibrante que é magnético, eu que tenho teorias tão bonitas, ainda por cima eu e os casacos e as cores, elas hábeis sugam-me em vórtice, algumas cores, e se eu quisesse exagerar diria todas mas não. Sentada à minha frente, continuas a falar e a sorrir, mexes as mãos, inclinas a cabeça, ainda não sabes que és linda e és tanto. Pedi-te para repetir, o que disseste, filha? Enquanto te olhava não te ouvi, uma das minhas teorias desdiz a de as mulheres fazerem múltiplas coisas em simultâneo, mentira imensa. E tu vais de fazer a inclinação de cabeça e o olhar maroto, depois a pausa, a seguir baixas mais a cabeça e olhas reprovadora a fingir para mim: Ó mãe, pára! Mas parar de te amar com os olhos não farei até morrer. Retomas o assunto da condução, da aula que vais ter, que estás nervosa, esperas ser capaz, dizes, e torces as mãos no colo, não preciso de as ver para saber que as torces, és tão bonita, filha, e não sabes que é tão bom estar aqui a almoçar contigo enquanto o meu lugar lá na cantina vazio.

Sucedeu este almoço não hoje mas há uma lua talvez e eu apanho este rascunho no monte de rascunhos que é o meu. Pensei que era capaz de dar um post mais ou menos, mais ou menos curto, sobretudo. Longo não. Longo há-de ser o meu casaco sopa de ervilha. Casaco não, sobretudo.

28/09/2015

A primeira lição

Também o meu foi um dia longo. Mas ainda o vou esticar mais um bocado porque isto tem de ser escrito.

Tomei o pequeno almoço com o sol a nascer à minha direita e a televisão a dar as notícias à minha frente. Uma jovem estudante síria, de dezanove anos, que acaba de chegar a Portugal, é entrevistada: o que vem ela cá fazer, perguntam-lhe. Vem, diz ela, estudar engenharia civil para depois voltar à Síria e ajudar a reconstruir o seu país. 

Há pessoas que me entram assim coração adentro e nunca mais por muitos anos que viva, delas me esquecerei. Esta jovem vem aprender engenharia civil para ir reconstruir a Síria e quem recebeu a primeira lição fui eu.

Bem haja gente assim. 

(lembrei-me das incontáveis manifestações a que assistimos por este país fora: para mais salário e menos horário, para mais direitos e menos deveres, lembrei-me)

24/09/2015

Big Bang pode ficar com maiúsculas

Quando hoje cheguei ao ginásio a arrastar mentalmente a perna esquerda devido aos vinte e seis quilómetros de bicicleta feitos no sábado passado, acho eu que foi disso, reparo que estão todos a olhar para cima e a trocar exclamações apontando para o canto superior esquerdo de quem está virado para a janela e apercebo-me agora de que isto com um desenho ia lá melhor (se desenhos soubesse eu fazer). Portanto também a minha cabeça se vira para ali.

E agora estou cheia de vontade de escrever. De dizer que na segunda feira saí da minha toca laboral e meti-me no carro, percorri umas poucas ruas de Lisboa debaixo de um sol que dizia o termómetro valer trinta e um graus celsius (celsius devia ser com letra maiúscula mas fica feio, já bastou Lisboa), um calorão dos bons e cruzo-me com hordas de meninos envergando as vestes pretas universitárias, pintalgadas de alfinetes redondos e coloridos na capa que trazem pelas costas, não vá de repente cair um nevão e os meninos ficarem cheiinhos de frio coitadinhos e eu não sei o que querem dizer aqueles alfinetes.

Mas não foi só isto. Hoje tive uma epifania muito antiga horas antes de entrar no ginásio e ver toda a gente a olhar para cima. Tomei o café depois de almoçar na cantina do costume, havia caldeirada e disse a dona Esmeralda que gosta de caldeiradas, somos duas respondi-lhe eu, enquanto ela pisca o olho ao convidado que hoje veio almoçar connosco, por conseguinte seria a minha vez de abanar a cabeça e olhar por cima dos óculos reprovadoramente caso os tivesse, mas dizia eu que a epifania veio e foi a seguir à caldeirada que o fez. Ao beber o café, apercebo-me de que os átomos líquidos castanhos e quentes, amargos, entram em mim num feliz reencontro. Sim, precisamente um reencontro. Admitamos sem medo que todos estes átomos, os do café, que já sabemos como são, e os meus, que são imensos, estiveram juntos num mesmo ponto, muito apertadinhos, imediatamente antes do Big Bang (daí ser tão bom beber café).

De regresso ao ginásio onde ficámos com as cabeças suspensas do canto superior esquerdo de quem está virado para a janela, sinto um suspiro de pena no meu coração ao ver um par de olhos pequeninos, vivos e pretos, assustados, numa cabeça de andorinha; está este passarinho encolhido na reentrância que alguém se lembrou de fazer na parede a toda a volta da sala como se a emoldurasse lá bem junto ao tecto (falta o desenho). De forma que, mais algumas exclamações e inclinações de cabeça depois, alguém abriu a janela bem aberta e são horas de começar. Manda-nos a professora ir buscar um colchão e eu ai jesus o colchão (já sei que vai doer). Com a andorinha ensaiando voadas por cima das nossas cabeças a cada cinco ou dez inspirações, procurando a saída que não encontrou até ao fim, a aula foi uma espécie de tortura também para mim. Continuo sem conseguir pôr um calcanhar ao tecto e equilibrar o resto (imensos átomos) em forma de cadeira virada ao contrário num dedo mindinho espetado no chão e ao mesmo tempo inspirar e expirar aos comandos da voz da professora, que têm paragens demasiado longas entre as inspirações e as expirações, se não fiquei roxa senti-me perdida, nem mesmo a caldeirada me valeu. No fim daquilo e de a professora me perguntar se está tudo bem comigo, consegui finalmente pôr-me de pé outra vez. E então ouvi alguém dizer pilates, isto foi pilates.

Portanto em primeiro lugar, não torno a fazer brincadeiras com o Big Bang, bebo o café sem me dar a ideias e acabou-se. Em segundo lugar, era uma coisa assim que eu queria no ginásio. Qual pilates qual quê.

21/09/2015

Fazem falta

Nunca aqui escrevi sobre este meu colega que hoje vem ter comigo e me pede duas coisas, põe um bloquinho de papéis azuis em cima da minha mesa para eu escrever as coisas que ele me pede quando tiver tempo de as encontrar se faz favor e depois eu digo espera aí um bocadinho que já levas mas a rede está lenta nesta segunda feira de verão que isto é um verão que aqui está, ele à espera o bocadinho que eu pedi, sem vontade nenhuma, a mexer-se para se ir embora, depois dás-me quando puderes, não é pressa, e eu é a rede que está parva, a ver se vai agora, que eu quero é despachar-me, espera lá e depois sem eu querer acontece-me pegar nos óculos de ver ao perto e pô-los na cara.

Esta parte se fosse num filme seria rodada em câmara lenta para lhe conferir o essencial, os meus imprescindíveis e recentíssimos companheiros do dia a dia, muito bonitos os meus óculos de ver ao perto, o meu colega já traz os dele, feios, pendurados num colarzinho desde que o conheço há muitos natais, é rapaz entradote, o meu colega, e está a olhar para mim como quem pensa que nunca me tinha visto os óculos e eu a fazer conversa enquanto a rede não quer vir, digo isto assim

- Foi num instante. Já preciso deles, há um mês era ainda capaz, ou dois, mas agora... foi num instante. Estamos velhos, meu caro.  

Ora o meu colega, nada caro, em vez de dizer o que devia ter dito do tipo tu nada velha muito nova e eu é que sim muito velho, porque afinal seria essa a verdade mais adequada, estica-se todo a olhar por cima da minha cabeça, sem óculos nenhuns na cara, o gajo, os óculos feios pendurados no colarzinho ao peito e lê, para mostrar que ele nada velho

- Fazem falta.

Pendurei-o na minha parede em novembro de dois mil e treze, leio-o de vez em quando desde então e sempre que necessito de refrescar a prece, o pedido, a reza, o desejo. O meu colega só lê o título, o resto ele não consegue de onde se encontra nem eu o convido, isso é que era bom, o post é meu e é a mim que (também) fazem falta pessoas assim.

20/09/2015

Deus me livre

Estaria a tarde de setembro adiantado calma, morna e com possibilidades de se ouvirem as moscas, caso as houvesse, não fosse a algazarra que vem aos altos e baixos, mais dos primeiros que dos segundos, dos lados da cantina.
O senhor, vamos supor que se chama Ramos, trabalha na portaria da empresa e regressou de férias neste muito dia, para quem tem a pachorra de me ler há tempos, sabe que "muito dia" vem directamente traduzido do inglês, há expressões que se me colam aos dedos e não saem nem com pasta de dentes, mas dizia eu que o senhor Ramos regressou de férias e trazia muita saudade da dona Esmeralda que anda nas lides das limpezas da cantina e sei lá mais o que faz ela ali enquanto canta, mas hoje não canta, o dueto que ouvimos é outra coisa.

Uma vez que sou sensível a barulhos, não lhes gosto dos comprimentos de onda, estou aqui estou a levantar-me e a ir lá das duas uma, ou para me divertir, ou para lhes perguntar se ouvem mal com cara feia, eu, mas ainda não me decidi.

Devido à inercia que me manteve a terminar uma coisa que estava a fazer muito bem feitinha, levantei-me só alguns minutos passados, pus-me ao caminho que não é longo, mas quando lá chego já só a encontro a ela a esfregar a vitrina da montra das sobremesas e das saladas, com muito vigor aplicado ao pano amarelo. 
- Vim tarde para a festa, já percebi. – isto digo eu. 
- Qual festa, menina? ... Aquela conversa? Ouviu?! 
- Ouvi a barulheira. O senhor Ramos vinha com saudades suas, não vinha? 
- Ele?! – olha-me por cima dos óculos com o pano a descansar-lhe na mão, por um momento, a avaliar se me conta se não conta. 
Diga lá, ele vinha. 
Olhe, vinha, pronto. Disse-me que pensou em mim nas férias, acha normal?! – e retoma a esfrega do vidro que deve ser o vidro mais lavado de toda a região de Lisboa e Vale do Tejo.
- E a dona Esmeralda? Não pensou nele? 
Aixa?!?!?!? - o olhar reprovador que me oferece por cima dos óculos é dos que eu gosto, mas crendo que me estiquei um pouco para além das minhas funções, arrepiei caminho. 
Dona Esmeralda, até eu pensei nele de cada vez que vi o outro, o substituto, qual é o problema? 
Ela sacode a cabeça com firmeza, muda de vidro e atira-me com o que lhe vai na mente. 
Sabe porque é que ele falava alto? Eu digo-lhe. Ele vinha com aquelas conversas das coisas sem sal e sem glúten, sabe como ele é com a mania das alergias, e eu disse-lhe, sabe? Eu disse-lhe – a esfrega continua com o mesmo vigor, que é muito – disse-lhe que o que ele devia era ser menos alérgico àquelas coisas e mais alérgico ao alho e à cebola crus, que ele come muito. – pausa para me fitar avaliando o impacto da ideia que acabou de revelar. 
A minha filha mais velha – a dona Esmeralda tem duas filhas – que trabalha muito com médicos, ela sabe, ah pois sabe, e diz que o alho e a cebola crus fazem muito mal. Devem ser cozinhados, está a ver? Assim num refogado bem puxadito, está a ver? – o refogado bem puxadito acompanha com uns gestos dificílimos de descrever realizados com a mão livre e que dão a ideia de estar a apalpar balões no ar - mas ele não gostou que eu lhe dissesse aquilo, o que é que lhe hei-de fazer? Ele é assim, tem lá aquela mentalidade dele... - conclui com um encolher de ombros.
Eu não a interrompo. 
- Sabe que ele pensava que os rapazes que vê na televisão sem pêlos nenhuns, todos lisinhos, está a compreender? Pensava que já tinham nascido assim, os rapazes? – o pano amarelo está agora mais dobrado a limpar as calhas onde correm as portas de vidro da vitrina.
Dona Esmeralda, quais rapazes? 
Ó filha, esses moços, esses do desporto, que aquilo é tudo lisinho, não é? Pois ele pensava que tinham nascido assim, não sabe que os homens também fazem depilação. Definitiva! 

O detalhe de ter a depilação masculina sido adjectivada como definitiva, conduziu a conversa para desenvolvimentos não autorizados para publicação.

No fim, com uma vitrina a brilhar por testemunha, a dona Esmeralda remata com um deus me livre, filha, deus me livre!

De volta ao meu trabalho, não sei se o deus me livre se deve aos hábitos de consumo de alho e cebola crus, se à mentalidade dele ou se a ambos. Só sei que a solidão do senhor Ramos me entristece.